POLÍTICA

Governo Temer decepcionou, avaliam senadoras do PMDB um ano após impeachment na Câmara

Kátia Abreu, defensora de Dilma, e Marta Suplicy, adversária da petista, analisam comando do partido delas na Presidência.

07/04/2017 15:48 -03 | Atualizado 17/04/2017 02:22 -03
Montagem / Agência Senado
Senadoras do PMDB, partido de Michel Temer, Kátia Abreu e Marta Suplicy avaliam que governo sofre desgaste um ano após impeachment de Dilma.

De lados opostos sobre o impeachment de Dilma Rousseff, mas ambas do partido do presidente Michel Temer, as senadoras Marta Suplicy (PMDB-SP) e Katia Abreu (PMDB-TO) avaliam que o governo atual erra ao adotar medidas duras para trabalhadores em busca do ajuste fiscal.

Um ano após a Câmara dos Deputados aprovar a admissibilidade do impeachment da petista, as duas parlamentares têm em comum à crítica ao rigor da reforma da Previdência e à terceirização irrestrita.

"Querendo ou não, o povo trabalhador e as pessoas mais pobres vão ser, em um primeiro momento, mais afetadas", afirmou Marta em entrevista ao HuffPost Brasil. Favorável ao afastamento da ex-presidente, a senadora acredita, por outro lado, que Temer "está colocando o País num caminho do desenvolvimento que não era possível com ela (Dilma)".

A ex-ministra da Cultura de Dilma afirma que "seria impossível aprovar qualquer coisa de relevância econômica" com a ex-presidente, mas reconhece que houve um desapontamento daqueles que acreditavam que a corrupção teria um fim com a troca de poder.

As pessoas achavam que tirando o PT, que estava com uma pecha de corrupção, e a Dilma, haveria um cenário novo. Acho que as pessoas esperavam isso. Daí uma grande decepção que o cenário novo foi também tumultuado por uma série de denúncias muito duras para a Presidência e para os ministérios do presidente.

As duas peemedebistas aparecem nas delações da Odebrecht, mas as citações a seus nomes só foram reveladas depois que as entrevistas para esta reportagem já haviam sido feitas.

Uma das vozes do PMDB contrária ao impeachment e ex-ministra da Agricultura da petista, Kátia Abreu sustenta que as reformas propostas pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, são similares às defendidas por seu antecessor, Joaquim Levy. Para ela, a diferença é que Dilma não tinha apoio político para aprovar matérias no Congresso.

Na avaliação da peemedebista, mudanças na Previdência deveriam ser feitas aos poucos. "Se tem alguém que pode tomar medidas impopulares é quem vem com a força do voto", afirmou à reportagem. Ela afirma que o PSDB exige de Temer medidas que nem o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso tomou.

A população sofrida, desempregada, perdendo plano de saúde, renda, vem de lá para cá com um tiroteio de perda de direitos, que é o que foi apresentado. Mesmo que isso seja vital para o País, nós temos o momento para fazer isso. Ninguém pode pretender fazer sozinho a mudança de um país (...) A equipe econômica e o próprio PSDB exigiram do Michel o que nem o presidente deles fizeram.

Kátia Abreu também defende que a União terceirize a cobrança de dívidas da Previdência, por meio de um leilão. "Vai trazer um pouco mais de humanidade no discurso. Não é hora de violentar os direitos", afirmou.

As duas senadoras fizeram uma avaliação das mudanças no País desde 17 de abril de 2016, quando a Câmara dos Deputados aprovou, por 367 a favor, 137 contra e sete abstenções a admissibilidade do impeachment de Dilma. Leia os principais pontos.

Desgaste de Dilma

Marta Suplicy: Havia quase um consenso no Brasil de que ela não tinha mais condição de conduzir o País. Nós estaríamos nos atolando cada vez mais, sem nenhuma perspectiva de saída visto a total incapacidade dela de manter um diálogo com o Congresso. A partir disso, a expectativa que se tinha em relação ao Temer era que ele faria um governo que recuperaria a capacidade de conversa com o Congresso e poderia aprovar as leis necessárias para que o Brasil retomasse seu desenvolvimento econômico (...) O governo criou 1 milhão e 200 mil empregos. O Temer está colocando o País num caminho do desenvolvimento que não era possível com ela.

Kátia Abreu: Levy é do mesmo perfil do Meirelles. As medidas que ele propôs àquela época são as que estão sendo propostas agora (...) O que aconteceu com Dilma é que nós tínhamos uma crise política e um desejo forte dentro do Congresso do impeachment, uma disputa política. Então impediu que ela fizesse todas medidas indicadas pelo novo ministro da Fazenda, inclusive a repatriação, as desonerações e tantas coisas que ela propôs, incluindo aumento de impostos.

Ajuste fiscal

Marta Suplicy: Foram dez medidas econômicas do governo Temer que considero mais importantes. O teto de gastos é uma delas. É algo que seria impossível aprovar na gestão da Dilma, como seria impossível aprovar qualquer coisa de relevância econômica (...) Não foi uma alegria para ninguém votar, mas foi um ato de responsabilidade, tendo obtido algumas salvaguardas para Educação e Saúde, mas que certamente também sofrerão. Menos que as outras áreas, mas sofrerão porque o recurso é limitado.

Kátia Abreu: Quais reformas foram aprovadas até agora? Absolutamente nenhuma. O teto sozinho, sem reforma da Previdência, significa zero.

Reformas e custo social

Marta Suplicy: Querendo ou não, o povo trabalhador e as pessoas mais pobres vão ser, em primeiro momento, mais afetadas. Depois você vai ter uma adequação e uma recuperação da Previdência que vai beneficiar a todos. Mas no primeiro momento vai ser difícil. Agora, nós temos a escolha - e assim mesmo muito limitada por dados que variam enormemente também - de quão profunda a reforma será e quanto nós vamos conseguir proteger os que mais precisam. (...) Às vezes eu acho que a equipe econômica fazendo bem seu papel esquece de um grande número de brasileiros que mal consegue sobreviver. Isso eu sinto falta.

Kátia Abreu: Estamos num governo de transição, que não teve o voto direto. Era o vice-presidente. Assumiu legitimamente, mas não foi votado. Temos uma situação emocional ruim no Brasil por conta do impeachment. Existe um país dividido. Uma crise econômica. Uma crise de corrupção violenta no País. Será que é a hora de nós fazermos uma mudança tão radical naquilo que é mais sensível para a população? (...) A população sofrida, desempregada, perdendo plano de saúde, renda, vem de lá para cá com um tiroteio de perda de direitos, que é o que foi apresentado. Mesmo que isso (reforma da Previdência) seja vital para o País, nós temos o momento para fazer isso. Ninguém pode pretender fazer sozinho a mudança de um país.

Terceirização

Marta Suplicy: Temos que modernizar o País. Sou absolutamente favorável a um projeto de terceirização, a uma reforma trabalhista e da Previdência porque nós acompanhamos o que ocorre no mundo e vimos que o mundo não é igual a 30, 40 anos atrás. Ao mesmo tempo, temos que perceber onde a gente vive. As pessoas são muito pobres. Um pouco menos de 70% vive de salário mínimo. As pessoas não têm acesso à saúde, a uma boa educação. Não têm oportunidade.

Kátia Abreu: A terceirização foi um golpe mortal na população. Hoje pode terceirizar todo mundo. Eu sou a favor da terceirização, óbvio, porque eu sou uma mulher moderna. A terceirização é para acompanhar a modernidade. Agora, como eu posso ter uma empresa de vigilância em que eu só faço aquilo e vou terceirizar os guardas? Isso é loucura. Continuo a favor da terceirização para as áreas especialistas. Ampla, geral e irrestrita é um pano de fundo contra os custos da mão de obra do Brasil hoje. (...) O que o empresário não está aguentando não são os direitos. Não é férias, décimo terceiro, licença-maternidade, hora-extra. O que está matando o emprego no País é o custo trabalhista em termos de impostos para o patrão e para o empregado.

Reforma da Previdência

Marta Suplicy: Só os números da Previdência que podem nos ajudar a tomar uma decisão. De quantas pessoas vão ser prejudicadas, em que situação estão essas pessoas. A gente não pode tomar um decisão sem saber como as pessoas mais pobres vão ser afetadas (...) A gente tem que trabalhar com o que tem e fazer a reforma da Previdência possível e não a reforma ideal.

Kátia Abreu: Assim como Fernando Henrique, Lula e Dilma fizeram, ele (Michel) tem que pegar os pontos-chave e mais críticos: três, dois ou quatro pontos e aprovar aquilo. A sociedade vai amadurecendo. Depois vai avançando. Outro governo faz mais um pouco. De uma vez só não dá (...) A equipe econômica e o próprio PSDB exigiram do Michel o que nem o presidente deles fez. O que o Fernando Henrique não fez (...) O que as pessoas não conseguem entender é que a Previdência é solidária. Ela é diferente de um plano de previdência própria, que é a minha poupança. Aqui eu contribuo para o todo. Você precisa entender o país que nós temos pessoas com rendas e situações diferenciadas.

Corrupção

Marta Suplicy: As pessoas achavam que tirando o PT, que estava com uma pecha de corrupção, e a Dilma, haveria um cenário novo. Acho que as pessoas esperavam isso. Daí uma grande decepção que o cenário novo ele foi também tumultuado por uma série de denúncias muito duras para a Presidência e para os ministérios do presidente. E por uma determinação do presidente de fazer as reformas. (...) As duas coisas foram uma surpresa. Tanto a dimensão da contaminação da classe política. Porque não tinha essa clareza. Todo mundo dizia "o PT está sendo vitimizado". Agora, o PMDB, o PSDB, todos estão no mesmo barco. Esse discurso não existe mais. O que se arruma? Um discurso contra a política de perdas pelas reformas, que é um discurso que o PT está sabendo trabalhar muito bem.

Kátia Abreu: Um grupo político a favor do impeachment achou que o problema da corrupção era só com o PT. E nós já sabíamos à época que não tem partido santo no Brasil. E agora todo mundo está vendo, no Brasil inteiro, que todos os partidos estão envolvidos. Aqueles que eram a favor do impeachment, acharam que se jogasse Dilma aos leões, estava todo mundo salvo. O resultado está aí para quem quiser ver.

Instabilidade política

Marta Suplicy: Acho que vivemos uma dificuldade política desde o impeachment pela demonização que o PT fez da situação, dizendo que era inconstitucional, que era um golpe. Essa instabilidade foi trazida pela oposição. Depois foi acentuada pelo tumulto da Lava Jato.

Kátia Abreu: Se tem alguém que pode tomar medidas impopulares é quem vem com a força do voto. Como é um governo de transição, é um governo de pacificação, como ele anunciou que seria. E eu não estou vendo isso nesse momento. Ele está levando a população para uma conflagração de revoltas. Mesmo os que eram a favor do impeachment, estão todos conflagrados contra as reformas.

Mulheres

Marta Suplicy: Acredito que a sensibilidade do governo Temer é bem menor (...) Ao mesmo tempo, o governo Dilma era eleito por quatro anos. O do Temer é por dois. E para ele conseguir fazer o que tem que fazer, ele é um governo de coalizão, onde os partidos mandam. E os partidos mandam, então indicam. E eles não indicam mulher. Principalmente porque mulher tem pouco poder partidário. Somos poucas e com pouca representação. No governo Temer ele faz muito menos o que ele quer do que a presidente Dilma fazia. E isso implica restrições de todo o tipo. Agora, a mulher, ela não é a preocupação dele.

Kátia Abreu: Acho que as mulheres de certa forma se sentiram incompletas (com o impeachment) e vão querer logo ter uma mulher de volta para terminar o seu mandato. Homens e mulheres erram, mas para as mulheres parece que a punição pública é bem maior do que a dos homens.

Legado de Temer

Marta Suplicy: Ele tem a chance de entrar para a História se deixar um legado das reformas que o País há tantas décadas necessita. É muito difícil para o poder Executivo fazer reformas difíceis para a população e que a população reage. Isso está no preço. Agora, também não adianta fazer uma reforma que não muda o suficiente para diminuir o problema. Esse é o grande desafio.

Kátia Abreu: PMDB sai enfraquecido. Não tinha chance de ser um bom governo. Podia sentar qualquer um ali. Não tinha chance de ser diferente. Agora, depois que o navio está afundando, para você virar ele de lugar não é fácil. Luta. E vai na verdade assumir um desgaste que não é do PMDB. Uma coisa que acho que está equivocada é que governo é governo. Tem vários partidos que apoiam. O PMDB não é sozinho o governo. Isso está muito misturado, numa coisa só. Até nas propagandas. Usando todas as propagandas do PMDB para fazer propaganda de reforma. É colar para sempre, aprovando ou não a reforma; o PMDB que propôs.

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