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'Comer é um ato político': Você realmente conhece o que está consumindo?

Movimentos de transparência da cadeia produtiva e valorização dos produtores surgem em um mercado marcado pela alienação do consumidor.

07/04/2017 21:54 -03 | Atualizado 10/04/2017 14:15 -03
mythja via Getty Images
Alienação do consumidor é enfrentada por movimentos de transparência da cadeia produtiva.

Apesar da irresponsabilidade da Polícia Federal na divulgação de informações imprecisas e incompletas, a Operação Carne Fraca reacendeu um debate urgente: você realmente conhece o que está comendo?

A investigação detectou problemas em apenas 21 dos 4.837 frigoríficos do País. Mesmo assim, a desconfiança grassou entre os brasileiros. O resultado quase imediato foi uma maior reflexão sobre o que está chegando à nossa mesa.

Essa preocupação não é nova. Já faz mais de três décadas que os consumidores vêm se reunindo em busca de mais transparência sobre a própria alimentação, extremamente influenciada por produtos industrializados.

Um dos movimentos nessa direção, o Slow Food é um contraponto filosófico e político ao fast-food. O articulador do Slow Food Brasil, Glenn Makuta, explica que o consumidor pode desempenhar o papel de coprodutor ao influenciar o processo de produção e gerar novas dinâmicas sociais resultantes disso:

Comer é um ato político. Quando a gente opta por determinado alimentos, a gente está fomentando determinados tipos de produção. Faz diferença ir ao supermercado e comprar um alimento ultraprocessado ou ir a uma feira e conhecer o produtor e, a partir dessa confiança que eu estabeleço com ele, eu decidir comprar.Glenn Makuta, articulador do Slow Food Brasil, em entrevista ao HuffPost Brasil

A seguir, abordamos algumas das iniciativas locais para uma maior transparência na mesa:

Desacelerar para compreender

O Slow Food surgiu em 1986, quando o italiano Carlo Petrini soube que o primeiro restaurante do Mc Donald's seria instalado em Roma. No dia de sua inauguração, o fundador se reuniu com alguns amigos em frente à loja para cozinhar uma tradicional massa italiana. Para ele, ali estava o alimento de verdade, coerente com a cultura alimentar da região.

De lá para cá, o movimento se tornou internacional na defesa do que considera um alimento "bom, limpo e justo".

No Brasil, o Slow Food está espalhado em 60 núcleos nas cinco regiões do País. Os grupos, formados por chefs, produtores, ativistas e pesquisadores, trabalham em três frentes principais.

A primeira delas trata da proteção da biodiversidade alimentar. O projeto Arca do Gosto é um catálogo tanto de alimentos quanto da diversidade cultural que existe por trás deles, como os conhecimentos de processamento.

A segunda é a "educação" do gosto. De acordo com Makuta, o objetivo está muito além de apurar o paladar do consumidor para produtos tipicamente brasileiros, mas oferecer uma visão crítica de toda a cadeia produtiva e de distribuição à qual aquele alimento está relacionado.

"A gente quer empoderar o consumidor para que ele faça escolhas mais adequadas."

Mas a terceira e grande defesa do SlowFood é o encurtamento das cadeias produtivas.

O movimento acredita que por meio do consumo é possível transformar como o mercado opera. "A gente entende que só quando a pessoa encontra a ponta inicial da cadeia produtiva é que ela vai entender tudo isso. Quando você consome direto do produtor, você o valoriza e há uma maior transparência. Só aí você sabe a qualidade real do seu alimento."

Para Glenn Makuta, o resultado da Operação Carne Fraca, que efetivamente encontrou toxinas e excesso de amido e ácido sórbico em salsichas e excesso de água em frango, reflete como o consumo atual de produtos de origem animal é "absurdo". Ele defende que o primeiro passo para a sustentabilidade está efetivamente na diminuição desse consumo.

Na visão do Slow Food é melhor você consumir menos, optando por um produto de qualidade. Para isso existe a campanha internacional Slow Meat, cujo slogan é justamente "consuma menos e melhor".

"A gente tem que fomentar outras formas de produção, porque hoje em dia a cadeia (produtiva) acaba concentrada em poucas empresas. Existe, por exemplo, a pecuária regenerativa que é uma forma de produção em que você promove a biodiversidade. Mas no Brasil a gente não vê muitos exemplos. São técnicas que nem chegam a ser discutidas por algumas empresas", critica o articulador do movimento.

O tratamento do boi, a origem da carne

Amália Sechis permaneceu sete anos sem consumir carne. A advogada achava o gosto ruim e não se sentia confortável com o sangue. Para a filha de um pecuarista, ser vegetariana parecia uma contradição. Afinal, os "churrascos do Bigode" eram referência nos eventos de Nhandeara, município do interior paulista onde nasceu.

Foi então que ela resolveu conhecer melhor a produção tocada pelo pai. Após um intensivão em fazendas e frigoríficos, lançou no mercado paulistano o açougue Beef Passion.

Ana Beatriz Rosa/AOL

Hoje, cinco anos depois de sua fundação, a empresa tem cerca de 15 mil animais em quatro fazendas espalhadas por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e interior de São Paulo.

Os animais da Beef Passion são criados com direito a spas bovinos e cruzamentos genéticos industriais da raça japonesa wagyu e do angus australiano, umas das mais caras do mundo.

Os bois são alimentados com uma dieta balanceada que contém farelo de trigo, soja, milho e selênio orgânico. Esses componentes aumentam a durabilidade da carne após o abate, segundo a diretora.

Nas fazendas, além das equipes nutricionais, há profissionais dedicados ao bem-estar animal. Pulverizadores de ar contra o calor, sistema de som que toca música clássica e bolas para jogos de socialização fazem parte da rotina dos animais.

"Para a gente, não existe carne de primeira ou de segunda. Ou o boi é bom ou ele não é. A gente não quer produzir apenas uma carne boa, mas uma matéria-prima que te acrescente em todos os sentidos", argumenta a diretora da Beef Passion.

Na loja-conceito do açougue gourmet, em Santa Cecília, no centro de São Paulo, são 72 cortes vendidos a preços que variam de R$ 15 a R$ 350 em média.

A marca chamou atenção de chefs renomados da capital, como Alex Atala. É também a primeira empresa brasileira a ser 100% certificada pela Rainforest Alliance, organização internacional que defende a produção sustentável da pecuária.

Ana Beatriz Rosa/AOL

Nas fazendas da Beef Passion o processo produtivo é 100% verticalizado. Com a integração da lavoura, pecuária e floresta, além da nutrição adequada dos animais, foi possível reduzir em 43% a emissão de gases de efeito estufa em relação à média brasileira.

Você é o que você come e o que você vive. É a mesma coisa com o animal. Você se alimentando bem, tendo qualidade de vida e uma morte boa, se é que é possível dizer isso, não tem como o resultado ser melhor. O abate dos bois é tranquilo. É feito com uma bombinha injetora de anestésico. O animal não sofre. Ele não sente dor. Não é cruel.Amália Sechis, diretora de açougue gourmet, em entrevista ao HuffPost Brasil

Da horta para a mesa

Ivan Ralston é chef do restaurante Tuju, na Vila Madalena, zona oeste na capital paulista. Em seu cardápio, ele defende o consumo moderado de proteína animal e uma alimentação primariamente à base de vegetais livres de agrotóxicos.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o chef diz que o desafio para um consumo consciente no País ainda é "imenso".

"Esta é uma situação ideal, muito longe da realidade da maioria esmagadora de quem vive em ambiente urbano. A própria existência de uma 'bancada da carne' (no Congresso Nacional) já indica o problema."

Roberto Seba/Divulgação
O chef Ivan Ralston, do Tuju.

Em seu restaurante, o chef busca adaptar os conceitos do Slow Food ao trabalhar com a sazonalidade dos alimentos e dar preferência aos pequenos produtores.

"O conceito do movimento é uma meta. Aqui e ali, ele vai trazendo resultados e avançamos na maneira como nos alimentamos. Mas sempre há movimentos contrários. É um embate. Por exemplo, aqui em São Paulo, percebo que os deliveries estão vendendo mais no almoço e vejo que muitos executivos mal saem dos escritórios para almoçar", argumenta.

No Tuju, a cozinha faz parte do salão do restaurante. Para o chef, as pessoas têm curiosidade em conhecer os processos: "Além disso, tem um elemento prático que é a transparência e a possibilidade de compartilhar os conhecimentos da nossa gastronomia".

Tuju/Divulgação

A trajetória para a transparência e o consumo consciente no País podem parecer distantes, mas iniciativas como estas, que possuem uma visão holística sobre o que é comer, alimentam as esperanças.

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