ENTRETENIMENTO

5 fatos que explicam a força e o poder de Yoko Ono no mundo das artes

Artista octagenária é muito mais do que a viúva de John Lennon. 💖

12/04/2017 15:24 -03 | Atualizado 17/04/2017 17:27 -03

Porcelanas quebradas, instalações, projeções e gravações sonoras compõem a exposição O Céu Ainda é Azul, Você Sabe..., aberta ao público no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. A retrospectiva da obra de Yoko Ono reúne 65 das famosas peças de Instruções, que convidam o espectador para diferentes interações.

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Com curadoria do crítico islandês Gunnar B. Kvaran, amigo de Yoko, e Paulo Miyada, do Instituto Tomie Ohtake, a exposição oferece um panorama da visão poética e crítica da artista sobre o mundo – dos anos 60 até os dias atuais.

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Aos 84 anos, Yoko é considerada uma das artistas experimentais e de vanguarda mais respeitadas do mundo. Sua obra transita pela música, arte conceitual, performance e é conhecida pelo questionamento que faz sobre o próprio conceito de arte - além do forte engajamento social e político.

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A seguir, você acompanha como a trajetória de Yoko Ono explica sua força e poder no mundo das artes.

1. Ela nasceu em um lar cheio de criatividade.

Michael Ochs Archives via Getty Images
Foto de 1953 com Yoko, o pai, Eisuke e a mãe, Isoko em São Francisco, nos EUA.

Yoko Ono é artista desde pequena. Os primeiros estímulos à criatividade ocorreram dentro de um lar rico e cheio de afeto. Hoje com 84 anos, Yoko nasceu em Tóquio, no Japão, de uma mãe budista e pintora clássica e um pai cristão e pianista.

Na infância, ela foi alfabetizada em japonês e inglês, e aprendeu canto e piano. Por conta do emprego do pai como bancário, também viveu em trânsito entre Japão e EUA.

Apesar de formarem um lar inspirador, os pais de Yoko também ofereceram obstáculos à sua arte. Desde muito cedo, o ímpeto autoral da artista foi repreendido pela mãe.

Em entrevista ao The Huffington Post, Yoko revelou:

"Uma razão pela qual minha obra foi ignorada quando eu era criança foi porque minha mãe era uma incrível pintora tradicional. Sempre que eu fazia algo, ela dizia: 'Espere um pouco. Não é assim que se faz!'. Ela interferia na minha pintura. Eu realmente pensava que ela tinha o direito de fazer isso como artista profissional. Mas eu me sentia intimidada e também culpada por querer fazer arte quando minha mãe era a única artista em casa."

Quando a bomba atômica caiu sobre Hiroshima, em 1945, a família de Ono estava em Tóquio.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o pai de Yoko viveu num como prisioneiro num campo de concentração em Saigon, Vietnã e a família seguiu para as montanhas de Karuizawa. Nessa época, ela já era a mais velha de três irmãos.

Foram tempos financeira e emocionalmente difíceis - que transformaram o olhar de Yoko sobre o mundo e sobre si mesma.

2. Sempre esteve rodeada de boas companhias.

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Yoko Ono e equipe em foto de 1967.

Com a vida normalizada, em 1951, aos 18 anos, Yoko se tornou a primeira mulher admitida na graduação de filosofia da Universidade de Gakushuin, uma da instituições de ensino superior mais prestigiadas da capital japonesa.

A permanência foi de apenas dois semestres, devido à mudança em definitivo de toda a família para os Estados Unidos. Esse curto período, no entanto, foi suficiente para que Yoko travasse contato com teorias e pensamentos que influenciariam sua obra posteriormente - incluindo marxismo, existencialismo e ideias pacifistas.

Pouco tempo depois de se estabelecer em Nova York, Yoko se tornou uma das protagonistas da cena de vanguarda local. Nessa época, ela era vista na companhia de nomes como os músicos John Cage e Philip Glass, o fundador do movimento Fluxus, George Maciunas, e o cineasta Jonas Mekas – considerado o pai do cinema americano de vanguarda.

No início da década de 1960, Yoko começou a focar suas atividades na arte de cunho conceitual. Em seu loft em Nova York, passou a promover os Chambers Loft Series, eventos noturnos que combinavam performances e música experimental.

Personalidades de alto calibre eram convidadas para esses encontros, incluindo a colecionadora Peggy Guggenheim, o pintor Max Ernst e Marcel Duchamp - ícone precursor da arte conceitual.

3. Já desafiava os espectadores em 1964.

Um dos pilares da arte conceitual está na valorização da ideia (imaterial) que se esconde por trás de uma obra em detrimento do formato da obra (material) em si. É nesse pilar que está a essência de um dos trabalhos mais famosos de Yoko Ono.

Em 1964, ela criou a performance Cut Piece (Corte um Pedaço) na qual permanecia sentada e imóvel diante de uma plateia que tinha à disposição uma tesoura para recortar e remover como quisesse pedaços de sua roupa.

Na performance pioneira, a relação de confiança entre as partes (artista e público) era colocada em teste.

Em uma entrevista à BBC, Yoko explicou que, por meio daquela obra, "queria mostrar a forma como as mulheres são tratadas e a forma como podem sobreviver a isso permitindo que as pessoas lhes façam aquilo que querem fazer".

4. Viveu um grande amor e uma grande ruína.

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Yoko e John Lennon, um dos casais mais icônicos da cultura pop.

Foi em 7 de novembro de 1966 que ocorreu o primeiro contato entre o casal mais icônico da cultura pop. Sem ter conhecimento do trabalho de Yoko Ono, nesse dia, John Lennon foi visitar uma das exposições da artista no Indica Gallery, em Londres.

Lá, ele se deparou com a obra Ceiling Painting (Pintura no Teto), um painel completamente branco preso no teto da galeria em que - com a ajuda de um degrau e uma lupa - era possível ler a palavra YES.

A obra (presente na retrospectiva do Instituto Tomie Ohtake) o impactou.

Numa entrevista à Playboy, o música revelou detalhes sobre o episódio: "Agora, nesta época, toda vanguarda se trata apenas de esmagar o piano com um martelo e quebrar uma escultura e ser anti-anti-anti-anti-anti. Era tudo uma porcaria negativa e chata, sabe. E só esse 'Yes' me fez estar em uma galeria cheia de maçãs e pregos."

Apesar de serem casados na época, os dois se apaixonaram e mergulharam numa relação que transformaria a arte de Lennon de forma irreversível. Yoko fazia questão de incentivar o músico a explorar outros possibilidades artísticas.

"De certa forma, nós dois, John e eu, arruinamos nossas carreiras ao nos unirmos. Apesar de não termos consciência naquele momento", disse a artista certa vez ao The Telegraph.

Detalhes sobre a relação dos artistas e seu término trágico foram amplamente explorados em reportagens, livros e revistas, tornando-se conhecidos do público.

O que vale ressaltar sobre esse aspecto da vida de Yoko é que ela não teve responsabilidade sobre o fim dos Beatles – como pregam fãs fervorosos dos Fab Four. Em 2012, o próprio Paul McCartney tratou sobre a delicada questão: "Não foi ela que dividiu o grupo. Ele já estava se dividindo sozinho mesmo", afirmou.

5. Brilhou e ainda brilha no mundo da música.

Para além das performances e obras que pedem a participação do público, a trajetória artística de Yoko Ono é povoada por variadas e interessantes produções musicais.

São mais de 20 álbuns lançados ao longo da carreira, vários deles em colaboração com John Lennon – todos reconhecidamente experimentais e de vanguarda. No entanto, a influência de Yoko Ono no meio musical performance sob a sombra dos Beatles.

Esse cenário se tornou menos desequilibrado em 2016, quando a artista recebeu o prêmio de personalidade inspiradora no mundo da música pela NME – revista musical britânica considerada um das mais importantes, influentes e tradicionais do mundo.

Aos 84 anos, Yoko Ono permanece ativa.

É também de 2016, artista lançou seu mais recente álbum. Intitulado, Yes, I'm a Witch Too (Sim, Eu Sou Uma Bruxa Também), o trabalho dá sequência a um projeto iniciado nove anos atrás. Nele, músicos e bandas com trabalhos experimentais fazem releituras de sucessos da artista.

Ouça no player abaixo:

A primeira parte teve participação de bandas como Le Tigre, Flaming Lips, Vat Power e Spiritualized. No segundo álbum do projeto, a escalação conta com Death Cab For Cutie, Peter Bjorn and John, tUnE-yArDs, Moby, entre outros.

Ouça abaixo:

SERVIÇO:

O Céu Ainda é Azul, Você Sabe...
De 1º de abril a 28 de maio

Ingressos
R$ 12 - inteira
R$ 6 - meia-entrada

- Tem direito a meia-entrada estudantes, idosos com idade superior a 60 anos e professores da rede pública mediante apresentação de documento;
- Crianças até 10 anos, cadeirantes e deficientes tem entrada gratuita todos os dias da exposição;
- Às terças-feiras a entrada é gratuita mediante retirada de senha na bilheteria do Instituto Tomie Ohtake.

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