ENTRETENIMENTO

7 vezes em que a discriminação esteve presente na sala de aula, segundo a #MeuProfessorRacista

Campanha foi criada pelo grupo 'Ocupação Preta', da USP.

04/04/2017 12:57 -03 | Atualizado 04/04/2017 15:51 -03

Desde a noite desta segunda-feira (3), a hashtag #MeuProfessorRacista tem repercutido nas redes sociais, em especial no Twitter e no Facebook, com relatos e denúncias de episódios de racismo envolvendo docentes de diferentes partes do Brasil.

Estudantes de diversas idades têm usado a hashtag para compartilhar recordações de ataques diretos e situações de racismo velado, que geraram constrangimento tanto no ambiente universitário quanto em outros períodos da vida acadêmica.

É possível acompanhar a repercussão em tempo real da campanha aqui e aqui.

A seguir, separamos alguns relatos compartilhados no Twitter:

Racismo Institucional

A campanha foi criada pela Ocupação Preta, movimento de alunos negros da Universidade de São Paulo que promove ações para discutir as relações raciais dentro da instituição em combate ao racismo institucional.

Em carta aberta publicada no site Desabafo Social, o grupo explica que a campanha foi motivado depois de três tentativas de diálogo ocorridos em salas de aula da USP.

A primeira foi em 20 de março, quando ocorreu uma discussão sobre "marchinhas racistas" e "o racismo de Monteiro Lobato" durante uma aula na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Segundo o texto, a debate racial sobre os dois assuntos ganhou um "tom de chacota pela professora que ministrava a aula".

Em 27 de março, uma aluna tentou discutir as mesmas questões com a professora na instituição, mas foi "abafada aos gritos pela docente".

Em resposta aos episódios, nesta segunda (3), o grupo entrou em sala de aula para tentar promover um debate sobre a questão racial na obre de Monteiro Lobato, "apresentando suas posturas muito bem documentadas e acessíveis até mesmo na internet".

De acordo com a carta, a docente em questão participou da discussão apresentando trechos de um livro que reforçava a teoria de que Lobato não foi racista, "o que intensifica dogmas da cultura racisra ainda existentes no Brasil e no mundo".

Ao longo do texto, o grupo aborda os pontos que mostram a problemática da obra de Monteiro Lobato, como sua famosa personagem Tia Anastácia.

"Estamos falando do quão grave é apresentar e analisar como exemplo a construção da imagem de "Tia Anastácia" ignorando as discussões já existentes sobre como a personagem e sua caracterização de "a serva boa e fiel" têm como função narrativa e ideológica a suavização das relações de poder interraciais e o reforço da servidão como espaço reservado ao negro, se encaixando como um grande exemplo do estereótipo das Mammies norte-americanas e das Mães-pretas brasileiras."

"Já é um consenso entre estudiosos de áreas diversas das ciências humanas que Monteiro Lobato e sua literatura tiveram um papel importante na disseminação das ideologias eugênicas e no avanço de um cientificismo racista que influenciou políticas sanitaristas do Estado durante o início do século XX, infelizmente com desdobramentos que seguem atuais."

"Ainda que o desenvolvimento da obra de Lobato possa incluir a presença do negro como protagonista, o faz de uma maneira totalmente equivocada e racista, que há tempos é questionada não só por militantes mas também por uma intelectualidade interessada no debate sobre as ideologias que dominaram o Brasil em épocas passadas."

Antes de encerrar a carta, o grupo faz um crítica às universidades brasileiras.

"Ainda assim, sabendo que se perpetua nas universidades uma diretriz e um embasamento teórico pertencente à branquitude, levantamos a necessidade de que a professora conheça, discuta ou ao menos escute o que os alunos têm a dizer, abandonando seu posto de superioridade."

E deixam uma mensagem de repúdio à docente.

"Por fim, repudiamos a postura da professora que exigiu que fôssemos retirados pela segurança do Campus, e que ousou dizer que conhece um professor universitário que, conforme sua fala, "é mais negro que todos nós" alunas e alunos que estávamos presente na aula."

Ao final, convocam "todas as alunas e alunos negros das universidades e faculdades do Brasil a participarem da campanha virtual".

Leia o texto na íntegra aqui.

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