LGBT

A hipocrisia na polêmica da subtrama gay de 'A Bela e a Fera'

"Dois homens dançando juntos? Nem pensar. Violência com armas de fogo? Sem problemas.”

31/03/2017 19:59 -03 | Atualizado 31/03/2017 20:10 -03

Na batalha no castelo, o momento culminante do filme original A Bela e a Fera, Gaston dispara uma flecha contra a Fera e a esfaqueia, para então cair e morrer. É o tipo de cena violenta que muitas vezes passa batida em filmes de animação, onde os enfrentamentos com armas são encarados como apenas cenas de animação, nada grave. Assim que o momento passa, a Bela e a Fera se abraçam e declaram seu amor. A ideia é que o espectador se esqueça do sangue derramado antes e se encante com o amor deles.

Com a exceção de algumas músicas novas e pouco interessantes, um pouco de material adicional de fundo acrescentado à história e algumas imagens geradas por computador um pouco infelizes, A Bela e a Fera, em sua versão de 2017 com classificação PG (ou seja, pode ser visto por crianças acompanhadas de um responsável) segue fielmente o rastro do precursor de 1991. Mas, em vez de arco e flecha, a arma brandida por Gaston é um rifle. Não se trata mais de violência animada: ele atira na Fera em live-action, com disparos ruidosos explodindo na cena.

Isso acontece no mesmo filme que tem feitiços mágicos, eletrodomésticos falantes e uma versão em cores de arco-íris de "Be Our Guest" que não poderia ser mais espalhafatosa se o edifício Trump Tower tivesse vomitado em cima dela.

Disney

Não houve controvérsia visível em relação a esse assunto. Mas o que falar da modesta trama "exclusivamente gay"? Um cinema do Alabama está boicotando o filme. A Rússia proibiu o filme para menores de 16 anos. A Disney recusou o pedido da censura da Malásia de cortar a cena em questão. E os murais de discussão estão cheios de manifestações de indignação de conservadores.

Trata-se de mais um exemplo dos dois pesos e duas medidas do cinema, algo que está presente desde sempre: violência, tudo bem. Mas sexo e romance põe à prova aquilo que nossa sociedade encara como normal.

É claro que não há sexo em A Bela e a Fera. Nem sequer um beijo. O criado LeFou flerta com Gaston e mais tarde passa três segundos dançando uma valsa com outro homem. A chamada subtrama gay se resume a isso. (Alerta de spoiler?)

No entanto, o The Hollywood Reporter, publicou um artigo intitulado Why 'PG Has Become The New Go-To' Rating For Studio Movies. (Por que a classificação PG virou a mais procurada pelos estúdios de cinema). Suas fontes são analistas das bilheterias, e não executivos de estúdios, de modo que o conteúdo não é tão definitivo quando a manchete nos leva a entender. Mesmo assim, a tese do artigo levanta uma questão válida quando é aplicada a A Bela e a Fera: com as tramas originais, feitas para adultos, que antigamente lideravam as bilheterias dando lugar a franquias e remakes, até que ponto os filmes para a família podem ousar, simplesmente por serem ambientados em mundos fantásticos, distantes da realidade? (A pergunta se aplica também aos filmes de super-heróis com classificação PG-13, ou desaconselhados para menores de 13 anos).

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É verdade que o sistema de classificação da MPAA (entidade americana que representa os grandes estúdios de cinema) sempre foi um pouco sigiloso e arbitrário, fato mostrado no documentário de 2006 "This Film Is Not Yet Rated". Um estudo divulgado em janeiro indicou que os filmes PG-13 de hoje têm probabilidade igual ou até maior de incluir violência com armas de fogo quando filmes lançados com a classificação R (Restrita).

A tendência da Disney de relançar sucessos de animação do passado em versões em live-action está sendo altamente rentável, e, segundo o The Hollywood Reporter, outros estúdios estão querendo seguir o exemplo de seus produtos PG.

"Do ponto de vista comercial, a classificação PG é perfeita porque o filme pode atrair todo o mundo, desde crianças pequenas até a vovó", teria explicado um especialista em bilheterias.

Não estou argumentando que a violência não tenha seu lugar de direito na tela grande. "Logan", por exemplo, que recebeu a classificação R, justifica sua hiperviolência com a caracterização bem pensada dos personagens e uma tranquilidade que faz falta à maioria dos filmes de super-herói. Mas a polêmica em torno de A Bela e a Fera exemplifica uma discussão que ainda merece ser travada: há uma hipocrisia complexa em jogo no tratamento que nossa sociedade e nossa indústria de entretenimento tão aos chamados temas adultos.

O mundo que nos cerca é fortemente influenciado pela cultura popular que consumimos na infância e às vezes pela cultura popular que consumimos como adultos, também. Não haverá direitos LGBTQ –não direitos plenos, pelo menos—enquanto as novas gerações não nascerem em um mundo em que a aceitação da diversidade for um direito inato das pessoas. A controvérsia sobre o personagem LeFou não vai prejudicar o rendimento de A Bela e a Fera, mas simboliza uma tendência preocupante que está onipresente em Hollywood. Pode atirar no sujeito quanto você quiser! Mas nem pense em beijá-lo.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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