ENTRETENIMENTO

A força e a crueza da poesia de Rupi Kaur

Nascida na Índia e criada no Canadá, escritora aborda sem pudores a dor, a violência e a solidão em seus versos. ✨

31/03/2017 16:36 -03 | Atualizado 01/04/2017 12:40 -03
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Expoente do movimento 'instapoets', Rupi Kaur protagonizou fenômeno de vendas.

Versos crus e diretos. Temas dolorosos e tabus. Um mergulho nas dores e delícias de ser mulher.

Essa é a atmosfera de Outros Jeitos de Usar a Boca, primeiro livro de Rupi Kaur, que acaba de chegar às livrarias brasileiras. Lançado de forma independente em 2014, quando a escritora tinha 23 anos, o volume de poesias se transformou em um dos maiores fenômenos literários dos últimos anos nos EUA.

Milk and Honey, título original da obra, ficou mais de 40 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times, ultrapassando a marca de 1 milhão de exemplares impressos. Um feito singular para um livro de poemas.

O sucesso de Rupi está diretamente ligado à sua forte presença nas redes sociais e à maneira franca com que aborda temas íntimos e delicados e, ao mesmo tempo, contemporâneos e universais

o amor vai chegar
e quando o amor chegar
o amor vai te abraçar
o amor vai dizer o seu nome
e você vai derreter
só que às vezes
o amor vai te machucar mas
o amor nunca faz por mal
o amor não faz jogo
porque o amor sabe que a vida
já é difícil o bastante

da próxima vez que ele
comentar que os
pelos das suas pernas
cresceram de novo lembre
esse garoto que o seu corpo
não é a casa dele
ele é um hóspede
avise que ele
nunca deve passar por cima
das boas-vindas
de novo

Ela é representante de um movimento chamado de "instapoets", referência às publicações de poemas que se popularizaram via Instagram. E tem quase 1 milhão e meio de seguidores - somando Facebook, Twitter e Instagram. Nessas redes, compartilha versos sobre amor, solidão, rupturas, abusos, entre outros temas – sempre sobre uma ótica feminista.

Para além da poesia, Rupi tem um trabalho prolífico em outras artes, como a fotografia e a ilustração. Esta última, aliás, é um hobby herdado de sua mãe ainda na infância.

Nascida em Punjab, no noroeste da Índia, ela imigrou com a família para o Canadá quando tinha 4 anos. Aos 5, começou a desenhar. Rupi demorou para aprender o inglês e, por isso, passou boa parte da infância sozinha. O silêncio foi ocupado por livros assim que ela aprendeu o segundo idioma.

Aos 17 anos, ela deixou o desenho um pouco de lado para se dedicar à escrita e performance - usando as redes sociais como principais aliadas. Mulher com um tom de pele não-branco, imigrante e adepta do sikhismo, religião pouco difundida no ocidente, Rupi começou a transformar suas vivências em versos e imagens.

Em março de 2015, ela ganhou fama internacional (o que significa milhares de novos fãs e também haters) por conta de uma censura do Instagram. No episódio polêmico, a artista postou uma foto em que aparecia deitada de pijama. Em sua calça era possível ver uma pequena mancha de sangue, uma mancha de menstruação.

A imagem era parte de uma série fotográfica para um curso de retórica visual da Universidade de Waterloo. A foto propunha uma poesia visual, uma discussão sobre o tabu em torno da menstruação.

Após publicar a foto, a artista recebeu um email do Instagram dizendo: "Nós removemos o seu post porque ele não segue as diretrizes da comunidade".

Rupi respondeu a censura com barulho.

Na época, ela compartilhou o caso em seu Facebook com a seguinte crítica:

"Obrigada Instagram por fornecer a resposta exata que meu trabalho foi criado para criticar. Vocês deletaram a minha foto duas vezes, afirmando que ia contra as diretrizes da comunidade. Eu não vou pedir desculpas por não alimentar o ego e orgulho de uma sociedade misógina que terá o meu corpo em uma roupa íntima, mas não está de acordo com um pequeno vazamento quando as suas páginas estão cheias de incontáveis fotos/contas onde mulheres (muitas menores de idade) são objetificadas, pornificadas e tratadas como menos que humanas."

O caso repercutiu mundo afora, fazendo com que fez com que o Instagram voltasse atrás na decisão.

A edição brasileira do livro de Rupi Kaur tem tradução assinada por Ana Guadalupe.

Também poeta da nova geração, a paranaense se identifica com os temas e experiências abordados por Rupi.

"Fiquei muito impressionada com o peso dos poemas, a coragem de tratar de tabus, e com o jeito 'aberto', livre de cinismo, com que ela se posiciona", afirmou em entrevista ao site MdeMulher.

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Sobre os temas que aborda e a profundidade de seu trabalho, Rupi já declarou:

"A dor que todas as pessoas experimentam na vida e a leveza que faz com elas vençam tudo isso, suas vidas e suas histórias e seu amor são o que me mantêm viva, o que me move a escrever."

Que isso movimente Rupi por muito tempo.

Outras formas de usar a boca

Editora Planeta

R$ 29,90

*A escolha de usar o termo poeta ao invés de poetisa se justifica pela interpretação de "poetisa" como uma palavra pejorativa, quando em comparação ao "poeta" usado só para homens. A poeta brasileira Alice Ruiz explica neste link.

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