MULHERES

11 mulheres que criaram coisas incríveis, mas homens levaram o crédito

Para todas as mulheres que viram suas ideias apropriadas pelos homens.

31/03/2017 18:23 -03 | Atualizado 31/03/2017 18:52 -03
Getty
O vocalista Johnny Otis posa para uma foto com a “Big Mama” Willie Mae Thornton e Don Robey, executivo da Peacock Records.

O homem que inventou o Monopoly não inventou o Monopoly. Charles Darrow ganhou milhões de dólares com o jogo que ele vendeu para Parker Brothers — 30 anos depois de uma mulher chamada Elizabeth Magie tê-lo criado.

É um conto tão antigo quanto o tempo: um homem levou a fama pela ideia original de uma mulher.

Vimos este tema se repetir ao longo da história, com o trabalho das mulheres sendo apagado dos movimentos trabalhistas, dos movimentos de direitos civis e cada vez mais da ciência.

Com o intuito de desenterrar as "figuras ocultas", cujas histórias frequentemente não são contadas, vamos destacar mulheres notáveis que, apesar de suas contribuições, foram marginalizadas pelos homens.

1868: Margaret Knight inventou a máquina de sacola de papel

USPTO

Em 1868, quando Margaret Knight estava trabalhando na Columbia Paper Bag Company, começou a pensar na possibilidade de que uma máquina pudesse criar uma sacola de fundo plano, um modelo que seria muito mais rápido do que o lento processo de manualmente montá-las. Dentro de poucos meses, ela criou um modelo e o levou a uma loja local para aperfeiçoar a máquina.

Segundo a ASME (sigla em inglês para Sociedade Norte-americana de Engenheiros Mecânicos), ela se mudou para Boston para trabalhar com dois maquinistas no projeto. Um homem chamado Charles Anan veio à sua loja para examinar a máquina de Knight. Quando ela foi registrar a patente, seu pedido foi rejeitado porque uma patente já havia sido dada a Anan. Knight moveu um processo e ganhou.

Década de 1900: Alice Guy foi a primeira mulher diretora de filme e primeira proprietária de um estúdio.

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Alice Guy produziu mais de 100 filmes no começo da década de 1900, antes de se casar com Herbert Blaché, gerente do estúdio de produção no qual trabalhava. Ela se tornou a primeira proprietária de um estúdio cinematográfico quando abriu o Solax Studios, em 1910. De acordo com o site Broadly, Guy estava invertendo papéis de gênero na tela décadas antes do termo "papel de gênero" ter sido inserido no léxico. Em um filme, ela imaginou "um mundo no qual as mulheres floresciam em papéis tradicionalmente masculinos enquanto homens se retorciam sob a opressão".

Ironicamente, seu nome acabaria desaparecendo e seu marido receberia os créditos por seu trabalho visionário no cinema. Ele abriu um estúdio depois dela, a convenceu a juntar as empresas e deixar que o nome dele ficasse na fachada. Segundo o Broadly: "Em 1920, a autora Carolyn Lowrey publicou The First One Hundred Noted Men and Women of the Screen (Os Primeiros 100 Homens e Mulheres Notáveis do Cinema) e dedicou uma página ao legado de Herbert Blaché, sem fazer menção a Guy. Lowrey, na verdade, gentilmente mencionou alguns de seus filmes — apenas erroneamente os creditou a Blaché."

1903: Elizabeth Magie inventou o Monopoly.

Washington Evening Star/Anspach Archives

Segundo o The New York Times, a secretária e estenógrafa Elizabeth Magie defendia abertamente suas ideias políticas e "vivia uma vida extremamente incomum", porque se sustentava sozinha e se casou apenas aos 44 anos. Em 1903, projetou um jogo chamado "Landlord's Game" (Jogo dos Proprietários) para protestar contra "grandes monopolistas" como Andrew Carnegie e John D. Rockefeller. Mais de três décadas depois, um homem chamado Charles Darrow reivindicou uma "versão sua" e vendeu o jogo para a Parker Brothers. Darrow ganhou milhões de dólares com o jogo que hoje conhecemos como Monopoly, enquanto a criação de Magie lhe rendeu cerca de US$ 500 (aproximadamente R$ 1.560 no câmbio atual).

Década de 1930: Lise Meitner descobriu a fissão nuclear.

ullstein bild via Getty Images

Quando Adolf Hitler chegou ao poder em 1933, a física austríaca Lise Meitner era diretora interina do Instituto de Química. Ela acabou tendo de fugir, mas manteve contato com o químico Otto Hahn. As cartas trocadas entre os dois mostram que eles descobriram a fissão nuclear na década de 1930.

Segundo Chris Padgett, professor de história do American River College, Meitner não recebeu os créditos devidos porque era judia e refugiada. "Hahnn, que permaneceu leal aos nazistas, posteriormente recebeu o Prêmio Nobel por seu trabalho, mas se recusou a reconhecer os créditos de Meitner", disse.

O Berkeley Nuclear Research Center classifica a história de Meitner como "um dos exemplos mais brilhantes de conquista científica por mulheres negligenciada pelo comitê do Nobel".


Década de 1900: Nettie M. Stevens descobre que o espermatozoide do homem determina o sexo do bebê.

Carnegie Institution of Washington/Wikipedia

Na primeira década de 1900, a cientista Nettie M. Stevens descobriu que o espermatozoide masculino transportava tanto o cromossomo X quanto o Y, enquanto as mulheres apenas carregavam o cromossomo X em seus óvulos, o que a fez chegar à conclusão de que o sexo de um bebê é determinado pelo homem.

Outro cientista, Edmund Beecher Wilson, chegou à mesma conclusão independentemente na mesma época que Stevens e apresentou seu estudo à revista The Journal of Experimental Zoology dez dias antes que ela. Wilson até incluiu um rodapé de que estava ciente das descobertas de Stevens.

Segundo um artigo do físico e historiador Stephen G. Brush, "a relação científica e cronológica entre suas contribuições raramente tem sido especificada, e o papel de Stevens, que faleceu em 1912 antes de alcançar uma reputação comparável à de Wilson, é, às vezes, esquecido".


Década de 1950: Chien-Shiung Wu descobriu a lei de paridade.

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Durante a Segunda Guerra Mundial, Chien-Shiung Wu passou a fazer parte do Manhattan Project (o projeto secreto do Exército para desenvolver a bomba atômica) da Universidade Columbia. Ela prosseguiu com seu trabalho na Columbia quando a guerra terminou.

Em parceria com dois colegas, Tsung-Dao Lee e Chen Ning Yang, Wu "refutou a lei de simetria em física, chamada de princípio da conservação da paridade", segundo o Museu Nacional de História da Mulher.

"Wu observou que existe uma direção de emissão preferencial, que refutou o que era então amplamente aceito como 'lei da natureza'". Em 1957, seus colegas receberam o Prêmio Nobel pela descoberta. Wu foi excluída do prêmio.


1951: Rosalind Franklin desempenhou um importante papel na descoberta da dupla hélice.

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Quando trabalhava como pesquisadora associada na unidade de biofísica do King's College London, em 1951, Rosalind Franklin e seu aluno, Raymond Gosling, descobriram que existem duas formas de DNA, um "A" seco e um "B" úmido.

egundo o site Biography.com, "uma de suas imagens de difração de raios X da forma 'B' de DNA, conhecida como Fotografia 51, se tornou famosa como relevante prova na identificação da estrutura do DNA".

Um colega de Franklin, Maurice Wilkins, mostrou a Foto 51 para os cientistas rivais James Watson e Francis Crick — sem a permissão de Franklin. A dupla usou as descobertas de Franklin como base para seu modelo de DNA e ganhou o Prêmio Nobel pela descoberta em 1962 — quatro anos após a morte de Franklin.

1952: Willie Mae Thornton foi a cantora original de "Hound Dog".

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Em 1952, a cantora e compositora Willie Mae "Big Mama" Thornton gravou "Hound Dog" — uma canção que Elvis Presley depois interpretaria e tornaria famosa.
No entanto, ela insistiu e conseguiu enorme sucesso, sendo homenageada na Calçada da Fama, em 1984.
Sua canção "Ball and Chain" (que ficou famosa com Janes Joplin) está na lista do "Rock and Roll Hall of Fame" com as "500 Canções que Moldaram o Rock and Roll".

1960: Margaret Keane foi a artista por trás das "crianças de olhos grandes"

Bettmann via Getty Images

A protagonista do filme de Tim Burton Grandes Olhos, Margaret Keane, foi a pintora que criou "as crianças de olhos grandes" — obras de arte que se tornaram extremamente famosas na década de 1960. Seu marido, Walter Kane, a convenceu de que eles ganhariam mais dinheiro se ele colocasse seu nome nos quadros.

Anos depois, ela alegou nos tribunais que ele a havia ameaçado matá-la se algum dia revelasse o segredo. Margaret posteriormente se divorciou do marido e disse a verdade em uma entrevista para uma rádio em 1970. Ela desafiou Walter para uma competição ao vivo para provar que ela era a verdadeira artista; ele não respondeu ao convite. Então, em 1986, ela decidiu processá-lo.

Segundo um artigo da People Magazine na época, "Margaret, 58, e Walter, 70, não se viam há 20 anos quando pisaram no tribunal federal de Honolulu, no mês passado. Passaram então a se ver em um julgamento frequentemente acalorado que durou três semanas e meia. Margaret reconheceu que havia confirmado as alegações de Walter durante o casamento, mas apenas porque ele havia ameaçado matá-la, e à sua filha de um casamento anterior, se ela revelasse a verdade.

A pedido de seu advogado, Margaret sentou-se diante dos jurados e, em 53 minutos, pintou a face de um garotinho com os inconfundíveis olhos grandes. A pintura, peça 224 do julgamento, pode ter sido seu maior triunfo artístico".

Década de 1960: Jocelyn Bell Burnell foi a primeira pessoa a observar os pulsares.

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Estudante de pós-graduação na Universidade de Cambridge, Jocelyn Bell Burnell ajudou Anthony Hewish e Martin Ryle a construir um radiotelescópio para monitorar quasares (um maciço e extremamente remoto objeto celeste).

Burnell estava encarregada de analisar os dados a partir do objeto. Segundo o site Biography.com, "depois de passar horas intermináveis analisando os gráficos, notou algumas anomalias que não se encaixavam com os padrões produzidos pelos quasares e chamou a atenção de Hewish para isso...

Ao longo dos meses seguintes, a equipe eliminou sistematicamente todas as possíveis fontes de pulsos de ondas de rádio — que eles chamaram carinhosamente de Little Green Men (Homenzinho Verde), em referência às suas potenciais origens artificiais — até conseguirem deduzir que eram feitos de estrelas de nêutrons; estrelas que giravam rápido e muito pequenas para formar buracos negros". Em 1974, Hewish e Ryle receberam o Prêmio Nobel de Física pela descoberta.

1963: Anna Arnold Hedgeman organizou a Marcha em Washington.

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Anna Arnold Hedgeman foi a única mulher do comitê organizador da Marcha em Washington de 1963, onde Martin Luther King fez seu discurso "Eu Tenho Um Sonho". Mas, de acordo com a professora Jennifer Scanlon, do Bowdoin College, que escreveu uma biografia sobre Hedgeman, a líder de direitos civis estava "escondida, fora da vista" pelos homens à sua volta.

Hedgeman não só reuniu vários diferentes grupos de pessoas para participar da marcha, como também organizou o transporte e assegurou que os participantes recebessem água e comida. Segundo Scanlon, "ela também exigiu que seus colegas homens providenciassem uma voz feminina durante o discurso, mas, como em outras coisas relacionadas ao gênero, os homens se mostraram implacáveis em seu sexismo".

Um grupo de líderes que organizou a marcha é frequentemente chamado de "Big Six" (Os Seis Grandes). Claro, Hedgeman (ou qualquer outra mulher, nesse tipo de situação) não foi incluída naquele grupo. Hedgeman aparece na foto acima com as mãos no mapa, posando com A. Philip Randolph e Roy Wilkins, dois dos homens que fizeram parte do grupo "Big Six".

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