POLÍTICA

Manobras do cárcere: Moro acusa Cunha de usar processo para fazer chantagem

Ex-presidente da Câmara foi condenado a 15 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

30/03/2017 15:01 -03 | Atualizado 30/03/2017 15:53 -03
Adriano Machado / Reuters
Advogados de Cunha alegam que a defesa do ex-parlamentar foi cerceada.

Até preso o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é acusado de fazer manobras. Na decisão em que foi condenado a 15 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, o juiz Sérgio Moro o acusou de usar o processo para atingir outras autoridades.

Isto porque a defesa de Cunha alega que a defesa dele foi cerceada ao não ter sido permitido que todas as perguntas encaminhadas ao presidente Michel Temer pudessem ser feitas.

"Além de não ter este Juízo competência para apurar condutas do Exmo. Sr. Presidente da República, não se pode permitir que o processo judicial seja utilizado para que a parte transmita ameaças, recados ou chantagens a autoridades ou a testemunhas de fora do processo", afirma Moro.

Para o juiz, não se trata "de cerceamento de defesa, mas de coibir a utilização do processo para fins estranhos e escusos pelo acusado".

Entre as perguntas vetadas estava qual a relação entre Temer e José Yunes - amigo do presidente citado na delação do ex-diretor da Odebrecht Cláudio Filho.

Histórico de manobras

Essa não é a primeira vez que o parlamentar cassado é acusado de usar mecanismos lícitos em benefício próprio. Cunha foi amplamente atacado sob o argumento de ter usado o cargo de presidente para protelar o andamento do processo de cassação contra ele no Conselho de Ética da Câmara.

Nem a prisão de Cunha foi suficiente para minar o poder de obstrução do ex-parlamentar. O despacho da prisão preventiva expedido por Moro, em outubro do ano passado, alertava:

"Embora a perda do mandato represente provavelmente alguma perda do poder de obstrução, esse não foi totalmente esvaziado, desconhecendo-se até o momento a total extensão das atividades criminais do ex-parlamentar e a sua rede de influência."

Condenação

Cunha foi condenado a 15 anos e quatro meses de prisão na ação em que é acusado de orquestrar esquema de propinas na compra do campo petrolífero de Benin, na África, pela Petrobras, em 2011.

Segundo o documento de condenação, a transação gerou prejuízo de aproximadamentb US$ 77,5 milhões à Petrontas, Cunha teria embolsado cerca de US$ 1,5 milhão.

"A responsabilidade de um parlamentar federal é enorme e, por conseguinte, também a sua culpabilidade quando pratica crimes. Não pode haver ofensa mais grave do que a daquele que trai o mandato parlamentar e a sagrada confiança que o povo nele deposita para obter ganho próprio. Agiu, portanto, com culpabilidade extremada, o que também deve ser valorado negativamente", diz trecho da sentença.

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