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Encontraram uma alternativa para o muro de Trump capaz de gerar empregos

Uma barreira feita de painéis solares geraria empregos para os candidatos a imigrantes e promoveria um clima de civilidade entre as nações.

30/03/2017 17:19 -03 | Atualizado 30/03/2017 17:33 -03
ullstein bild via Getty Images
Painéis solares ao pôr do sol.

CIDADE DO MÉXICO ― O presidente Donald Trump já lançou muitos chamados ao México para que construa um muro entre nossos dois países. Existe de fato uma maneira pela qual o México poderia criar uma barreira entre os Estados Unidos e o México, uma barreira erguida exclusivamente do lado mexicano e que traria benefícios grandes aos dois países e ao planeta: uma fronteira solar.

A radiação solar no desertos do norte do México é mais intensa que no sudoeste dos Estados Unidos, devido à latitude mais baixa e a padrões mais favoráveis de nuvens. E os custos de construção e manutenção de usinas de energia solar no México são substancialmente mais baixos.

Assim, a construção de uma longa série dessas usinas ao longo do lado mexicano da fronteira poderia prover as cidades de ambos os lados da fronteira de energia mais barata e fornecida mais rapidamente do que poderiam usinas semelhantes construídas no lado norte da fronteira.

A energia solar já está sendo gerada a preços mais baixos que os do carvão. Com usinas solares dispostas em longos trechos do lado mexicano da fronteira de quase 3.300 km entre EUA e México, poderia ser montada uma nova grade elétrica de corrente contínua e alta tensão (CCAT) para transmitir energia de modo eficiente das usinas para centros populacionais ao longo da fronteira.

A perda de energia sofrida pelos cabos de força CCAT em longas distâncias é exponencialmente menor que a perda sofrida por cabos tradicionais. As cidades que poderiam beneficiar-se imediatamente incluem San Diego, Tijuana, Mexicali, Tucson, Phoenix, El Paso, Ciudad Juarez, San Antonio e Monterrey.

Se fosse construído o equivalente a uma série de conjuntos com um terço da largura de um campo de futebol, formados por painéis solares fotovoltaicos, do lado sul de toda a fronteira entre EUA e México, sendo os conjuntos mais estreitos em algumas áreas e mais largos em outras, deixando em aberto as áreas povoadas e trechos de terreno acidentado, poderia ser produzida energia suficiente para também suprir Los Angeles, Las Vegas, Albuquerque, Dallas e Houston. Para as cidades americanas, seria uma maneira de obter energia mais limpa e de custo mais baixo do que a energia de outras fontes.

A fronteira solar teria um efeito civilizador em áreas perigosas.

Uma fronteira solar poderia aliviar uma série de problemas binacionais. Para começar, teria efeito civilizador em áreas perigosas. Como as usinas solares empregam medidas de segurança para impedir a entrada de intrusos, a fronteira solar teria, na prática, o efeito de uma cerca virtual, reduzindo a porosidade da fronteira e ao mesmo tempo produzindo grandes benefícios econômicos, ambientais e de segurança de ambos os lados. Ela dificultaria o tráfico de drogas, armas e pessoas.

No México, a fronteira solar criaria uma fonte de empregos na construção high-tech e na tecnologia ao longo da fronteira, com efeito que remeteria ao New Deal e que poderia absorver um número importante de potenciais migrantes a caminho de atravessar ilegalmente a fronteira dos EUA, incorrendo em grave risco físico.

O mais importante é que a fronteira solar faria uma contribuição importante para a batalha global contra as emissões de carbono, já que a eletricidade gerada seria neutra em carbono, e a aquisição de tanta tecnologia solar reduziria ainda mais seu preço. As usinas seriam construídas com o uso de técnicas ambientalmente pensadas para evitar a perda de hábitat de espécies desérticas.

Além disso, a grade elétrica poderia se estender até as duas costas marítimas, onde poderiam ser construídas usinas ecológicas de dessalinização para a produção de água doce. A água seria bombeada para cidades e áreas agrícolas ao longo da fronteira que sofrem de escassez de água, um fenômeno que só vai se agravar à medida que os efeitos do aquecimento global intensificam a desertificação. Isso reduziria tensões e preocupações com segurança alimentar que há décadas provocam atritos nas relações bilaterais em função do uso da água do Rio Grande e outras fontes hídricas compartilhadas entre os dois países.

Como a construção e manutenção da energia solar custa menos no México que ao norte da fronteira, investidores internacionais teriam incentivos grandes.

Uma vez que as usinas solares estiverem instaladas e funcionando, outras áreas do México poderiam ser somadas à grade elétrica, aproveitando o know-how acumulado gerado na nova força de trabalho pela experiência inicial de construção. O México possui potencial imenso como país produtor de energia solar, especialmente nos desertos de seu planalto central, que oferecem a combinação de latitude baixa, ar seco e sem nuvens e clima relativamente fresco, mais propícia para a geração de energia solar. Existe o potencial de todo o país um dia ser movido a energia solar.

Como pagar por tudo isso? Seria um investimento grande, mas o preço da geração industrial de energia solar está caindo rapidamente, e, como a construção e manutenção da energia solar custam menos no México que em instalações comparáveis ao norte da fronteira, os investidores internacionais teriam incentivos grandes. Por sorte, as reformas constitucionais recentes no México incentivam o investimento estrangeiro e doméstico no setor da geração de energia.

A construção da fronteira solar ajudaria em muito o país a alcançar suas metas obrigatórias para combater as mudanças climáticas, que preveem que até 2024 35% da energia elétrica consumida no país seja de fontes renováveis.

As exportações de eletricidade do México aos EUA existem há mais de um século e vêm crescendo nos últimos anos; graças a isso, deve ser relativamente fácil obter garantias de empréstimos internacionais de longo prazo para as usinas elétricas.

Se a iniciativa fosse apresentada como um grande projeto carismático com o apoio total do governo mexicano, conquistando a admiração do resto do mundo, isso posicionaria o México como líder mundial exemplar no combate às mudanças climáticas. O México e os Estados Unidos seriam ligados por um muro realmente belo –um símbolo de unidade que seria visível até mesmo do espaço.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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