ENTRETENIMENTO

Como a escritora Jane Austen se tornou um ícone do conservadorismo

Ela é o “Pepe” da ficção da Era da Regência*.

30/03/2017 16:20 -03 | Atualizado 30/03/2017 16:33 -03

UniversalImagesGroup via Getty Images

A vida como fã de Jane Austen pode ser, ocasionalmente, irritante. Colegas de classe do sexo masculino a ridicularizam como subliteratura fútil, a cultura pop a utiliza como estenografia para histórias de romance e, para as mulheres, confessar o amor pela escritora as enquadra no clichê das donas de gatos. O insulto mais recente, no entanto, é ainda mais flagrante: intelectuais da direita alternativa (do inglês alt-right) se apropriaram de Austen como símbolo do nacionalismo branco, segundo artigo de Nicole M. Wright publicado pelo jornal Chronicle of Higher Education.

Wright, professora assistente de Língua Inglesa na Universidade do Colorado, em Boulder, notou uma participação especial de Austen durante um discurso do jornalista, empresário e palestrante britânico Milo Yiannopoulos, em janeiro. "Como uma escritora vitoriana poderia ter afirmado", escreve Wright citando Yiannopoulos, "é uma verdade universalmente reconhecida que uma mulher feia tem muito mais probabilidade de ser feminista do que uma 'gostosa'". O engraçado, Wright destaca, é que Yiannopoulos, um "companheiro viajante" da direita alternativa, se equivocou sobre a época de Austen: a autora inglesa da Era Regencial faleceu cerca de 20 anos antes do início do período vitoriano.

Para ir mais direto ao ponto, no entanto, o fato é que Yiannopoulo não tem sido muito cuidadoso em suas referências. A "verdade universalmente reconhecida" na obra Orgulho e Preconceito de Austen, de que "um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar necessitado de esposa", é colocada com leve sarcasmo, e não com seriedade. Ao parodiar a linguagem dos tratados filosóficos, a autora zomba da suposição simplista que está apresentando.

A sagacidade mordaz de Austen, frequentemente dirigida aos frívolos costumes da sociedade de sua época, é, muitas vezes, negligenciada, por isso não surpreende que simpatizantes da direita alternativa tirem lições superficiais e errôneas de sua obra. Mergulhando mais fundo na sobreposição entre a autora e a direita alternativa, que, de nenhuma maneira, é algo novo, Wright encontrou várias interpretações-padrão da significação de Austen em uma variedade de fóruns da direita alternativa examinados por ela: "1) símbolo de pureza sexual; 2) porta-estandarte de uma cultura tradicional branca desaparecida; e 3) exceção que prova a regra da inferioridade feminina".

Dado que Austen escreveu romances baseados em matrimônios ambientados no início século 19, quando a castidade e casamentos interesseiros eram os principais objetivos de mulheres das classes média e alta, ela é facilmente apropriada como um símbolo de abstinência pré-marital e valorização do casamento tradicional. As "garotas Jane Austen" não paqueram, elas casam; não forjam o próprio caminho, elas constroem suas vidas em torno de seus maridos. Em romances como Emma ou Mansfield Park, os personagens são quase todos, se não inteiramente, brancos, e seus encontros sociais são governados por uma clara hierarquia e cultura compartilhada.

Embora absurda, a utilização de Austen para defender a natureza idílica de um Estado patriarcal e totalmente branco faz sentido. O uso de mulheres brancas como justificativa para um racismo vergonhoso é um dos truques mais antigos na bíblia do intolerante, uma maneira de argumentar que a discriminação e a violência contra pessoas não brancas são necessárias para proteger a segurança e pureza de mulheres brancas frágeis. Como talvez a escritora solteira mais famosa na história ocidental, Austen e suas heroínas são facilmente utilizadas com esta proposta. "Claro que a autora feminina cujo nome é reconhecido em pé de igualdade com Shakespeare é a que acaba sendo arrastada para debates como este", disse Juliette Wells, professora associada de Língua Inglesa do Goucher College, em entrevista ao The New York Times.

Críticos de literatura criticaram e podem criticar Austen pela brancura e aparente moralidade convencional de seus romances, mas a questão não é tão simples. Como argumentado pela biógrafa Paula Byrne em 2014, existe evidência textual substanciosa de que Mansfield Park condena, ainda que de forma oblíqua, a escravidão colonial e o racismo contra os negros. Em seu romance não finalizado, Sanditon, uma herdeira indígena ocidental descrita como "metade mulata" aparece, ainda que nunca fale; no entanto, é apresentada como uma criada altamente qualificada.

Para usar Austen como um ícone da direita alternativa, esses intelectuais devem ter lido a obra da autora muito mal ou nem devem ter lido, se apoiando em nossa associação cultural de seus livros com cortejo casto, casamento romântico e uma sociedade britânica esmagadoramente branca para sugerir um endosso desses valores. Na verdade, os nacionalistas brancos fariam bem em perceber, a obra de Austen sobreviveu, em grande parte, porque os alfinetou inteligentemente e sutilmente.

H/T New York Times

*O termo "Pepe" citado na linha fina deste texto faz referência ao meme do sapo da direita alternativa nos Estados Unidos e também no Brasil.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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