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Ele voltou à vida após perder 45% do cérebro em acidente e ficar 2 meses em coma

Conheça a trajetória de reabilitação de Caio Branco, paulistano que saiu de "semi-vida" graças a tratamento que estimula neuroplasticidade.

27/03/2017 23:59 -03 | Atualizado 28/03/2017 14:51 -03
Reprodução/Facebook
Caio Branco perdeu 45% do cérebro em um acidente de moto.

Era uma sexta-feira à noite, em julho de 2016. Ele tinha bebido "só um pouquinho" e decidiu ir encontrar os amigos. Usou sua moto para percorrer um percurso rápido, mas não chegou ao destino final. Ali, no instante fugaz que escapa qualquer descrição, sua vida havia sido transformada por completo.

A história de Caio Branco, 22 anos, é parecida com a de muitos outros condutores brasileiros. Apesar de ser proibido em todo o País, só em São Paulo o consumo de álcool no trânsito é o responsável por 42,9% das vítimas de acidentes fatais.

A moto do paulistano colidiu com um carro e ele sobreviveu ao acidente, apesar de ter sido diagnosticado com um Traumatismo Cranioencefálico Hemorrágico e perder 45% do seu cérebro. No hospital, chegou ao extremo de ter sua vida contabilizada em horas, com apenas 3% de chances de sobreviver.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Marcia Branco, mãe do jovem, compartilhou como foi ter vivido os momentos de agonia com o filho.

"A história do Caio é uma história de força. Quando eu cheguei ao hospital, os médicos me disseram que ele tinha apenas 3% de chances de sobreviver ao acidente. Eu fiquei em choque. No mesmo momento, uma amiga me pediu para que eu a acompanhasse em uma igreja. Eu, que nunca havia prestado tanta atenção nessas coisas, cheguei lá e presenciei o casamento de um senhor de 87 anos com uma senhora de 85 anos. Eu senti o poder da vida e pedi para que meu filho tivesse outra chance."

Caio permaneceu em coma por 60 dias e Marcia continou firme ao lado do filho. Ela ouvia dos médicos que o estado do jovem era irremediável, que ele "vegetaria", mas não perdeu as esperanças.

"Foi a primeira vez que eu senti o que era ter fé. A cada cirurgia, tudo o que eu ouvia era que talvez ele não sobrevivesse. Eu ficava calada. Ele estava em coma, mas eu punha meditação e conversava com ele. Eu tinha a impressão de que ele não queria voltar porque ia ser muito difícil."

Nas redes sociais, familiares e amigos do garoto iniciaram correntes para ajudá-lo. Entre elas, houve uma doação de sangue na qual eles conseguiram doar para um banco que atende até 600 pessoas no hemocentro.

Marcia liderava o movimento e chegou a receber um "diploma" de "mãe do ano" na UTI em que o filho estava internado: "Eu parei de chorar e passei acreditar. Mobilizava as pessoas e pedia pensamentos positivos".

Os dias foram passando, e o estado de Caio permanecia sem perspectivas de melhoras. Um dos médicos do hospital chegou a estimar que ele poderia ficar, pelo menos, seis meses desacordado e que era chegada a hora de retirá-lo da UTI. Ele enfrentaria uma vida sem vida.

"No dia anterior à mudança, eu passei a madrugada com ele. Voltei a conversar, pedi para ele acordar e coloquei a meditação para ele ouvir. Pode parecer impressionante, mas eu senti que ele estava voltando. Ele começou a mexer os olhos e a mão. Eu chamei os enfermeiros, mas eles disseram que era impressão minha. Então eu resolvi filmar os movimentos tímidos do meu filho."

E o Caio voltou com tudo.

A recuperação de Caio

Mesmo após acordar do coma, Caio continuou tendo um péssimo prognóstico. Ele emagreceu mais de 20 quilos, não falava, não respirava sozinho, teve hemorragias nos olhos e não se movimentava.

Foi nesse momento que a jornada de Marcia Branco chegou a uma nova fase. Mãe de um garoto que perdeu 45% de seu cérebro, comprometendo todas as atividades do lado esquerdo de seu corpo, ela buscava informações sobre o funcionamento e a recuperação dos neurônios humanos.

"Eu pesquisei muito sobre pessoas na mesma condição que a dele. Comecei a procurar sobre o que era a neuroplasticidade e como funcionava uma cabeça que perdeu metade do cerébro. Não encontrei muitas referências. Se você procurar sobre o câncer na internet, por exemplo, você vai encontrar informações, grupos de apoio, pessoas que estão enfrentando essa batalha. Eu queria ter achado mães que passaram por isso para ouvir a história delas", compartilha ao HuffPost Brasil.

O termo "neuroplasticidade" abrange uma série de mudanças nos elementos que compõem o sistema nervoso central (SNC). Durante muito tempo, acreditava-se que o sistema era uma estrutura rígida e que as lesões nele seriam permanentes. Hoje, sabe-se que um tecido neural é capaz de reagrupar e rearranjar as conexões entre os neurônios que o compõe.

"A neuroplasticidade ocorre por toda a vida do indíviduo em resposta a estímulos extrínsecos e intrínsecos. Ela é a responsável pelo desenvolvimento e aprendizado da criança, pela adaptabilidade da espécie humana aos vários territórios do planeta e também pela possibilidade de reparos pós-danos estruturais", explica o neurologista Fabiano Moulin, preceptor na Unifesp e membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), em entrevista ao HuffPost Brasil.

Ana Beatriz Rosa / Canva

Caio deixou o hospital em novembro de 2016. Depois de passar por uma cirurgia de reconstrução da calota craniana, ele começou o processo de reabilitação em fevereiro de 2017 na Rede Lucy Montoro.

Despertar, abrir os olhos, equilibrar o tronco e a cabeça. Entrar em contato com o mundo novamente. Reaprender a se comunicar, a comer sozinho e a usar o banheiro. Ficar de pé, engrenar uma marcha e voltar a andar.

Caio começou do zero.

"Desde que ele saiu do hospital, o trabalho é com ele. Ele tem uma força de vontade enorme. O melhor lugar do mundo é ao lado dele. Ele chegou zerado na reabilitação, era um morto-vivo. Ver ele hoje é de se admirar com a sua superação", conta a mãe, orgulhosa.

O fisiatra André Sugawara trabalha há 15 anos com pacientes em reabilitação e acompanha a recuperação de Caio. Ele lidera uma equipe multidisciplinar, que conta com fisioterapeutas, assistentes sociais, nutricionistas e até musicoterapeutas em um trabalho que considera interdisciplinar.

"A gente precisa despertar os pacientes. Alguns deles ainda estão no coma em nosso primeiro contato. Depois, vem o processo para que eles não estejam apenas fisicamente conosco, mas também presencialmente, de modo que a gente consiga entender as suas emoções. Mas não dá para ser tudo de uma só vez. É um passo a passo e a gente precisa respeitar o tempo de cada um", explica o médico.

O objetivo da equipe é reconstruir as vias de aprendizados de cada paciente. Sugawara explica que há dois movimentos da neuroplasticidade: a bem e a má adaptada.

"A má adaptada acontece quando um paciente aprende de um jeito errado. Então, temos que ajudá-lo a desaprender uma função para reaprendê-la. Por exemplo, um paciente que já consegue ficar de pé e arrisca alguns passos, mas perde o equílibrio durante a marcha por estar posicionando seus joelhos muito para trás. Às vezes, é preferível que o paciente retorne a usar cadeiras de rodas e com ajuda da fisioterapia ele reaprenda como posicionar os joelhos para voltar a andar."

E esse aprendizado requer dedicação integral. Para o médico, a reabilitação envolve não só o paciente, mas todas as pessoas em seu entorno. "Não adianta terceirizar a recuperação ao terapeuta, é preciso do apoio e da dedicação dos familiares para que o paciente tenha um melhor desempenho", argumenta.

Uma pessoa em processo de reabilitação precisa ser provocada, desafiada e estimulada, respeitando-se os próprios limites.

O desafio da neuroplasticidade

Dr. Fabiano Moulin, da Unifesp, chama atenção para os cuidados com o cérebro. Isso porque, durante toda a nossa vida, o ser humano é capaz de construir e de destruir a reserva cerebral. E é ela que determina a capacidade do cérebro de tolerar lesões e ainda manter seu funcionamento.

De acordo com o neurologista, os principais estímulos para construir a neuroplasticidade são: a atividade física, a alimentação, a educação (incluindo números de anos estudados e de idiomas falados), além das qualidades das relações sociais.

Ainda, há alguns fatores que podem desconstruir a reserva cerebral como o alcoolismo, o tabagismo, a depressão, o alto consumo de carne vermelha, além do sedentarismo e do analfabetismo, explica Moulin:

"Isso vale tanto para pessoas saudáveis quanto para aquelas com lesões cerebrais. As novidades mais recentes para os tratamentos de lesão cerebral são a meditação, a musicoterapia, a estimulação cerebral não invasiva, como a estimulação elétrica transcraniana. Mas cada terapia tem que ser individualizada, após uma avaliação pormenorizada por equipe multiprofissional. E vale lembrar que as terapias atuais como fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e neuropsicologia também são comprovadamente eficazes na reorganização cerebral repercutindo na melhora clinica dos pacientes."

Desde que começou a participar da reabilitação, Caio criou a página "Caio na Real" no Facebook para compartilhar sua história e seus avanços.

"Ele escreve o que ele está pensando, conversa, organiza a vida dele", diz Marcia Branco. "Ele está pesquisando a história do cérebro. O propósito dele é contar o que é a neuroplasticidade para as pessoas. É ser a testemunha de uma pessoa que perdeu metade do cerébro e está lúcido... Eu jamais esperava que ele fosse estar vivo, ou que ele se recuperasse. Ele sempre foi muito focado, mas dessa maneira eu nunca imaginei. Os médicos falavam das dificuldades e ele não ligava para isso. Ele saiu de uma semi-vida e hoje está ai, vivendo um dia após o outro."

Marcia conta que o filho teve que ter paciência para reaprender e para isso ele tem uma técnica especial: antes de tentar fazer qualquer coisa, ele imagina e mentaliza cada movimento.

Se quer se alimentar sozinho, ele busca na memória como era a sensação de segurar os talheres, qual a força que ele utilizava em suas mãos para dominar o garfo e a faca, ou até mesmo o que ele sentia após uma boa refeição.

"O treino mental é próprio do ser humano e um dos princípios básicos do aprendizado. Tudo acontece primeiro no plano mental e depois você executa. Hoje, temos robôs e tecnologias para auxiliar nessa atividade. Mas a máquina não faz nada pela pessoa, só auxilia para que ela use o corpo da melhor forma possível", explica Dr. André Sugawara.

De acordo com Marcia, para quem está passando por uma situação similar, o importante é não ficar parado: "A neuroplasticidade funciona. Os neurônios se transformam, reaprendem e executam. Eles vão fazendo novas funções e você tem que estimular isso constantemente".

O preconceito com a diferença

Enquanto as pesquisas e a tecnologia avançam para auxiliar a recuperação de quem sofreu uma lesão cerebral, de outro lado, o preconceito ainda é um obstáculo a ser superado. Marcia conta que enfrentou a solidão, pois muitas pessoas se afastaram por enxergar a situação de Caio como um "fardo".

"Desde que ele começou o tratamento, ele ainda tem muitas dificuldades motoras e na fala. As pessoas não entendem isso como uma recuperação, elas simplesmente não acreditam na melhora dele e se afastam. Acham que ele é um fardo, existe esse preconceito. E é por isso que eu acho que outras famílias também não compartilham a história que estão vivendo."

Dr. André Sugawara compreende a situação descrita pela mãe. Para ele, é preciso que a sociedade compreenda o outro em suas diferenças.

"O Caio é jovem e está no início da reabilitação, mas nem por isso ele precisa parar a vida dele. A vida e a reabilitação andam juntas", conclui o médico.

Caio, um sobrevivente! Estamos na torcida por você!

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