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O que o mercado de carne precisa para se recuperar da operação da Polícia Federal

Valor de exportações caiu de média de R$ 63 milhões por dia para R$ 74 mil após “Carne Fraca”.

24/03/2017 12:58 -03 | Atualizado 24/03/2017 16:06 -03
José Cruz/Agência Brasil
O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, acompanha fiscalização de produtos derivados de carne em supermercados.

Responsável por um dos principais produtos exportados pelo Brasil, o mercado de carnes começou, desde a semana passada, uma batalha para retomar a confiança no setor, após a Operação Carne Fraca.

Deflagrada na última sexta-feira (17), a operação da Polícia Federal com cerca de mil policiais revelou um esquema de corrupção envolvendo servidores do Ministério da Agricultura (Mapa), que faziam vista grossa a inspeções em frigoríficos.

Entre as irregularidades apontadas na investigação estão re-embalagem de produtos vencidos, excesso de água, inobservância da temperatura adequada das câmaras frigoríficas, assinaturas de certificados para exportação fora da sede da empresa e do Mapa sem checagem in loco, venda de carne imprópria para o consumo humano e uso de produtos para ocultar as características que impediriam o consumo pelo consumidor.

Os alvos da PF foram as empresas JBS, que detém a Friboi e a Seara, e a BRF, que controla marcas como Sadia e Perdigão.

Na avaliação da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o caminho para retomar os números do setor é deixar claro ao mercado externo que as irregularidades são pontuais.

"Não tem sustentação pra manter embargo por muito tempo. Menos de 1% das exportações e menos de 0,5% das empresas envolvidas estão envolvidas. Só 6 (dos 21 frigoríficos investigados) são exportadores", afirmou Ricardo Santin, vice-presidente e diretor de mercados da ABPA, ao HuffPost Brasil.

De acordo com Santin cerca de 20% das exportações de frango e 30% da carne suína estão embargadas e suspensas. "O Brasil não deixou de ser sério por causa de casos como esse", afirma. Ele destaca que nos últimos dois anos, o País recebeu missões de 12 países para atestar a qualidade do produto nacional.

Prejuízo

As denúncias tratam de 21 dos 4.800 frigoríficos brasileiros, mas atingiram todo o setor. Desde o fim de semana, mais de 12 ações já adotaram algum tipo de restrição às exportações brasileiras.

O valor de exportações da carne caiu de média de R$ 63 milhões por dia para R$ 74 mil, de acordo com o Mapa. O titular da pasta, Blairo Maggi, estima que frigoríficos poderão perder cerca de US$ 1,5 bilhão em vendas com a crise. O valor é equivalente a 10% dos US$ 15 bilhões de vendas em 2016.

O maior entrave agora é com a China.Terceiro maior comprador de carne bovina brasileira, já procura outros parceiros comerciais para suprir o mercado. O Ministério do Comércio chinês afirmou que está extremamente preocupado com o produto brasileiro.

Hong Kong, por sua vez, anunciou nesta sexta-feira (24) a retirada de carne brasileira dos mercados. O país importou US$ 718 milhões em carne bovina do Brasil em 2016.

Em carne de frango, os envios aos dois países representaram 20% do total, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC ).

Principal importador de carne brasileira, a União Europeia pediu que o Brasil suspendesse voluntariamente todos os embarques de carne para evitar a imposição de um bloqueio, mas o governo brasileiro não concordou, de acordo com a agência de notícias Reuters.

Na exportação, se houver embargo, nós vamos levar de três a cinco anos para reconquistar esses mercados. Estamos trabalhando muito para que o problema fique restrito a essas 21 empresas, em um enfrentamento claro, direto, transparente, rápido e eficiente.Blairo Maggi, em audiência pública no Senado

O Brasil fez um apelo aos países da Organização Mundial do Comércio (OMC), para não adotaram "medidas arbitrárias". O documento, enviado a 165 nações, sustenta que o sistema de controle sanitário do País é "sólido".

No espírito de transparência e cooperação, esperamos que os membros não recorram a medidas que poderiam constituir restrições arbitrárias ao comércio internacional ou que possam ir na direção contrária de acordos e disciplinas da OMC.

A entidades da agropecuária também se mobilizado na busca da recuperação. A ABPA entrou em contato com associações dos Estados Unidos, África do Sul, Alemanha, Reino Unido e outros países europeus.

Além da China e Hong Kong, as exportações foram suspensas também no Chile, Egito, Macau, México, Jamaica e Canadá. Já Uruguai, África do Sul, Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos barraram produtos dos frigoríficos investigados. O Qatar retirou a carga dos portos e Reino Unido e Argentina aumentaram a fiscalização.

Mudanças internas

Dentro do Brasil, frigoríficos diminuíram o ritmo. Alguns não compraram carne bovina para processar essa semana, diante da incerteza. O setor relata também atraso no abate, o que aumenta o custo de manutenção e afeta a rentabilidade do produtor.

A JBS informou nesta quinta-feira (23), em nota, que suspendeu, por três dias, a produção de carne bovina em 33 unidades das 36 que a empresa mantém no País. Para próxima semana, a companhia irá operar em todas as suas unidades com uma redução de 35% da sua capacidade produtiva.

Casos pontuais

Desde a deflagração da operação, o Ministério da Agricultura tem minimizado as irregularidades e feitos críticas à atuação da Polícia Federal. Eles reclamam que a PF não deixou claro que se trata de uma investigação de corrupção e não de saúde pública.

O presidente Michel Temer fez questão de deixar claro que é o problema restrito. "É importante sublinhar que dos 11 mil funcionário do Ministério da Agricultura, apenas 33 estão sendo investigados e das 4.837 unidades sujeitas a inspeção federal, delas, apenas 21 estão supostamente envolvidas em irregularidades", afirmou no fim de semana.

Ele também informou que entraria em contato com o presidente da China, Xi Jinping, para tentar reverter a posição do país.

Todos os 21 frigoríficos estão com as exportações suspensas. Dessas unidades, três tiveram suas atividades interrompidas e todas estão passando sob novo exame. Dos 853 mil carregamentos em 2016 exportados pelo Brasil, 184 foram alvos de irregularidades, de acordo com o Ministério de Relações Exteriores (MRE).

Em nota, o Conselho Nacional da Pecuária de Corte (CNPC) afirma que as irregularidades foram em um número "ínfimo" de frigoríficos e que as fraudes identificadas pela PF não envolvem a carne bovina, "segmento no qual o Brasil ostenta o honroso título de maior exportador mundial".

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