ENTRETENIMENTO

RuPaul, falando de Trump: 'Me perdoe, madame, mas o imperador está sem roupa!'

Astro de reality show fala sobre as mudanças no “Drag Race” e por que hoje precisamos mais que nunca das pessoas que se travestem.

23/03/2017 19:09 -03 | Atualizado 23/03/2017 19:24 -03

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RuPaul na festa da première da nona temporada de seu programa, em Nova York.

A nona temporada do programa "RuPaul's Drag Race" estreia nesta sexta-feira (24) e tem tudo para ser a de maior sucesso até agora da franquia popular, em grande medida graças ao apresentador RuPaul Charles, Supermodel of The World.

Mas não será tudo como antes no programa de competição e reality, porque "Drag Race" vai passar por transformações monumentais este ano. O programa vai sair da rede de TV gay Logo e passar para o VH1, uma mudança que afetará sua acessibilidade e seu público. E os fãs do "Drag Race" terão que se programar para assistir à atração nas noites de sexta, em vez de segunda.

As novidades assinalam uma virada para a produtora do programa, World of Wonder, para o mundo do entretenimento LGBTQ e para o próprio RuPaul.

"Acho que a ida ao VH1 reflete o fato de que nossa plateia cresceu", disse RuPaul ao Huffington Post em entrevista na semana passada. Essa ampliação do público será muito importante para a visibilidade da comunidade LGBTQ em um clima político turbulento e hostil.

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LATE NIGHT WITH SETH MEYERS -- Episode 498 -- Pictured: (l-r) RuPaul during an interview with host Seth Meyers on March 1, 2017 -- (Photo by: Lloyd Bishop/NBC/NBCU Photo Bank via Getty Images)

Para RuPaul, ser drag queen sempre foi um ato político, "e não apenas política no sentido de políticas públicas e comitês políticos em Washington", ele explica, brincando. E agora, talvez mais do que nunca nos oito anos em que reality show de sucesso esteve no ar, Ru vem se manifestando mais abertamente sobre as forças políticas em ação no nosso país e o papel que as drag queens e os drag kings exercem em combatê-las.

"Ser drag queen ou drag king é algo que contesta o status quo. A pessoa que se veste como o sexo oposto sempre contestou a matrix, sendo a matrix 'escolha sua identidade e se aferre a ela pelo resto da vida, porque é assim que queremos lhe vender produtos. Assim saberemos quem você é, poderemos incluí-lo numa categoria para então lhe vender cerveja e xampu'", disse Ru. "A pessoa que se traveste está dizendo 'eu sou capaz de mudar minha forma. Faço o que bem entendo na hora em que eu quiser.' E isso é altamente político."

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BERLIN, GERMANY - FEBRUARY 12: Drag queen Olivia Jones attends the election of the new president of Germany by the Federal Assembly at the Reichstag on February 12, 2017 in Berlin, Germany. Frank-Walter Steinmeier, a German Social Democrat (SPD), is Germany's former foreign minister and is likely to win. He will succeed outgoing German president Joachim Gauck. (Photo by Sean Gallup/Getty Images)

Se você não conhece "RuPaul's Drag Race", pense em um cruzamento entre "America's Next Top Model" e "Project Runway", com elementos de outros programas incluídos aqui e ali, sendo tudo mostrado pela lente da cultura das drags. Mas o programa não é mero entretenimento: ele nos proporciona uma visão íntima de uma comunidade de pessoas cuja própria existência e identidade são atos políticos.

Tudo isso ganha todo um novo nível de significado no momento em que o programa chega às salas de estar suburbanas dos EUA nas noites de sexta-feira, às 20h.

"Acho que as pessoas procuram nosso programa porque se identificam em um nível profundo: elas sabem que são mais do que apenas aquilo que está escrito em seu documento de identidade", disse Ru. "Agora temos este governo atual, que está mandando as pessoas retrocederem para outro tempo –que eu me lembre, nunca foi inventada uma máquina do tempo."

Segundo Ru, ao longo do tempo indivíduos diferentes em várias sociedades exerceram a mesma função cultural desempenhada pelas drag queens.

"Esse tem sido o papel da drag queens, dos xamãs, dos bobos da corte e dos curandeiros ao longo do tempo. Todos eles possuem uma dualidade de gênero. As drag queens sempre assumiram esse papel de revelar a verdade que não é tão certinha – e a verdade é que o imperador está sem roupa!"

Quando a nona temporada de "Drag Race" terminar, 114 candidatas terão passado pelas icônicas portas cor-de-rosa do "RuPaul's Drag Race." Muitas dessas drag queens tiveram carreiras de enorme sucesso, além de terem mudado vidas pelo simples fato de servirem de exemplos de outras possibilidades para adolescentes LGBTQ em toda a América.

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O compromisso de uma drag queen em ser autenticamente ela mesma pode ajudá-la a superar desafios no programa, mas sua trajetória ao longo da temporada também cria um exemplo poderoso de existir exatamente como nós mesmos em um mundo que dita aos jovens que determinadas maneiras de ser valem mais que outras.

Os modelos de possibilidades abertas a todas as minorias na era de Trump são cruciais e podem salvar vidas. "Meu legado vive através de minhas crianças, essa moçada que passou pelo programa. Esse é meu maior motivo de orgulho", disse Ru.

Nas oito temporadas passadas do show, "Drag Race" já enfocou problemas e experiências pertinentes para a comunidade LGBTQ. Alguns participantes tiveram problemas com dependência de drogas ou álcool, tiveram que aceitar sua identidade de gênero, trabalharam suas relações fragilizadas com familiares deles e aprenderam a amar a si mesmos. E, embora RuPaul não considere que seu programa seja necessariamente voltado diretamente para os telespectadores jovens LGBTQ, ele sabe que esse setor do público com certeza o estará assistindo.

"A jornada da vida vai se desdobrando à medida que você está preparado para ela. Adoro o fato de que Dorothy, em 'O Mago de Oz', falou: 'Por que você não me disse que tudo que eu precisava fazer era bater o salto do sapato três vezes?' E a bruxa boa responde: 'Porque você não teria acreditado em mim. Tinha que vivenciá-lo por você mesma."

Uma das maiores realizações de Ru talvez seja oferecer essa representação aos jovens LGBTQ que assistem a "RuPaul's Drag Race", especialmente no momento em que o programa passa para uma grande rede de televisão.

"O que eu diria a esses jovens é que eles devem ir lá e viver tudo eles próprios. Não há nada que eu possa fazer por eles", Ru prosseguiu. "Passei minha vida toda sendo fiel a mim mesmo. Acho que minha vida revela muito sobre o que precisamos fazer. Nunca se esqueça: a coisa mais política que você pode fazer é cumprir o que manda seu coração."

A nona temporada de "RuPaul's Drag Race" estreia em 24 de março no VH1 às 20h ET/PT. "American", o novo álbum de RuPaul, será lançado no mesmo dia.

James Michael Nichols é escritor e crítico cultural LGBTQ cujo trabalho focaliza as intersecções de identidade, arte e política. Siga-no no Facebook e Twitter.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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