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Crimes de ódio contra muçulmanos avançam nos Estados Unidos

Embora seja dever do presidente repudiar o preconceito, Trump não se manifesta.

21/03/2017 16:29 -03 | Atualizado 22/03/2017 15:34 -03

Bloomberg via Getty Images
President Donald Trump's  inability to understand the fears and concerns of American Muslims was apparent even before he won the election.

Depois de muita pressão, o presidente Donald Trump finalmente admitiu no final de fevereiro que o aumento do anti-semitismo nos Estados Unidos "tem de parar". Mas alguns muçulmanos estão se perguntando se o presidente também vai respaldá-los.

Desde a chegada de Trump à Casa Branca, houve atos de vandalismo e incêndio criminosos em mesquitas, um importante líder dos direitos dos muçulmanos foi ameaçado e estudantes universitários foram alvo de panfletos racistas.

A islamofobia não é novidade. No ano passado, o The Huffington Post contabilizou 385 ocorrências anti-muçulmanas nos Estados Unidos, de ataques verbais a agressões físicas.

Mas o governo Trump tem muito pouco a dizer para assegurar os 3,3 milhões de muçulmanos do país a respeito da segurança de seus líderes, suas instituições e seus espaços sagrados.

Corey Saylor, líder do Conselho de Relações Islâmico-Americanas, disse que sua organização está esperando que Trump se manifeste, depois de um aumento significativo no número de incidentes registrado no último ano.

É o dever [de Trump] repudiar o preconceito. O presidente Bush foi a uma mesquita para condenar o sentimento anti-islâmico em 2001", disse Saylor ao The Huffington Post, via email. "Ainda estamos esperando que o presidente Trump demonstre esse tipo de liderança.
Carlo Allegri / Reuters
People take part in a rally called "I am Muslim Too" in Times Square Manhattan, New York City, on Feb. 19.

A incapacidade de Donald Trump de entender os temores de preocupações dos muçulmanos americanos estava aparente desde a época da campanha. Em um dos debates, quando uma eleitora muçulmana perguntou diretamente ao empresário como ele combateria a islamofobia, Trump usou a oportunidade para falar do "terrorismo islâmico radical" – esquecendo a pergunta da mulher sobre intolerância.

Em fevereiro, os muçulmanos americanos viram essa atitude mais uma vez, agora na Casa Branca. Durante uma entrevista coletiva, um repórter perguntou a Sean Spicer, secretário de imprensa da Presidência, sobre o aumento no número de grupos de ódio antimuçulmanos. Spicer evitou a perguntar e em vez disso falou em "terrorismo islâmico radical". Como seu chefe, ele ignorou o fato de que grupos islamofóbicos estão alimentando o ódio e incitando a violência contra cidadãos americanos.

Catherine Orsborn é diretora da Shoulder to Shoulder, uma organização interreligiosa que se dedica a combater a intolerância. Ela disse ao The Huffington Post que os comentários de Spicer deixam claro que "existe um abismo entre o que nossos compatriotas enfrentam em termos de ódio contra os muçulmanos e o pensamento governamental a respeito dessas questões."

"Eles não demonstram nenhum tipo de preocupação com a segurança dos muçulmanos do país", disse Orsborn. "E precisamos que nosso governo não apenas se manifeste contra os ataques, mas também mostre com ações que ele de fato respeita os direitos e liberdades dos muçulmanos americanos, que são parte do tecido do nosso país."

Carlo Allegri / Reuters
A man dressed as Trump takes part in the "I am Muslim Too" rally in Times Square.

Durante a campanha, Trump pediu uma "proibição total e completa da entrada de muçulmanos nos Estados Unidos", o que desde então se tornou um decreto que proíbe que refugiados e pessoas de sete países de maioria muçulmana entrem no país. No passado, ele afirmou que "o Islã nos odeia" e que os refugiados do Oriente Médio estão "tentando roubar nossos filhos".

Relatos de assédio contra muçulmanos aumentaram imediatamente após a eleição, e alguns líderes afirmam que a retórica de Trump incentiva os grupos de ódio.

Ao mesmo tempo, o anti-semitismo também tem aumentado. A Liga Anti-Difamação, organização que combate o anti-semitismo, registrou um aumento preocupante no discurso de ódio contra jornalistas judeus. Desde a eleição, várias escolas e universidades relataram vandalismo anti-semita em seus campus. E, desde 9 de janeiro, pelo menos 69 ameaças de bomba foram registradas em 55 centros comunitários judaicos em todo o país. Embora nenhuma bomba tenha sido encontrada nesses locais, as repetidas ameaças telefônicas causam medo na comunidade judaica.

Rabiah Ahmed, diretora de comunicação do Conselho Muçulmano de Relações Públicas, disse ao HuffPost que considera Trump e seu governo responsáveis ​​pelo aumento de crimes de ódio contra judeus, muçulmanos e outras minorias.

"A retórica divisória incentiva muitos a agir de acordo com seus preconceitos e serve como justificativa para esses atos", escreveu Ahmed em um e-mail. "É responsabilidade de Trump acabar com essa onda crescente de ódio que estamos testemunhando."

O Centro Anne Frank pelo Respeito Mútuo é uma das organizações judaicas que têm pedido que o governo se pronuncie sobre a ascensão do anti-semitismo no país. O centro chamou a declaração de Trump contra o anti-semitismo de um "asterisco patético de condescendência".

Assim como vimos o presidente denunciar o anti-semitismo, embora muito atrasado, exigimos e esperamos que o mesmo seja dito quando se trata de intolerância anti-muçulmana.Rabino Jonah Dov Pesner

O centro também está esperando que Trump se manifeste contra os abusos que os muçulmanos tiveram de enfrentar.

"A islamofobia do presidente, marcada pelas afirmações mentirosas de que muçulmanos são mais propensos ao terrorismo, é responsável por criar uma incubadora de ódio que fomenta os crimes que estamos vendo contra os muçulmanos nos Estados Unidos hoje", disse Steven Goldstein ao HuffPost.

Goldstein disse estar "arrasado", mas não surpreso, com o silêncio do presidente. Ele afirmou que esse silêncio é um perigo duplo para judeus e muçulmanos.

"Não existe ordem hierárquica. Não temos de combater primeiro o anti-semitismo e depois a islamofobia e outros tipos de ódio", disse ele. "Temos que salvar todas as Annes. 'Nunca mais' deve significar 'nunca mais' para todos. 'Nunca mais' agora."

O rabino Jonah Dov Pesner, diretor do Centro de Ação Religiosa do Judaísmo Reformista, também denunciou o silêncio de Trump.

"Assim como vimos o presidente denunciar o anti-semitismo, embora muito atrasado, exigimos e esperamos que o mesmo seja dito quando se trata de intolerância anti-muçulmana", disse Pesner ao The Huffington Post.

Orsborn disse que, embora a condenação da islamofobia seja essencial, ativistas inter-religiosos como ela precisam de "mais do que palavras".

"Precisamos de ações que demonstrem que os direitos dos muçulmanos americanos sejam tão respeitados quanto os dos americanos de qualquer outra religião ou histórico", disse ela. "Portanto, precisamos ouvir a condenação da islamofobia, também precisamos de mais do que palavras para parar as ondas de crimes de ódio."

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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