MULHERES

Por que a estátua da 'Menina Destemida' em Wall Street é mais ou menos uma enganação

Não se deixe levar pelas artimanhas de Wall Street. Ela é melhor que nada, mas, definitivamente, não é o bastante.

16/03/2017 11:59 BRT | Atualizado 16/03/2017 15:51 BRT

É impossível não sentir alguma coisa quando você olha para ela. A escultura da garotinha esbelta no centro de Nova York é desafiadora e destemida, conforme o que foi anunciado, com seus pezinhos plantados com firmeza no chão, as mãos nos quadris e o olhar voltado para a frente e o alto.

Ela enfrenta corajosamente um dos símbolos mais poderosos e masculinos de Wall Street: o Touro Atacando.

Brazil Photo Press/CON via Getty Images

Multidões foram ver a menina depois de a enorme firma de gestão de investimentos State Street plantar a estátua diante do icônico touro de bronze instalado ali em 1989 para simbolizar a volta com tudo de Wall Street após a queda do mercado acionário ocorrida naquela década.

Mas não se deixe enganar pelas emoções suscitadas por essa obra de arte. A garotinha adorável e irresistível é simplesmente uma tática de marketing feminista super sofisticado, usado para nos dar uma sensação positiva, mas realizar pouco de substantivo. Pense na escultura de bronze, intitulada "Menina Destemida", e a campanha de consciência de gênero lançada junto com ela pela State Street, como uma espécie de conta de aposentadoria privada 401(k): mais um produto para o consumidor produzido pela indústria financeira. Ela é melhor que nada, mas, definitivamente, não é o bastante.

O que a State Street não mencionou é que ela própria não tem muitas mulheres em seu conselho de direção ou no comando de sua equipe de liderança.

A menina representa "o futuro", disse a State Street em release para a imprensa. Seu rostinho adorável é um ato de arte política, disse a empresa, que visa forçar uma discussão sobre uma das questões mais chatas, mas também mais importantes no mundo das empresas, algo para o qual nenhuma pessoa comum dá a mínima: o conselho de direção das empresas. Os membros dos conselhos de direção representam o ápice do poder corporativo; eles assessoram, contratam e demitem os CEOs de empresas, podem definir o tom e a estratégia geral de uma empresa. E, em sua maioria avassaladora, são homens.

"Estamos pedindo às empresas que tomem medidas concretas para aumentar a diversidade de gênero em seus conselhos de direção. Divulgamos diretrizes claras para ajudá-las a iniciar esse processo", disse a State Street em seu release à imprensa, divulgado no dia anterior ao Dia Internacional da Mulher, 8 de março.

O que a State Street não mencionou é que ela própria não tem muitas mulheres em seu conselho de direção ou no comando de sua equipe de liderança. Das 11 cadeiras no conselho de direção da State Street, apenas três são ocupadas por mulheres. Isso é 27% do total. Dois anos atrás havia apenas duas mulheres no conselho da empresa. Menos de um quarto dos vice-presidentes executivos e apenas 28% dos vice-presidentes seniores da State Street são mulheres.

Isso é louvável. Mesmo assim, a State Street está muito longe da paridade entre mulheres e homens em suas contratações.

Se a meta é alcançar a igualdade de gêneros, as estísticas da State Street relativas às mulheres são péssimas. Elas revelam que a escultura e o chamado à ação são principalmente sedução sem conteúdo, um pouco como a campanha de marketing não ameaçadora #WomenWhoWork, de Ivanka Trump, ou o fato de uma montadora de veículos dominada por homens, como a Audi, usar a desigualdade econômica das mulheres para promover carros de luxo.

Mas uma porta-voz da State Street disse ao Huffington Post que a empresa acha que não está se saindo mal em matéria da contratação e promoção de mulheres.

"Três e 27% é melhor que zero", disse a diretora de relações públicas da companhia, Ann McNally, aludindo ao número e porcentagem de mulheres no conselho de direção.

Esses números são apenas um pouquinho melhores que a média. Apenas 21% das vagas nos conselhos de direção de empresas da lista Fortune 500 são ocupadas por mulheres, ela notou, destacando também que uma em cada quatro empresas que constam do índice Russell 3000, as empresas que compõem 98% do mercado acionário, não têm mulheres em seus conselhos de direção. Isso é de fato terrível.

A State Street disse que, se uma empresa não coloca uma mulher em seu conselho de direção, ela pode pedir a comprovação de que isso pelo menos foi tentado.

Mesmo assim, a preferência é por uma pressão mais suave. "O processo de engajamento ao qual damos preferência é o engajamento", disse McNally, num pronunciamento um pouco difícil de entender –ou seja, em lugar de tomar medidas mais ásperas, querem que a questão seja discutida.

State Street não está dando à falta de diversidade o mesmo tratamento que daria a um problema fundamental de negócios.

Como muitas outras firmas que estão deixando a desejar no quesito diversidade, a State Street definiu metas nesse sentido. As metas são modestas: por exemplo, elevar em seis pontos percentuais até o final deste ano o número de vice-presidentes. E, como algumas outras empresas bem intencionadas, nas revisões de desempenho de seus gerentes eles são avaliados no quesito de alcançar metas de diversidade.

Isso é louvável. Mesmo assim, a State Street está muito longe da paridade entre mulheres e homens em suas contratações. Trinta por cento dos novos contratados em 2016 foram mulheres, segundo McNally. Ela se negou a dar mais detalhes sobre a composição de gênero da empresa, que tem 33 mil funcionários, ou a detalhar quais de suas divisões estão contratando as mulheres. Em muitas empresas financeiras as mulheres são direcionadas a divisões como Recursos Humanos e Jurídico, que não são responsáveis pelos lucros e são vistas como menos importantes para a firma.

Na State Street, por exemplo, há apenas duas mulheres no comitê de direção: a chefe de Recursos Humanos e a executiva administrativa chefe.

Apesar de todo seu discurso, seus programas, seus chamados à ação e suas obras de arte, a State Street não está dando à falta de diversidade o mesmo tratamento que daria a um problema fundamental de negócios. Se os lucros tivessem caído consideravelmente, por exemplo, poderíamos imaginar que a empresa tomaria medidas para retificar o probloema imediatamente. De fato, a firma se recuperou rapidamente depois de ser socorrida pelo governo federal durante a crise financeira.

Isso nos conduz a outra coisa em relação à escultura da garotinha: ela produz em nós uma visão positiva sobre uma grande instituição financeira, menos de uma década após a crise financeira de 2008, que nos levou a ter uma visão muito negativa sobre grandes instituições financeiras.

Não faz tanto tempo assim que Wall Street –comandada em sua grande maioria por homens—levou a economia global a sofrer uma queda tremenda, expulsando milhões de famílias de suas casas e causando desemprego em massa. Os investidores e os americanos mais ricos se recuperaram da crise de 2008 e ainda cresceram mais, mas as pessoas comuns não se recuperaram, longe disso.

Quando uma empresa como a State Street coopta o feminismo para finalidades de publicidade própria, isso nos induz a esquecer tudo isso. Essencialmente, somos "empoderados" para continuar a reforçar o sistema atual, apesar de ele ter tão evidentemente defraudado as mulheres (e os homens).

Mas não se preocupe com isso. Olhe para a garotinha bonitinha! Não uma mulher adulta, é claro. Dá para imaginar que se a estátua fosse de uma mulher decidida enfrentando o touro, a imagem teria sido ameaçadora demais para que essa tática de marketing pudesse surtir resultado.

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