ENTRETENIMENTO

Autor de 'Clube da Luta' reflete sobre violência e masculinidade 20 anos depois

O Huffington Post entrevistou Chuck Palahniuk, criador do romance que inspirou o filme.

16/03/2017 13:41 BRT | Atualizado 16/03/2017 14:49 BRT
Divulgação
'Clube da Luta' completou 20 anos em 2016.

"Somos os filhos do meio da história", diz um loiro. "Todos fomos criados à base de televisão para acreditar que um dia seremos todos milionários, deuses do cinema, astros do rock. Mas não vai acontecer. E estamos lentamente descobrindo isso. E estamos muito, muito putos."

Ele continua, falando sobre potencial desperdiçado e sobre trabalho duro não recompensado. Ele defende não o progresso, mas uma volta às raízes, sem reconhecer a fundação seca e rachada que está sustentando.

Seu rosto está em pôsteres nos quartos de universitários do país inteiro e gravado no coração de jovens homens: Tyler Durden, o alter-ego do narrador de Clube da Luta, que completou 20 anos em 2016.

É um livro sobre consumismo e uma resposta expressiva e violenta contra esse fato. Também é um livro sobre a masculinidade tóxica, mesmo que seu autor ouse criticar expressamente ou defender a violência controlada.

Chuck Palahniuk descreve a história como o triunfo do indivíduo, um corajoso desafio à autoridade. Mas o que essa mensagem significa hoje, em um clima político em que tais crenças podem determinar votos que colocam a destruição antes da construção?

No ano passado, Palahniuk lançou Clube da Luta 2, uma história em quadrinhos que acompanha o narrador, Sebastian, deixando de tomar seus remédios e sendo reintroduzido a Tyler Durden, o diabo niilista em seu ombro. Abaixo, Palahniuk fala sobre os quadrinhos como meio e faz uma comparação pouco confortável entre Tyler Durden e Donald Trump.

Huffington Post: Quando e por que você decidiu escrever uma sequência para Clube da Luta?

Chuck Palahniuk: Decidi há cerca de dois anos, quando a escritora de suspenses Chelsea Cain me convidou para jantar, uma emboscada para eu conhecer Brian Michael Bendis e Matt Fraction, duas lendas do quadrinhos a esta altura. O grupo se pôs a me convencer a escrever uma história em quadrinhos.

Então a história foi originalmente concebida para esse meio.

Sim. Eu meio que sabia que, ao tentar uma nova forma de contar histórias, seria mais inteligente ficar com personagens que meus leitores já conheciam.

Quais foram alguns dos desafios de escrever quadrinhos?

Todos os meus amigos disseram que, durante dois anos, nunca me tinham visto mais feliz. Foi muito divertido. Trabalhar com grupos de pessoas, trabalhar em reuniões, trabalhar com os artistas e os coloristas e meu editor na Dark Horse, todos brilhante no que fazem. E voltar a ser aluno, a ser o mais estúpido da sala, foram férias fantásticas férias.

O que a mensagem de Clube da Luta significa para você hoje, em nosso clima político atual?

A mensagem central do Clube da Luta foi sempre sobre o empoderamento do indivíduo por meio de desafios pequenos e crescentes. Vejo isso acontecendo tanto na direita quanto na esquerda. A esquerda está descobrindo seu poder através da batalha com suas instituições, na academia e de outra forma. Na direita, vejo pessoas batalhando à sua maneira, contra instituições que elas vêem como autoridade. De certa forma, é como se todos se rebelassem contra o pai e descobrissem seu próprio poder matando o pai, como diriam os budistas. No fim das contas, você tem de matar seu pai e matar seu professor.

Em outra entrevista, alguém perguntou o que Tyler Durden pensaria de Trump, e você comparou os dois...

A história do loiro num pódio era parecida demais. Me assustou.

Getty Images
Chuck Palahniuk posa com fã no lançamento de 'Fight Club 2' na Califórnia.

Você diria que Clube da Luta é mais uma crítica da masculinidade violenta, uma celebração dela, ou ambos?

Rapaz. Não diria que é uma crítica. Acho que, como é consensual, está tudo bem. É uma coisa mutuamente acordada, na qual as pessoas podem descobrir a sua capacidade de aguentar a violência ou sobreviver à violência, bem como a sua capacidade de infligi-la. Então, de certa forma, é uma espécie de terapia mutuamente acordada. Não vejo isso como uma forma de tolerar a violência -- porque na história ela é consensual -- ou de ridicularizá-la, porque neste caso ela tem um uso.

Como o argumento de que o esporte é um escape seguro para a violência.

E também sobre a obsessão de Michel Foucault com o sadomasoquismo. O mundo realmente estruturado, ritualizado e consensual do S&M é uma maneira de descobrir sua capacidade de aguentar ou infligir dor.

Mas, claro, no livro original, a violência de Tyler Durden vai além do clube. A diferença entre a intenção do livro e como os fãs o percebem é interessante. Você diria que os fãs que o celebram ou comemoram a anarquia estão interpretando mal a intenção da história?

Não, na verdade não. Porque eles meio que estão reconhecendo a fase em que descobrem seu poder pessoal por meio da atuação contra o mundo.

Você se insere como um personagem em Clube da Luta 2, tentando parar Tyler Durden. Por que você, como autor, quer se inserir dessa maneira?

Para demonstrar uma tentativa fútil de insistir que eu ainda podia controlar a história, mas ela está além do meu alcance agora. De certa forma, é também a ideia de Roland Barthes sobre a morte do autor. A ideia de que o autor só pode controlar as coisas até certo ponto e que o autor realmente não importa uma vez que o leitor tenha lido a história. O leitor traz tanto à história que o autor é meio que excluído automaticamente.

Acho que qualquer tipo de pessoa criativa cria um tipo de bebê, que será deixado na porta do leitor. Eles querem que o leitor adote esse bebê e crie esse bebê como seu. Porque é assim que seu trabalho vai para o futuro.

Clube da Luta 3 está a caminho. O que podemos esperar?

Eu realmente me segurei bastante em Clube da Luta 2. É uma criança em perigo, que é um tipo de trama padrão que eu jamais teria usado, exceto nesta nova forma, e senti que deveria manter certos padrões convencionais, por medo de perder pessoas completamente. Nova forma, uma história muito maluca, poderia ter sido uma receita para cansar as pessoas.

Mas, em Clube da Luta 3, agora que entendo as muitas maneiras pelas quais Cameron Stewart me salvou, posso escrever uma história realmente, realmente louca, sem arriscar perder os leitores. Então, tudo o que não fiz em Clube da Luta 2, porque tinha medo que seria demais, estou fazendo no Clube da Luta 3, porque acho que agora meus leitores estão mais à vontade a forma da graphic novel.

Você acha que vai continuar escrevendo quadrinhos?

Acho que depende da natureza da história. Você tem de jogar com os pontos fortes de cada meio. Há algumas coisas que eu quero escrever que ainda são estranhas para quadrinhos. São coisas que vou colocar em contos ou romances. E há coisas que são muito estranhas para serem transformadas em filmes, mas podem ser quadrinhos. Se as coisas são traduzidas literalmente o suficiente para serem transformadas em filme, elas cruzam uma linha, alienam o espectador.

Por exemplo, os soldados infantis morrendo de Clube da Luta 2. No quadrinho eles funcionam, porque podem ser um pouco cômicos, um pouco menos irreais. Você não poderia fazer o mesmo num filme. Se eles forem literais demais para serem filmados, seria tudo muito doloroso.

*Este texto foi publicado originalmente pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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