POLÍTICA

Ciro Gomes: 'Mil vezes um Bolsonaro do que um enganador como o Doria'

"Existe um conflito distributivo no País e quem está mandando com o Temer é o baronato, o baronato financeiro."

16/03/2017 00:59 BRT | Atualizado 16/03/2017 10:44 BRT
Reuters Photographer / Reuters
Em entrevista exclusiva ao HuffPost, Ciro Gomes confirma: quer ser o presidenciável da esquerda em 2018.

"Tá rindo de quê?"

Na "mais grave crise de toda nossa História" não tem espaço, segundo o ex-governador, ex-prefeito de capital e ex-ministro Ciro Gomes, para rir. É este, segundo ele, o motivo pelo qual ele é sempre chamado de pavio curto.

Em discurso para uma plateia de militantes do PDT, o partido ao qual é filiado depois da passagem por seis partidos, o mais expressivo dos irmãos Gomes questionou o presidente do partido Carlos Lupi sobre o motivo de sair sorrindo nas fotos.

"É pedido da mãe, ele já explicou que é por isso que tem que sair sorrindo nas fotos. Não tem como rir com os números que temos hoje", disparou.

Já tirando do papel a proposta de concorrer à eleição presidencial de 2018, Ciro, com ajuda de um ato falho, expôs aos militantes a estratégia para conquistar o lugar hoje ocupado pelo presidente Michel Temer.

Ninguém vai achar que vamos crescer em pesquisa antes do tempo, não vai acontecer. As pesquisas só colocam os mais conhecidos e tal. Não tem problema. Se a gente fizer o que temos que fazer, se tivermos clareza e começarmos a ajudar o povo a entender o problema e o caminho da solução, não tenho dúvida, eu arrisco cumprir essa honrosa missão que Lula (ex-presidente), opa, o Lupi (presidente do PDT) está me dando. O Lula não quer deixar e o Lupi está me dando.

Em seguida, ele emendou: "Nada contra o Lula, apenas acho que está na hora de encerrar essa briga PT e PSDB e colocar um projeto novo."

O tal projeto é a única saída possível, na visão do candidato derrotado à presidência em 2002 pelo PPS e ainda associado à ex-namorada atriz Patrícia Pillar, para a mais grave crise, como ele define o momento atual.

No fim do discurso aos militantes, em Guarulhos (SP), Ciro concedeu uma entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil na qual admitiu abrir mão da possibilidade de se candidatar caso o ex-presidente Lula decida concorrer ao cargo, embora não concorde com a candidatura do petista.

Ciro, inclusive, não concorda com muita coisa. Não está de acordo com as reformas, promete revogar a PEC do teto de gastos, discorda da estratégia para anistiar o caixa dois. Nem o discurso do não-político do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), Ciro aceita: "Mil vezes, na minha opinião, um Bolsonaro do que um enganador desse tipo".

Aqui estão os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Tem espaço para uma candidatura sua e do ex-presidente Lula?

Ciro Gomes: Acho que não há espaço para duas candidaturas em um momento como este. Se tomarmos por exemplo como sintoma da nossa força potencial, salvo o carisma do Lula, a organicidade hoje está reduzida à seguinte proporção: do centro à esquerda, já supondo que o partido da Marina seja um partido de esquerda, o que eu já tenho grande dúvidas sobre isso, nós [esquerda] temos hoje 100 deputados, em 500. Nós temos 100 contra 400. Nesses partidos todos, são cinco partidos, quatro candidatos. Isso na minha opinião, é irresponsabilidade com o País. É evidente que nesse momento todo mundo tem direito. E quem sou eu, muito menor que o Lula. Mas eu acho que aquilo que eu falei, o mais do mesmo, ou essa radicalização PSDB e PT já exauriram o ciclo. É preciso dar passagem, não digo para uma candidatura como a minha, mas é preciso dar passagem para um novo projeto.

Que tipo de projeto?

Um projeto que tenha coragem de confrontar essas premissas estúpidas que estão destruindo a economia brasileira e o maior sintoma disso são 20 milhões de pessoas, 13 milhões de desempregados e sete milhões em condições precárias.

Você se refere às reformas do Temer?

Temer está agravando os problemas. Existe um conflito distributivo no País e quem está mandando com o Temer é o baronato, o baronato financeiro. O mundo produtivo brasileiro e o mundo do trabalho estão passando o pão que o diabo amassou sem precedentes, por isso que há uma fresta aí para a gente conseguir repactuar o Brasil. Quem produz na roça, quem produz na fábrica, quem está no comércio sabe que as coisas estão profunda e definitivamente erradas no País e o trabalhador, então, nem se fala. Para além do que está acontecendo com um desempregado de família no Brasil, existem hoje ameaças graves sobre a precarização no mercado de trabalho, sobre os aposentados e pensionistas. Se passa na cabeça de alguém que seja razoável um país como o nosso tão desigual estabelecer idade mínima de 65 anos independentemente do trabalhador engravatado, que dá expediente no ar condicionado, e aquele outro que é operário da construção civil e está trabalhando de sol a sol no semiárido do Nordeste ou nas carvoarias do Pará... Isso não tem cabimento, é uma desumanidade completa.

O teto de gastos não tem validade sem a reforma...

O teto de gastos é uma perversão que vai se revelar insustentável. Portanto, tenha clareza que se depender de mim, isso será revogado. O que não quer dizer que o valor que está ali não seja um valor que tenha que presidir as relações de um governante com as finanças públicas. Sou ex-governador, ex-prefeito de uma capital, ex-ministro da Fazenda, não tenho um dia de déficit. Tem que tem saúde fiscal. Para o País enfrentar os seus problemas, é preciso ter sanidade fiscal, mas nunca preservando 50% do orçamento livre para a despesa mais perversa que são R$ 700 bilhões para juros este ano. Isso cortando em educação e saúde de um país que já tem condições tortas e desumanas na oferta de saúde, especialmente para o povo.

Após o impeachment, houve uma fragmentação muito forte da esquerda. Como repactuar os partidos com os movimentos sociais?

A única fórmula, por exemplo, de eu entrar em uma dinâmica da reunificação é estabelecer um método e o método há de ser um programa. Eu não aceito mais esse pragmatismo que se relevou uma tragédia que o PT impôs, com todo o respeito ao PT. O PT não é meu inimigo, não é meu adversário, pelo contrário. Em 1989, votei no Covas no primeiro turno e no Lula no segundo e venho votando. O Lula queria porque queria que o (Henrique) Meirelles fosse ministro da Dilma. Tivemos um golpe de Estado e o adversário golpista nomeia o Meirelles ministro da Fazenda. Tem uma coisa errada e eu sei que está errada. Chega de conciliação e isso não quer dizer ruptura nem briga, quer dizer experimentar outro caminho, outro modelo, outra premissa. Estou estudando e isso me deixa muito enraivecido e isso me faz parecer pavio curto, mas nós estamos aí massacrando a nação de 200 milhões de pessoas.

Como mudar?

Com política e democracia. Quando o PT lançou o Lula em 1989, o PT tinha 12 deputados. Quando o PSDB lançou o Fernando Henrique em 1994, o PSDB tinha 17 deputados. O problema não é esse [governo de coalizão], é a ideia. Como unir uma grande maioria do povo brasileiro e a democracia garante isso ciclicamente.

É um erro o governo de coalizão?

Esse modelo é uma mentira do Fernando Henrique que o Lula replicou. A Dilma caiu por isso; porque resolveu conciliar com bandido, com Eduardo Cunha. Meu irmão [Cid Gomes] era ministro da Educação, chamou o Eduardo de ladrão e ela ficou com ele. Olha onde eu estou e meu irmão. Antes era teórico, agora é experimental. Repare bem, Fernando Henrique perdeu para o Lula e a Dilma caiu por causa desse projeto. Isso está correto? Esse é o caminho certo para o fracasso.

No seu discurso, o senhor ressaltou que o eleitor não se vê representado. Na sua avaliação, este é o fomentador da onda conservadora que faz que o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), despontem nas pesquisas?

Sou um democrata de verdade, sou um democrata visceral e o que as pessoas veem como uma coisa ruim, eu vejo como uma coisa boa. Se há uma parcela do eleitorado que se afina com o que o Bolsonaro interpreta, representa e diz, essa fração tem todo direito que um democrata deve garantir sem qualquer tipo de queixa de se expressar na política. Evidente que no debate, eu estando presente, vou arrancar muitas máscaras. Esse João Doria se apresentar como não político, ele está esquecido que foi presidente da Embratur no governo do Fernando Collor, ele está esquecido - e eu tenho uma memória implacável - de que a empresa dele vivia de milhões de reais de dinheiro público repassado por correligionários deles, de governo do PSDB. Isso que é não-político? Mil vezes, na minha opinião, um Bolsonaro do que um enganador desse tipo.

A anistia ao caixa dois deve ser adotada na reforma política?

Evidente que não. Isso é um escárnio com a população brasileira. Tecnicamente, você pode até estabelecer uma distinção. Mas não estamos em um momento técnico, muito menos de tecnicalidade polêmica. Neste momento, o que a sociedade brasileira quer, espera e exige é que a punição deixe de ser só para ladrão de galinha e pequenos, pobres, negros, periféricos do Brasil, para alcançar os corruptos e caixa dois definitivamente é um sintoma de corrupção.

Como ficaria a reforma política?

Sem dúvida, com dois caminhos: organizar a relação de dinheiro e política e introduzir o recall, instrumento em uma democracia direta com referendo em que você possa desconstituir um mandato, não porque corrompeu, mas porque mentiu ou está fazendo o oposto do que prometeu.