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Esta artista foi reconhecida apenas aos 101 anos: 'Eu estava à frente do meu tempo e paguei por isso'

Carmen Herrera vendeu o primeiro quadro aos 89 anos e aos 101 teve suas obras expostas no Whitney Museum of American Art .

10/03/2017 15:30 BRT | Atualizado 12/03/2017 12:13 BRT

"Ao longo das décadas, tive exposições ocasionais e algumas boas críticas, mas nunca vendi uma pintura. O tipo de trabalho que eu estava fazendo simplesmente não estava na moda. Havia também portas fechadas, como um dono de galeria que amava meu trabalho, mas não exibia nenhum deles porque eu era uma mulher. Negligência benigna, eu costumo chamar, porque eu sabia que não era uma má intenção dele. Eu suponho que eu estava um pouco à frente do meu tempo e eu paguei por isso."

Este é o depoimento de Carmen Herrera ao The Guardian. Mulher e cubana, a artista plástica só foi reconhecida por suas obras depois dos 90 anos. Relutante em ser estereotipada por seu gênero e sua origem, ela demorou para encontrar o seu espaço no universo da arte contamporânea. Mas não desistiu. Foi aos 89 que ela vendeu o seu primeiro quadro. Aos 101, em janeiro passado, ela ganhou uma exibição no Whitney Museum of American Art, em Nova York.

Herrera nos ensina sobre intimidade, tempo, dedicação e quebra de paradigmas.

"Eu sempre fui uma pessoa que defende a intimidade, e meu trabalho é minha vida privada. Mas é muito agradável ser reconhecida - eu sai na capa do New York Times sem ter que matar ninguém. Tudo o que eu tive que fazer foi envelhecer. O mundo me viu uma hora ou outra - eu só tive que esperar 94 anos, só isso."

Divulgação/ Whitney Museum of American Art

Nascida em 1915, em Havana, filha de jornalistas, Herrera teve aulas de artes na infância e cursou arquitetura em Cuba. Em 1939, ela conheceu o professor Jesse Loewenthal, com quem foi casada durante 61 anos, e mudou-se para os Estados Unidos.

O reconhecimento de Herrera começou a brotar poucos anos depois da morte do seu companheiro, em 2000. "Todo mundo diz que o Jesse deve ter orquestrado isso lá de cima", disse Herrera, em entrevista ao New York Times. "Tá, tudo bem, Jesse está em cima de uma nuvem. Trabalhei realmente duro. Talvez tenha sido eu."

Em Nova York, ela frequentou a Liga dos Estudantes de Artes, mas foi em Paris que a pintora descobriu sua vocação.

"Na liga era tudo acadêmico, e embora eu sentisse que havia algo a mais que eu precisava expressar, eu não estava encontrando o caminho para isso. Foi quando moramos em Paris depois da 2ª Guerra que eu fiz a descoberta que mudou a minha vida", explicou a artista.

Percorrendo as ruas da capital francesa, Herrera descobriu os artistas geométricos e minimalistas europeus. Ela conta que teve que repensar toda a sua relação com a arte e como ela sentia a pintura.

"Eu desisti inteiramente da arte representacional e comecei a trabalhar com a abstrata. Foi uma luta, mas uma luta interessante. Trabalhei muito, e pouco a pouco, ao longo de muitos anos, vim encontrar minha própria voz."

Sobre suas pinturas, Herra argumenta que "no caos em que vivemos, eu gosto de colocar um pouco de ordem". Inspirada por Miró e Mondrian, as linhas retas e os ângulos, as cores e a profundidade fazem da arte abstrata da cubana uma arte intensa e contemplativa.

Divulgação/ Whitney Museum of American Art
Exposição de Carmen Herrera no Whitney Museum of American Art .

Carmen Herrera vive em Nova York desde 1954. Em 2015, durante uma cerimônia em um dos mais importantes museus da cidade, o Whitney Museum of American Art, a ex-primeira-dama, Michelle Obama, prestou homenagem aos 75 anos de carreira da artista.

Um ano depois, Herrera teve uma exposição individual no mesmo museu. Intitulada de Carmen Herra: Lines Of Sight (linhas de visão, em tradução literal), a mostra com cerca de 50 obras ficou aberta ao público de setembro de 2016 até janeiro de 2017.

Organizada por Dana Miller, a exposição contemplou as três fases da carreira da artista: o período formativo da pintora em Paris, em que ela experimentou com diversas formas da arte abstrata; a segunda, em que ela produziu uma de suas principais séries, a Blanco y Verde (1959–1971) composta por 9 pinturas; e por último, a fase em que a pintora também experimenta utilizar a madeira para fazer esculturas.

"As garotas vem até o Whitney e podem sonhar em ser a próxima Herrera", compartilhou a curadora em entrevista a CBS News.

Divulgação/Whitney Museum of American Art
Carmen Herrera e a curadora Dana Miller.

Quando completou 100 anos, em 2015, a pintora foi homenageada com um documentário sobre sua vida e obra. The 100 Years Show foi produzido por Alison Klayman, ganhou eixibições nos Estados Unidos e está disponível no Netflix.

Questionada sobre sua arte por Klayman, Herrera respondeu: "Se eu pudesse colocar essas coisas em palavras, eu não faria pintura. Normalmente os artistas não são as melhores pessoas para falar sobre arte. Acho que é um grande erro. Você não pode falar de arte - você tem que fazer arte sobre arte."

Atualmente, Herrera convive com uma intensa artrite e precisa da ajuda de cadeiras de rodas. Ela mal sai de casa, mas todos os dia a artista faz questão de pintar.

"Só o meu amor pela linha reta me mantém na ativa."

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