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Incêndio em abrigo para jovens vítimas de violência mata mais de 20 crianças na Guatemala

O fogo começou durante protesto de meninas contra abusos cometidos pelos responsáveis do centro.

09/03/2017 09:51 -03 | Atualizado 09/03/2017 10:54 -03
Saul Martinez / Reuters
Familiares de luto pelo incêndio em orfanato da Guatemala.

A Guatemala está de luto por três dias devido a um grave incêndio que matou jovens e crianças de um abrigo.

Na última quarta-feira (8), um incêndio no abrigo Hogar Seguro Virgen de la Asunción, em San José Pinula, matou mais de 20 crianças e deixou outras 40 pessoas em estado grave. As informações sobre as vítimas ainda estão sendo atualizadas, de acordo com a BBC.

O abrigo é um espaço de acolhimento para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social de até 18 anos. A maior parte delas já sofreu com a violência doméstica e foram retiradas das ruas.

O fogo começou durante um protesto liderado por meninas contra os abusos sexuais e físicos em reforço ao Dia Internacional da Mulher.

De acordo com o defensor de infância e adolescência da Procuradoria de Direitos Humanos do país, Abner Paredes, as primeiras investigações apontam que as meninas atearam fogo em colchões do abrigo. As funcionárias tentaram apagar as chamas, mas o fogo se propagou rapidamente.

O gesto das garotas foi visto como uma forma desesperada de chamar atenção para as violências cometidas pelos responsáveis do centro de acolhimento, como agressões e má alimentação, de acordo com o G1. Ainda, as crianças conviviam com a superlotação - são mais de 700 abrigados enquanto a estrutura só permite 400.

"Meus netos estão no abrigo, eu sei que eles sofrem maus tratos e sempre que eu venho visitá-los os responsáveis escondem informações de mim. Em uma sexta-feira em que fiz a visita encontrei uma outra mulher chorando junto ao seu filho. Perguntei o que tinha acontecido e o menino respondeu que tinham o estuprado", afirmou María Lemus em entrevista à BBC.

Não é a primeira vez que menores do abrigo Asunción chamam atenção para a situação em que vivem. O centro, que está sob a responsabilidade da Secretaria de Bem-Estar Social da Presidência, já esteve envolvido em outros escândalos por denúncias de abusos contra os internos e muitos deles fugiam do local.

Em 2016, segundo informações do G1, ao menos 47 jovens fugiram da instituição. Isso chamou atenção do governo, que chegou a destituir o então diretor.

Saul Martinez / Reuters
Velas foram acesas em homenagem as crianças mortas na Guatemala.

Em homenagem às vítimas, familiares e funcionários acenderam velas e fizeram uma vígilia na madrugada desta quinta (9). Eles cobram as autoridades por informações sobre os jovens.

"Eu vivo um tormento desde a noite passada quando soube que os jovens tentaram fugir. Eu não tenho nenhuma notícia sobre o meu filho", compartilhou Azucena Reyes, uma das mães, em entrevista a BBC.

A procuradora de direitos Humanos da Infância, Hilda Morales, afirmou que solicitará o fechamento do abrigo devido à incapacidade da Secretaria de Bem-Estar Social da Presidência para administrá-lo.

"Nós vamos pedir o fechamento imediato do centro e uma investigação para determinar as responsabilidades administrativas e criminais do centro por ter deixado de cumprir com o seu mandato", disse.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na Guatemala condenou a situação em uma mensagem postada em sua conta no Twitter.