VOZES

A brasileira que pesquisa sobre o envelhecimento do cérebro. E quer incentivar outras meninas a fazerem o mesmo

Claudia Suemoto já recebeu o prêmio 'Mulheres na Ciência'. Mas as cientistas ainda representam menos de 30% do total de pesquisadores no mundo.

09/03/2017 16:57 -03 | Atualizado 10/03/2017 19:23 -03
Acervo Pessoal
Claudia Suemoto lidera um grupo de pesquisa sobre o envelhecimento do cérebro na USP.

Mulheres são apenas 28% das pesquisadoras em todo o mundo, de acordo com dados da ONU. Falar sobre a trajetória das cientistas brasileiras é uma forma de reconhecer que a participação delas sempre foi e será fundamental para o avanço do conhecimento em qualquer área.

Elas enfrentam uma área ainda tão masculinizada e, ao mesmo tempo, servem de exemplo para tantas outras que almejam seguir a carreira científica. E Claudia Suemoto, 41 anos, sabe muito bem disso.

A médica formada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo é uma das coordenadoras do Grupo de Estudos em Envelhecimento Cerebral da Faculdade de Medicina da USP(GEEC-FMUSP). Professora de geriatria da universidade há 5 anos, em 2016 Suemoto foi uma das laureadas do prêmio Para Mulheres na Ciência, da L'Oreal.

"A gente usa o banco de encéfalos humanos da USP, que é o maior da América Latina, para entender o envelhecimento cerebral natural e também o patológico. As principais doenças que a gente estuda no laboratório são as demências, principalmente o Alzheimer, a demência vascular e a doença de Parkinson", explicou a pesquisadora em entrevista ao HuffPost Brasil.

Acervo Pessoal
Claudia Suemoto durante pesquisa no laboratório da USP.

De acordo com a pesquisadora, as dêmencias estão entre as principais causas de mortalidade do mundo. Entretanto, ainda não existe uma cura ou prevenção eficiente para esse tipo de doença. Suemoto argumenta que falta uma "conscientização geral", por parte da população e dos profissionais de saúde, para lidar com os fatores de risco e com a importância do diagnóstico.

"Uma das coisas que a gente mais discute e se preocupa é sobre a falta de diagnóstico. Muitas das alterações de memórias e dos comportamentos relacionados ao Alzheimer são interpretados como situações naturais e inerentes à velhice. Se a pessoa, por exemplo, começa a ficar esquecida, tem agitação, delírios, enfim, apresenta os sintomas das demências, muitos dos familiares percebem as mudanças, mas não procuram ajuda", explica.

Para a médica, a população se acomoda no estereótipo de que as mudanças fazem parte do envelhecimento e não procuram a ajuda profissional. Isso é confirmado quando ela vai examinar o material do banco de encéfalos.

"É muito comum no nosso banco isso acontecer. A pessoa morreu e nunca recebeu diagnóstico, e quando ela recebe a declaração pós-morte ou quando a gente examina no laboratório, ela está cheia de alterações no cérebro relacionadas à doença de Alzheimer, por exemplo. Então, cada vez que você fala sobre o tema, você está conscientizando as pessoas de que aquilo não é normal. E que se elas perceberem esse quadro em algum familiar devem procurar ajuda profissional e uma avaliação médica", complementa.

A possibilidade de trabalhar o tema na pesquisa científica surgiu para Claudia Suemoto durante o seu doutorado na Faculdade de Medicina da USP. Médica com residência em clínica geral e geriatria, ela encontrou na pesquisa a sua grande paixão.
Para mim foi um processo de descoberta. O método científico e como a gente encara essas perguntas. Como a partir delas a gente desenvolve um raciocínio. Eu me apaixonei por isso e cada vez mais eu percebi que eu poderia contribuir muito com a pesquisa. Na área de doenças demenciais você não tem um tratamento muito bem definido, então nada é muito efetivo ainda. Você não sabe a causa direito da doença. Então, fazer pesquisa investigando tudo isso engloba e ajuda mais pessoas. Isso motiva mais. É muito inspirador.Claudia Suemoto, cientista, em entrevista ao HuffPost Brasil
E se a cura ainda parece distante para essas doenças, o que move Claudia Suemoto é investigar as suas causas e fatores de risco. As suas pesquisas já relataram resultados de interesse para a saúde pública, como a relação entre a baixa escolaridade, doenças cardiovasculares e doenças demenciais.

Em países desenvolvidos, cuja média de escolaridade é de 12 a 14 anos, foi comprovado por estudos internacionais que quanto mais você estuda, menor é a chance de desenvolver Alzheimer, por exemplo. No Brasil, a pesquisadora afirma que a média da escolaridade dos seus examinados é de 4 anos.

"A nossa pergunta científica na época em que começamos a pesquisa era se esses poucos anos de escolaridade protegiam contra a demência quando comparado com outro grupo de pessoas que nunca foram para a escola. E a gente comprovou que protege sim. Ainda que sejam poucos anos de escolaridade, ajuda a diminuir o risco. Isso é questão de saúde e de política pública", defende Suemoto.

Outra descoberta interessante do trabalho da pesquisadora é a relação do envelhecimento cerebral com a obstrução de artérias. De acordo com Suemoto, as placas de gorduras nas artérias impedem a irrigação efetiva do cérebro, o que potencializa o desenvolvimento de doenças demenciais. Portanto, é importante prestar atenção ao controle do diabetes, do colesterol, praticar atividades físicas e ter uma boa alimentação.

Acervo Pessoal
Claudia Suemoto durante pesquisa.

É importante ter referências

A trajetória de Claudia Suemoto na vida acadêmica começou antes mesmo de ela pensar em ser pesquisadora. Sua mãe foi a única entre 12 filhos a ingressar no ensino superior. Vinda de uma cidade pequena do interior, a matriarca completou os estudos e se tornou a primeira referência para Claudia, sempre presente na sua formação.

Depois, a pesquisadora cruzou com figuras femininas que potencializaram suas curiosidades no mundo da Medicina, como as professoras da USP e sua orientadora na iniciação científica.

Com as pesquisas em estágio mais avançado, a professora deixou o Brasil para se dedicar a um mestrado e um pós-doutorado na escola de saúde pública da Universidade de Harvard. Com apoio do do Programa Lemann Fellowship, da Fundação Lemann, ela permaneceu nos Estados Unidos por três anos e se especializou em análise de dados.

"Eu já tinha o meu objeto de pesquisa, mas precisava saber como eu iria analisar os resultados. E o mais importante: como eu iria fazer para que a comunidade científica entendesse e tivesse acesso a estes dados. Em Harvard eu tive acesso a conhecimentos que se tornaram ferramentas para analisar melhor os meus resultados. Fiz o mestrado e o pós-doutorado, e em 2015 eu voltei para o Brasil", explicou.

Desde que retornou ao País, Suemoto se sente mais habilitada a contribuir nas pesquisas e também em sala de aula. Segundo ela, em suas classes, ela faz questão de reforçar a importância do método científico para também despertar a curiosidade em outros jovens, principalmente meninas.

"Eu nunca passei por nenhuma situação de incômodo por ser mulher e pesquisar na área de saúde. Mas tenho que ressaltar a importância de outras mulheres para a minha formação. A gente sabe que hoje em dia está aumentando o número de mulheres na pós-graduação. Atualmente, o obstáculo que eu tenho enfrentado é a progressão na carreira."

De acordo com um estudo publicado na revista Harvard Business Review, 41% dos cientistas de alto nível são mulheres. Porém, os dados revelam que 52% dessas pesquisadoras desistem da carreira.

Para os autores, a desistência acontece entre os 30 anos de idade e pode estar relacionada às várias jornadas de trabalho da mulher.

Como o trabalho científico exige muitas horas de pesquisas em laboratórios, viagens e dedicação para além do expediente, não há uma estrutura que torne possível essas mulheres a manter seus estudos e também se dedicarem a outras funções que são delegadas a elas, como a maternidade.

"Quanto mais mulheres a gente tiver em posições de liderança, mais exemplos a gente tem a seguir e mais fácil fica para criar novos espaços. Em Harvard, uma das minhas orientadoras era também a diretora do Instituto da Mulher da universidade. Então, para mim a solução é esta: a gente tem que ter em quem se espelhar, acreditar que é possível e que existem sim outros caminhos", defendeu Claudia Suemoto.

Países que mais tratam homens e mulheres como iguais