MULHERES

Os feminicídios que já ocorreram 2017 e a lacuna na conscientização dos homens

"Enquanto não for prioridade de investimento público, não vamos conseguir diminuir os índices de violência contra a mulher", diz promotora.

08/03/2017 13:17 -03 | Atualizado 08/03/2017 15:52 -03

Paulo Pinto / AGPT
São Paulo 08/06/2016 2º ato Por Todas Elas na Avenida Paulista, contra o estupro. Foto Paulo Pinto/AGPT

Mal 2017 começou e o País ficou chocado com a chacina em Campinas. Sidnei Ramis de Araújo matou a ex-esposa Isamara Filier, o filho de oito anos e outras dez pessoas após deixar uma carta em que demonstra seu ódio pelas mulheres.

Na carta endereçada ao filho de oito anos, Sidnei insulta a Lei Maria da Penha, de combate à violência doméstica. "Tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha! Não posso dizer que todas as mulheres são vadias! Mas todas as mulheres sabem do que as vadias são capazes de fazer", diz o texto.

Sei que me achava um frouxo em não dar uns tapas na cara dela, mas eu não podia te dizer as minhas pretensões em acabar com ela! Tinha que ser no momento certo. Quero pegar o máximo de vadias da família juntas.Carta de Sidnei Ramis de Araújo

Além da ex-mulher e do filho, Araújo matou amigas e parentes de Filier na noite de 31 de dezembro de 2016. Depois, tirou a própria vida.

Ele disputava com a ex-companheira a guarda da criança. A chacina foi registrada no 4º Distrito Policial de Campinas como homicídio qualificado, seguido de suicídio.

Especialista no combate à violência contra a mulher, a promotora de Justiça Gabriela Mansur destacou, em entrevista ao HuffPost Brasil, a ausência do Estado como um dos fatores que perpetua casos de feminicídio.

Enquanto não for prioridade de investimento público, destinação de verba, aprimoramento dos atendimentos, credibilidade da palavra da vítima, deixar pessoas especializadas em estratégias de políticas públicas e criminal, não vamos conseguir diminuir os índices de violência contra a mulher.Gabriela Mansur

A promotora lembra que a maioria das vítimas de feminicídio já registraram algum tipo de denúncia e fizeram algum tipo de pedido de proteção. "De alguma forma houve uma falha do Estado que esta mulher não obteve proteção necessária para evitar que ela morra", afirma.

Para a especialistas, um grande avanço da Lei Maria da Penha foi a conscientização das mulheres, mas há uma lacuna do outro lado. "Não há conscientização dos homens de respeito às mulheres, que nós somos titulares de direitos e que não se justifica nenhuma violência contra a mulher", afirma.

De acordo com dados compilados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a cada hora e meia uma mulher é assassinada por um homem no Brasil, simplesmente pela sua condição de ser mulher. São 13 casos de feminicídio por dia.

Com uma taxa de 4,8 assassinatos em 100 mil mulheres, em 2013, o Brasil ocupa a quinta posição em um ranking de 84 nações, segundo dados do Mapa da Violência de 2015.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a especialista em gênero Viviana Santiago, da ONG Plan International Brasil, de combate à violência contra meninas, criticou a naturalização da violência contra a mulher, ao comentar o caso do estupro coletivo de uma menina de 11 anos.

"Essa masculinidade é amparada por outros homens. Ele quer essa aprovação e sabe que vai ter. A cultura do estupro legitima essa prática como natural", afirmou. "Os estupros, a violência sexual contra meninas e mulheres são sintomas de uma sociedade adoecida, a sociedade da desigualdade de gênero, da subalternização, da materialização da vida e dos corpos", completou a especialista.

O feminicídio em Campinas não foi exceção. Nos pouco mais de dois meses de 2017, outros casos de violência contra a mulher ganharam projeção no noticiário nacional. A pena para o crime é de 12 a 30 anos de prisão, sem direito a pagamento de fiança, mas nem todos os casos foram classificados como feminicídio.

2 de janeiro

Renata Rodrigues Aureliano, de 29 anos, morreu na madrugada de 2 de janeiro em Varginha (MG), após ter o corpo queimado pelo ex-companheiro. Ela sofreu falência múltipla dos órgãos.

Ela e Jéferson Diego Caetano da Costa, de 26 anos, estavam separados há quatro meses, de acordo com parentes da vítima.

Na noite de Ano Novo, ela teria encontrado o ex-companheiro por acaso em um bar onde foi comprar refrigerante antes de ir comemorar a virada do ano. Os dois discutiram no local e Jéferson procurou Renata de madrugada, quando voltava para casa.

Ele ateou fogo nela com um galão de gasolina comprado em um posto de combustível. A vítima chegou a correr para casa em busca de socorro e um dos dois filhos do casal, de 9 anos, assistiu à cena. Renata foi levada para o hospital por familiares, mas não resistiu.

Jéferson foi preso em flagrante e levado ao presídio de Poços de Caldas, onde responde por homicídio qualificado por motivo torpe, com agravante de feminicídio.

Renata já havia registrado um boletim de ocorrência por ameaças do ex-companheiro. De acordo com a Polícia Civil, contudo, ela não havia pedido medidas protetivas.

3 de janeiro

A jovem de 18 anos Gabrielly Dias de Macedo foi assassinada pelo ex-namorado de 24 anos, o vigilante Anderson Silva dos Santos, em em Santo André, no ABC Paulista, em 3 de fevereiro.

O homem teria convidado Gabrielly para tentar reatar o romance a matou por suspeitar que ela tivesse encontrado outra pessoa. O casal se relacionava há cerca de sete meses e chegou a morar junto no local do crime.

Anderson espancou a ex-namorada até a morte. Ele foi detido e responde por homicídio por motivo fútil.

10 de janeiro

Amanda Maronez, 29 anos, foi encontrada morta dentro de casa no bairro Tristeza, Zona Sul de Porto Alegre (RS).

Gustavo de Oliveira Pereira, de 26 anos, teria estrangulado a ex-namorada e, em seguida, cometido suicídio com uma faca, de acordo com o diretor do Departamento de Homicídios, delegado Paulo Grillo.

Segundo as investigações, Amanda tentava terminar o namoro, mas Gustavo não aceitava o fim do relacionamento.

A jovem havia registrado um boletim de ocorrência por ameaça em 2014. O caso, porém, foi arquivado.

11 de janeiro

Janaína Mitiko, 32 anos, foi morta pelo ex-namorado, o policial militar Márcio da Silva Lima, 31 anos, a tiros, dentro do carro, em Itaquera, Zona Leste de São Paulo.

Ele não aceitava o fim do relacionamento, de acordo com amigas da vítima. Janaína teria terminado o namoro após ter sido agredida por Márcio, em dezembro.

Após ameaçar a ex-companheira, o homem foi até a porta da casa dela e a agrediu, de acordo com as investigações. Ele responde pelo crime de homicídio.

22 de janeiro

Em Barra Bonita, no Oeste de Santa Catarina, um homem de 59 anos é suspeito de matar a ex-namorada, a sobrinha dela e um jovem em 22 de janeiro.

Após o crime, o homem tentou fugir de carro em direção a Chapecó (SC), mas sofreu um acidente e foi capturado pela polícia.

Segundo as investigações, o suspeito saiu de um bar na região agrícola cidade, por volta das 14h30min, e foi em direção a casa da ex-companheira. Lá, ele teria esfaqueado as três vítimas que não resistiram e morreram.

8 de fevereiro

Tatiana Freitas de Azevedo, de 34 anos, foi encontrada morta, seminua e com parte do corpo carbonizada na favela da Portelinha, no Samaritá, em São Vicente (SP).

Segundo testemunhas, o autor do assassinato seria um homem com quem Tatiana dividia uma casa na favela. O suspeito fugiu.

16 de fevereiro

A personal trainer e professora de dança Gabriela Santiago, de 24 anos, foi assassinada em 16 de fevereiro na Região Metropolitana do Recife (PE).

De acordo com amigos da vítima, ela recebeu uma ligação, dentro do ônibus, de um ex-namorado. Após descer do veículo, ela teria sido surpreendida por ele.

A jovem foi morta com dois tiros na cabeça.

27 de fevereiro

Rafaela Horbach, de 15 anos, e as irmãs Julyane Horbac, de 23 anos, e Fabiana Horbach, de 12 anos, foram assassinadas a facadas em Cunha Porã, no Oeste de Santa Catarina.

De acordo com os bombeiros, o autor do crime seria Jackson Lahr, de 24 anos, ex-companheiro de Rafaela. O agricultor foi preso em flagrante e indiciado pelo triplo feminicídio e tentativa de homicídio qualificado.

O casal tinha um filho de dois meses. Eles brigavam na Justiça porque Jackson não queria pagar pensão alimentícia ao filho e queria ter o direito de ver a criança.

De acordo com o delegado Joel Specht, o suspeito alegou inconformismo com o término do relacionamento com Rafaela. "Alegou que não estava tendo acesso para ver o filho. E também falou de uma suposta ação judicial que estaria prejudicando ele", afirmou.

O delegado também informou que havia um boletim de ocorrência por ameaça contra Jackson registrado pela ex-compaheira e que haviam sido adotadas medidas protetivas para a vítima, impedindo a aproximação do suspeito. Specht não soube afirmar, no entanto, se a medida ainda estava em vigor.

4 de março

Deise Janaína Almeida dos Santos, 28 anos, foi assassinada com uma facada em 4 de março, no município do Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife (PE).

Um homem com quem Deise tinha um relacionamento amoroso foi preso, suspeito de cometer o crime.

#PorTodasElas: Elas dizem NÃO ao machismo