ENTRETENIMENTO

6 coisas que você não sabia sobre Gabriel García Márquez (e que vão te inspirar)

O escritor colombiano completaria 90 anos hoje.

06/03/2017 20:44 BRT | Atualizado 07/03/2017 12:09 BRT
STRINGER Colombia / Reuters
Gabriel Garcia Marquez, em 1987, celebrando os 20 anos do romance "Cem anos de solidão", que se transformou em um símbolo da literatura latinoamericana.

Quando Gabriel García Márquez aceitou o Prêmio Nobel de Literatura em 1982, ele se referiu a si mesmo como pertencente a uma linhagem de "inventores de fábulas que acreditam em tudo" e que sentem

"o direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde para nos lançarmos na criação da utopia contrária. Uma nova arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir pelos outros até mesmo a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra."

Morto em 17 de abril de 2014, aos 87 anos, ele deixou um legado que foi capaz de levar leitores junto com ele e fazê-los acreditar em qualquer coisa -- ou naquilo que o chamado realismo mágico pode cria.

O trabalho do autor colombiano baseou-se tanto em sua vivência como jornalista na América Latina, a admiração por William Faulkner e Mark Twain, quanto histórias vividas durante sua infância na casa de seus avós em Aracataca, na Colômbia.

Antes de sua morte, já fazia mais de dez anos que o escritor não publicava nada. Assim como Alice Munro, escritora e sua colega de Prêmio Nobel, García Márquez disse que a escrita o desgastou e que queria mais tempo para aproveitar a vida de outra forma.

E o fez.

Hoje, 6 de março de 2017, Gabo, como era conhecido pelos mais íntimos, completaria 90 anos de idade.

Aqui estão seis curiosidades sobre o escritor que conseguiu falar sobre amor, evocando a solidão (e que certamente vão te inspirar):

1. A crença no poder duradouro do amor

Christian RAUSCH via Getty Images

A dedicatória no livro que conta a história mais romântica de García Márquez, Amor Nos Tempos Do Cólera, diz, simplesmente: "Para Mercedes, é claro".

Ele refere-se a Mercedes Barcha, com quem se casou em 1958.

Gabriel e Mercedes se apaixonaram no momento em que se viram. Mas não puderam ficar juntos de imediato. E a história dos amantes que se conheceram na juventude, mas, por interferência da família e de outros fatores externos, não puderam ficar juntos durante uma vida toda está retratada no livro O Amor Nos Tempos do Cólera.

A história de duas pessoas cujo amor sobrevive a um longo período de separação é o cerne do livro. Mas, de qualquer maneira, Florentino e Fermina acabam juntos e apaixonados. O cólera pode ser interpretado como algo que julga que a paixão não precisa ser obscurecida pela passagem dos anos - e que sobrevive, justamente, porque o amor é uma parte fundamental da vida.

2. A reinvenção enquanto escritor

Bettmann Archive

Gabo (como era conhecido pelos íntimos), começou sua carreira como colunista de um jornal. Lá, ele escrevia seus contos e ficou reconhecido no meio literário. Depois, chegou a ser repórter e editor de jornais na Colômbia. Ele chegou até a trabalhar em um jornal comunista com sede nos Estados Unidos, mas diante de uma crise política foi obrigado a voltar para seu país de origem.

Garcia Márquez escreveu ficção a maior parte de sua vida, e não publicou seu primeiro romance até completar 40 anos. Na verdade, o que ele sempre quis, foi ser escritor. Segundo ele, esta era "a melhor forma de explorar a verdade dos fatos".

Porém, a matéria prima de muitos de seus romances e contos era o factual, o palpável, o que acontecia no "mundo real" e, principalmente, durante sua estadia em redações de jornais. Por exemplo, o assassinato no centro de Crônica de uma Morte Anunciada e a inspiração para escrever Do amor e outros demônios.

Transformar essas histórias verdadeiras em ficção permitiu a ele "usar a fantasia para dizer a verdade", como a firma sua principal tradutora, Edith Grossman. Ela completa: "Isso é o que a literatura faz. Ele diz a verdade através da invenção e do fazer-se acreditar. A magia estpa em encontrar um escritor que transforma tudo o que toca em ouro de uma forma genial".

Não á toa Cem anos de solidão chegou e até hoje é considerado a grande obra-prima do escritor.

3. Ele lutou para fazer o que gostava

Cover/Getty Images

Garcia Marquez foi criado por seus avós, em Aracataca, na Colômbia. E esta influência pode ser sentida em tudo o que ele já escreveu. Embora o escritor não tenha inventado o estilo de ficção conhecido como "realismo mágico", que combina os detalhes da vida comum com elementos fantásticos da mitologia, ele foi considerado o grande "pai" desse gênero literário após o sucesso de Cem anos de solidão.

Mas se ele é o pai do realismo mágico, sua avó, Dona Tranquilina Iguaran Cotes, é literalmente a avó do gênero. García Marquez creditou suas histórias, que "trataram o extraordinário como algo perfeitamente natural", ajudando a definir seu estilo, á convivência com ela.

De fato, talvez sejam os avós o maior presente de um romancista, porque Garcia Márquez também disse que seu avô, o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía, foi um grande contador de histórias e que lhe ensinou sobre a importância da história e da política. E foi a casa de seus avós em Aracataca, que forneceu o cenário mítico para criar a cidadezinha de Macondo, em Cem Anos de Solidão.

Mas nem tudo foi tão fácil assim.

O pai de García Marquez esperava que ele se formasse médico. E ele, com uma inquietação interna, enfrentou as vontades da família para deixar que a sua se sobressaísse. E, mesmo passando por momentos de extrema miséria durante sua jornada, conseguiu se tornar um dos grandes escritores da América Latina.

4. A inspiração em Falkner e Mark Twain

Getty Images

Foi na companhia de outros dois grandes homens da literatura que Gabriel García Marquez cresceu: William Faulkner e Mark Twain.

Em sua biografia Viver para Contar, Gabo é constantemente acompanhando por Luz em Agosto e também pelo clássico As Aventuras de Huckleberry Finn.

Mesmo antes de dar nome ao "realismo mágico", García Marquez se inspirava nesses dois para criar seus universos internos e extravasá-los no papel. Uma escritora que entrou em contato e admirou muito? Virginia Woolf.

Entre os outros autores preferidos dele estão Thomas Mann, Alexandre Dumas, James Joyce, Herman Melville, Franz Kafka e Jorge Luis Borges.

Talvez da inspiração de todos esses tenha nascido o tão aclamado realismo mágico criado em Cem anos de solidão.

5. A rivalidade com Mário Vargas Llosa

Heritage Images/Getty Images

Sim. Gabriel García Márquez protagonizou um dos maiores feudos da história recente da literatura. O episódio aconteceu com o seu também colega de Prêmio Nobel e gênio da literatura latino-americana, Mario Vargas Llosa.

Os romancistas, que se conheceram na Venezuela em 1967, protagonizaram uma das rivalidades mais famosas no mundo literário desde que, em 1976, no México, Vargas Llosa deu um soco no rosto de seu então amigo na frente de testemunhas.

O motivo da disputa é um mistério desde então porque os escritores mantiveram um pacto de silêncio de cavalheiros sobre o que aconteceu.

Segundo a agência EFE, após a morte de García Márquez, Vargas Llosa falou à emissora de TV peruana Canal N e disse:

"Morreu um grande escritor cujas obras deram grande difusão e prestígio à literatura de nossa língua. Seus livros o sobreviverão, continuarão a ganhar leitores. Envio meus pêsames a sua família"

6. A paixão por borboletas amarelas

AFP/Getty Images

Aparentemente pura e simplesmente porque gostava muito delas.

Tanto que são elas que ilustram e seguem o personagem sedutor e misterioso Maurício Babilônia em Cem anos de solidão:

"O cabelo-de-fogo norte-americano, que realmente começava a lhe interessar, pareceu-lhe um bebê de fraldas. Foi então que entendeu as borboletas amarelas que precediam as aparições de Mauricio Babilonia. Vira-as antes, sobretudo na oficina mecânica, e pensara que estavam fascinadas pelo cheiro da pintura. Alguma vez tê-las-ia sentido voejar sobre a sua cabeça na penumbra do cinema. Mas quando Mauricio Babilonia começou a persegui-la como um espectro que só ela identificava na multidão, compreendeu quea s borboletas amarelas tinham alguma coisa que ver com ele. Mauricio Babilonia estava sempre na plateia dos concertos, no cinema, na missa, e ela não necessitava vê-lo para descobri-lo, porque o indicavam as borboletas."

Para lembrá-lo em seu primeiro aniversário de morte, Bogotá fez uma série de homenagens: inaugurou um grande mural com a imagem do escritor, as bibliotecas estão promovendo leituras no dia de hoje, e a Biblioteca Nacional da Colômbia abriu exposição dedicada a escritor mais famoso do país. E muitas, muitas, muitas borboletas amarelas voltaram a voar pelo País.

Nascido em 6 de março de 1927, em Aracataca, Gabo foi a figura mais popular da literatura hispânica desde Miguel de Cervantes. Só no Brasil, segundo a editora Record, que publica suas obras no Brasil, seus livros venderam, ao todo, 2,3 milhões de exemplares. O título que os brasileiros mais compraram foi "Cem Anos de Solidão", com mais de 390 mil exemplares vendidos.

Á época, a procura pelos livros de Gabriel García Márquez aumentou com o anúncio de sua morte e a editora correu para imprimir novas tiragens dos títulos de ficção do autor. Gabo deixou um inédito, "En Agosto Nos Vemos", mas de acordo com a Record, a família não quer publicá-lo, para a tristeza dos fãs.

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