MUNDO

Os ciganos na Alemanha enfrentam o racismo, a invisibilidade e a ameaça de deportação

Há 70 anos, os nazistas vitimaram uma comunidade que ainda hoje luta para ser aceita.

28/02/2017 20:05 -03 | Atualizado 28/02/2017 20:48 -03

Thomas Peter/Reuters
People lay flowers during the inauguration of the Memorial to the Sinti and Roma of Europe Murdered under National Socialism in Berlin on Oct. 24, 2012.

Em Berlim 24 de outubro de 2012, pessoas deixam flores na inauguração do Memorial aos Sinti e Roma da Europa Trucidados sob o Nacional-Socialismo.

BERLIM – Eles foram aviltados, destituídos de seus direitos, obrigados a fazer trabalhos forçados, enviados a campos de extermínio, massacrados. Sua história é uma parte da história do Holocausto que frequentemente passa batida, e mesmo hoje, tantos anos mais tarde, esta comunidade ainda vive socialmente marginalizada.

Acredita-se que os roma (pessoas da etnia rom), também conhecidos como ciganos – termo visto por alguns como um insulto – migraram da Índia para a Europa entre os séculos 8 e 10. Estima-se que antes da Segunda Guerra Mundial havia quase 1 milhão deles na Europa. O número exato dos que morreram durante o Holocausto é desconhecido, mas historiadores dizem que um quarto da população roma da Europa foi massacrada pelos alemães e seus aliados; o Conselho dos Sinti e Roma sugere que cerca de meio milhão tenham sido dizimados.

Sete décadas mais tarde, quando a Alemanha ergueu entre o prédio do Parlamento alemão e o icônico Portão de Brandemburgo um memorial às vítimas roma do Holocausto, foi um sinal aparente de que a liderança do país estava finalmente reconhecendo sua grande comunidade étnica minoritária e a importância dela na história alemã.

Yermi Brenner for The WorldPost
Visitors pass through the Roma memorial in Berlin, Germany.<br /><i></i>

Na cerimônia de abertura do memorial, em outubro de 2012, a chanceler alemã Angela Merkel disse que "cabe à Alemanha e à Europa dar apoio ao povo roma, onde quer que ele viva, não importa qual seja o país".

Desde o discurso dela, porém, o governo alemão, sob pressão política para limitar a entrada de migrantes e refugiados no país, vem em lugar disso tomando medidas para restringir as oportunidades de asilo para candidatos vindos dos Bálcãs ocidentais, muitos dos quais são roma.

Enquanto isso, as pessoas da comunidade rom que já vivem na Alemanha continuam a enfrentar racismo fartamente documentado, enquanto os roma em outros países são alvos de crimes de ódio. E a Agência Federal AntiDiscriminação da Alemanha constatou que estereótipos negativos e preconceito contra os roma ainda prevalecem na maioria dos setores da sociedade alemã.

Numa época em que políticos de extrema direita ganham destaque e força na Alemanha e outros países da Europa e do mundo, o WorldPost lança um olhar mais profundo sobre a situação atual vivida pelos roma na sociedade alemã, através das histórias de uma nova geração de roma que lideram a batalha de sua comunidade por aceitação.

Neo Sanchez for The WorldPost
Joshla Weiss says members of the Roma community, which she is part of, regularly face discrimination and racism in German society.

Trauma e Racismo

Sete parentes de Joshla Weiss, incluindo seus dois avôs, foram assassinados em campos de concentração nazistas. Weiss, 36 anos, é cidadã alemã; sua origem é sinti, um dos subgrupos étnicos maiores dos roma. Ela passou toda sua vida na Alemanha; seus antepassados vieram para esta região do mundo mais de 600 anos atrás.

Os nazistas consideravam os ancestrais de Weiss e todos os outros roma "racialmente impuros" e os destituíram de seus direitos, terminando por enviá-los a campos de extermínio. Até 220 mil roma teriam sido massacrados "pelos alemães e seus aliados do Eixo", segundo historiadores do Museu Memorial do Holocausto americano.

"O trauma está nos nossos genes", disse Weiss ao WorldPost.

Eles foram aviltados, destituídos de seus direitos, obrigados a fazer trabalhos forçados, enviados a campos de extermínio, massacrados.

É esse trauma, ela disse, que levou os roma na Alemanha a desconfiar dos alemães étnicos. Mas a falta de confiança não se deve apenas ao passado. Na sociedade alemã de hoje, disse Weiss, as pessoas de origem roma enfrentam racismo e discriminação cotidianos.

O racismo que ela cita é confirmado por um estudo recente do Centro Pew segundo o qual 40% dos alemães têm uma visão desfavorável dos roma, enquanto 29% desaprovam os muçulmanos e 5%, os judeus. Os casos de estereotipagem negativa dos roma –sugerindo que eles não se enquadram na sociedade, não têm conceito de propriedade privada e não gostam de trabalhar—ocorrem com frequência na política, mídia e cultura alemãs, segundo um estudo conduzido em 2013 pela fundação Memória, Responsabilidade e Futuro, ONG alemã que promove os direitos das vítimas do Holocausto. Outro estudo, este da Universidade de Leipzig, revelou que mais de 50% dos entrevistados achavam que os roma têm propensão pelo crime, e quase a mesma parcela disse que acharia problemático ter vizinhos roma.

Ciganos invisíveis

Existem hoje cerca de 70 mil roma que são cidadãos alemães. Mas, segundo Weiss, muitos roma ocultam sua identidade cultural em vez de abraçá-la, em parte por causa do alto grau de xenofobia ao qual são expostos no país.

Os roma na Alemanha "muitas vezes são invisíveis no público, não são reconhecidos ou vistos como sendo sinti ou roma", disse ao WorldPost o sociólogo Albert Scherr, da Universidade Freiburg de Educação, que estudou extensamente a comunidade roma no país. Segundo ele, a maioria dos roma nasceu na Alemanha e trabalha "em empregos comuns, tem carreira acadêmica e vive vidas normais".

Yermi Brenner for The WorldPost
One woman dances in a crowd of Berliners as they listen to traditional Roma music at the 2016 Herdelezi street festival.

O festival Herdelezi, promovido anualmente em Berlim, tem por objetivo aumentar a visibilidade do povo e da cultura dos roma na esfera pública alemã. Várias centenas de roma e outros se reuniram para a celebração cultural do ano passado, numa tarde ensolarada de maio. Uma rua inteira foi fechada. No lugar dos carros, surgiram barracas de comida com pastéis e doces dos Bálcãs, legumes recheados e churrasquinho. Ao lado das barracas de comida, em estandes de artes e artesanato, as crianças podiam fazer seus próprios distintivos coloridos e participar de outras atividades criativas.

Organizada pela Amaro Foro e V, a sucursal em Berlim da associação nacional de jovens roma para a qual Weiss trabalha, a festa de rua quer combater estereótipos negativos sobre os roma, mostrando a diversidade da comunidade. O objetivo é "nos reunirmos para nos festejar e nos apresentar. Estamos aqui!", disse Weiss.

"O trauma está em nossos genes." Joshla Weiss

Os participantes incluíam músicos roma da Alemanha, Bulgária, Romênia e Sérvia que apresentaram desde canções de amor pop e ritmos balcânicos até hip-hop de estilo americano. Berlinenses jovens e velhos de todas as origens étnicas dançaram diante do palco, enquanto outros em volta os aplaudiam.

Roma rejeitados

A população rom na Alemanha contemporânea é composta de vários grupos, disse Scherr, cada um com seu status legal e social próprio na sociedade. Além dos roma "invisíveis" nascidos na Alemanha, há dois outros grupos principais.

O primeiro grupo inclui os roma que imigraram para a Alemanha vindos de outros países da União Europeia – principalmente Romênia e Bulgária – e que, portanto, têm o direito de viver no país, por serem cidadãos da UE. O segundo grupo consiste de roma de países dos Bálcãs ocidentais, cuja situação é muito mais complicada porque não são residentes da UE; logo, suas opções de imigração legal para a Alemanha são limitadas.

NurPhoto via Getty Images
Roma&nbsp;march in a&nbsp;national demonstration against the risk of a new Holocaust and discrimination of nomad people in Berlin, Germany, on June 3, 2016.

A rejeição e deportação de candidatos a asilo do povo rom vindos dos Bálcãs ocidentais desencadearam uma série de protestos em toda a Alemanha no ano passado em apoio à comunidade roma. Numa tarde de sexta-feira em junho, manifestantes marcharam em passeata pelo distrito turístico de Berlim, gritando palavras de ordem e segurando cartazes com dizeres como "Todos os roma devem ficar aqui!" e "Para os roma não existe segurança em seus países de origem!".

Quem estava documentando tudo era Kenan Emini, da Rede Antidiscriminação dos Roma, projeto financiado pelo Ministério alemão dos Assuntos Familiares, da Terceira Idade, das Mulheres e da Juventude. Emini é o cineasta responsável por "The Awakening", documentário que destaca as histórias de roma que vieram à Alemanha em busca de refúgio mas acabaram sendo deportados ou enfrentam a ameaça de deportação.

"Quero dar uma voz a eles para que alguém ouça sua história", disse Emini ao WorldPost.

A história dos roma é também a do diretor. Emini cresceu na Iugoslávia, filho de uma família rom, e depois de fugir da guerra em Kosovo em 2000 recebeu autorização de residência na Alemanha. Mas em seus primeiros sete anos nesse país seu direito de permanência estava sempre sujeito a ser revisto, e ele temia a possibilidade de ser deportado para Kosovo, um lugar onde, como rom, ele sempre se sentiu discriminado.

A minoria rom em Kosovo e no resto dos Bálcãs ocidentais sofre os efeitos da pobreza e da discriminação sistemática, segundo relatórios da Human Rights Watch e do Departamento de Estado dos EUA. Nos últimos dez anos muitos roma nos Bálcãs ocidentais fugiram para a União Europeia na esperança de encontrar refúgio, e a Alemanha foi seu destino preferencial.

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Yermi Brenner for The WorldPost

O número de pessoas dos países dos Bálcãs ocidentais que pediam asilo na Alemanha começou a aumentar em 2009 e chegou ao auge em 2015. A etnia dos candidatos a asilo não é registrada, mas a mídia alemã informou que muitos dos candidatos que tinham cidadania de um país dos Bálcãs ocidentais eram do povo rom.

A chegada desses candidatos a asilo coincidiu com uma onda grande de migrantes do Oriente Médio e da África que vieram buscar asilo no país, especialmente em 2015, ano em que mais de 1 milhão de pessoas migraram para a Alemanha. Enfrentando pressão política para frear o fluxo de migrantes, o governo alemão acrescentou seis países dos Bálcãs ocidentais – Kosovo, Sérvia, Macedônia, Bósnia-Herzegóvina, Montenegro e Albânia – à sua "lista de países seguros", permitindo às autoridades rejeitar rápida e facilmente os pedidos de asilo feitos por cidadãos desses países.

"Bons refugiados" e "maus refugiados"

Emini disse que a lei dos "países seguros" converteu os roma que vêm à Alemanha em busca de proteção em refugiados "indesejados" ou "maus", em oposição aos "bons" refugiados vindos da Síria.

Mas o governo alemão vê o sistema sob outra ótica. Um porta-voz do ministro federal do Interior, Tobias Plate, explicou por e-mail que cada pedido de asilo é analisado individualmente e que os solicitantes têm a oportunidade de apresentar seus argumentos às autoridades alemãs.

"Quero dar uma voz a eles para que alguém ouça sua história."Kenan Emini

"Isso se aplica, sem exceções, a todos os candidatos a asilo vindos de países de origem seguros, incluindo membros do grupo étnico rom", escreveu Plate. "Não há fatos que justifiquem a premissa de que a situação nos países balcânicos ocidentais force o grupo étnico rom e outros grupos de pessoas a partir."

De acordo com Conselho Europeu de Refugiados e Exilados, ou ECRE, a classificação de países como sendo "seguros" coloca pessoas de determinadas nacionalidades em risco de receber tratamento menos favorável. O briefing legal do ECRE observa que "acontece com frequência que os cidadãos de um país 'geralmente' desfrutam da proteção do Estado, enquanto certas minorias são mal tratadas".

Yermi Brenner for The WorldPost
Roma migrants in&nbsp;Germany carry a sign that reads "ALL ROMA STAY HERE!" and&nbsp;"STOP THE DEPORTATIONS!" during a protest.

No caso da Alemanha, o acréscimo de seis países balcânicos à lista de "países seguros" teve grande repercussão. O índice de concessão de asilo a candidatos balcânicos na Alemanha está muito baixo no momento, e, desde que seus países foram classificados como seguros, o número de pedidos de asilo de candidatos desses países diminuiu muito.

Kenan Amini ajudou a redigir uma petição dirigida a Angela Merkel dizendo que a Alemanha tem "uma responsabilidade histórica com as vítimas do Holocausto" e que, assim como as autoridades alemãs ofereceram proteção a judeus que fugiram da União Soviética na década de 1990, deveriam oferecer proteção aos roma dos Bálcãs ocidentais.

"Os judeus foram inteligentes, eles falam muito sobre o Holocausto; o mundo inteiro sabe sobre o Holocausto, e esse é o direito deles. Eles sabem lutar por seus direitos. É muito importante para nós aprendermos com esse exemplo", disse Emini.

"O povo judeu sabe lutar por seus direitos. É muito importante para nós aprendermos com esse exemplo."Kenan Emini

Emini é ambivalente em relação à sua identidade como rom. Ele tem orgulho de suas origens, mas não sente a necessidade de definir-se em termos étnicos ou nacionais.

"Não tenho essa fixação com nacionalidade, se sou rom ou não rom", ele disse. "Somos todos humanos. Mas estou neste papel, então tenho que conviver com isso."

Um misto de oportunidade e racismo

Emini conseguiu garantir sua permanência na Alemanha após uma luta burocrática de sete anos. Mas, para os roma que emigraram de países da UE, o caminho à residência legal na Alemanha é muito mais curto.

Aurel Dinu, de 26 anos, é natural da Romênia, país da UE onde a minoria rom enfrenta discriminação sistemática, segundo relatório da Anistia Internacional e pesquisa da Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia. Dinu cresceu numa comunidade roma pobre e abandonou o ensino fundamental após quatro anos porque seus pais não tinham recursos para lhe dar livros, canetas e outros materiais escolares. Ele passou a adolescência encontrando maneiras diferentes de ganhar a vida, catando lixo e pedindo esmolas.

Yermi Brenner for The WorldPost
Aurel Dinu left Romania for Germany in 2014 with his four kids and pregnant wife, escaping systematic discrimination of Roma in his home country.&nbsp;<i></i>

Três anos atrás, Dinu estava casado, com quatro filhos e um quinto a caminho. Foi quando ele e sua mulher, percebendo que não tinham chance de dar uma boa vida a seus filhos na Romênia, decidiram migrar para a Alemanha.

"Se tivéssemos ficado na Romênia, meus filhos não poderiam estar na escola hoje, porque há discriminação demais. É o que eu próprio vivi", disse Dinu ao WorldPost em Berlim.

"Quero ficar aqui. Não quero voltar à Romênia. Quero um futuro melhor para meus filhos. Quero que eles estudem e tenham uma vida melhor que a minha", ele explicou, chamando a atenção para o racismo que os roma enfrentam na Romênia, ainda mais gritante e sistêmico que na Alemanha.

Quando a família chegou à capital alemã, em 2014, passou quatro meses morando em um parque público até encontrar lugar em um abrigo local para sem-teto. Inicialmente Dinu ganhou dinheiro lavando os para-brisas de carros em cruzamentos da cidade e catando garrafas vazias para reciclagem. Depois disso, foi contratado por uma firma de limpeza, para a qual trabalhou por um ano e meio. Depois de trabalhar por 18 meses na Alemanha, Dinu e seus familiares ganharam acesso gratuito ao sistema de saúde alemão e a apoio básico do sistema de bem-estar social.

"Se tivéssemos ficado na Romênia, meus filhos não estariam na escola hoje, porque há discriminação demais."
Aurel Dinu

No verão passado Dinu ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Hildegard Lagrenne, organização sem fins lucrativos que promove a integração dos roma, para estudar o idioma alemão em tempo integral. As autoridades alemãs pagam o aluguel do apartamento de dois quartos ocupado por Dinu e sua família. Ele se disse grato ao país pelas oportunidades que sua família está tendo.

Mas seu conforto vem acompanhando do medo subjacente do racismo. E, embora diga que a discriminação parece ser muito menor que em seu país de origem, a Romênia, em algumas ocasiões Dinu ainda não deixa sua mulher usar seus vestidos coloridos tradicionais, um indício visível de sua identidade cigana.

"É importante que ela continue a usar as roupas tradicionais, mas também sei que às vezes isso pode causar problemas", ele explicou. "Então, se vamos a uma reunião importante, por exemplo (com os serviços de bem-estar social), digo a ela para não usar a saia naquele momento –ela pode levar na bolsa e colocar depois que saímos da reunião, apenas por causa da impressão que causa, o jeito como leva as pessoas a reagir."

Monika Skolimowska/Getty Images
A German official&nbsp;lays down a wreath during a commemoration ceremony at Berlin's Roma memorial on International Holocaust Remembrance Day, Jan. 27, 2017.

O receio de Dinu, como o de muitos roma no país, independentemente de terem residência ou não, é que alguns alemães possam discriminar contra ele e sua família.

Mais de sete décadas se passaram desde que o regime nazista classificou os roma como racialmente inferiores. Mas as feridas ainda não cicatrizaram. Para os roma na Alemanha, a realidade é ambígua, incluindo uma oportunidade de vida melhor para alguns, deportações para outros e discriminação racial para a maioria. Com o passar de mais um Dia Internacional de Memória do Holocausto, enquanto a mensagem anti-imigrantes ameaça dominar as eleições, a promessa de apoio feita pela chanceler Angela Merkel parece ser cada vez mais vazia.