ENTRETENIMENTO

As pessoas estão criticando o 'blackface' que Daniela Mercury usou no Carnaval de Salvador

Cantora baiana apareceu no trio com a pele escurecida e peruca afro.

28/02/2017 16:33 -03 | Atualizado 28/02/2017 21:40 -03
Reprodução/Instagram

Umas das principais lutas travadas pelo movimento negro se dá contra a reprodução de estereótipos racistas. Nesse contexto, o uso do blackface é considerado um gesto extremamente ofensivo.

A técnica de maquiagem surgiu nas artes cênicas no século 16, ganhou popularidade no século 19 e caiu em desuso na segunda metade do século 20 - justamento por conta do nascimento do movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA.

Por meio do blackface, artistas brancos coloriam o rosto com carvão para imitar negros. Além de reduzir a figura do negro a algo sempre caricato, a prática afastava pessoas de pele verdadeiramente negra do protagonismo nas artes.

A manutenção do racismo por meio dessa técnica ganhou intenso debate no Brasil nos últimos anos, após sua adesão em diferentes contextos populares.

Para citar alguns exemplos, Ana Maria Braga abriu espaço para o blackface em seu programa, a companhia teatral Os Fofos Encenam tentou levar para o palco do Itaú Cultural, em São Paulo, e Paulo Gustavo levou para a TV.

Tal debate não impediu que Daniela Mercury fizesse uso da técnica durante o Carnaval.

Depois de questionar a intolerância contra casais homoafetivos promovendo um casamento simbólico com a sua companheira Malu Verçosa e falar sobre empoderamento feminino em outro dia; nesta segunda-feira (27), ela apareceu em seu trio, em Salvador, fantasiada do que chamou de Deusa de Ébano.

Com pele visivelmente mais escura e uma peruca crespa em penteado black power, a cantora afirmou por meio de seu Instagram que a fantasia era também uma homenagem à cantora Elza Soares: "Dia de Empoderamento negro", escreveu na legenda da foto abaixo:

No trio, a cantora baiana estava acompanhada de Vovô do Ilê, criador do grupo Ilê Aiyê e um dos maiores defensores da cultura negra do Brasil, do ator Luis Miranda e do casal Lázaro Ramos e Taís Araújo, capa da revista Veja da última semana.

Apesar do apoio da cantora na luta por igualdade racial no Brasil e seu ativismo pessoal em prol dos direitos dos LGBTs, ela não saiu ilesa de críticas nas redes sociais.

No Twitter, ativistas ressaltaram que o uso do blackface anula qualquer homenagem a uma mulher negra.

No Facebook, outras pessoas também reprovaram a fantasia de Daniela.

Reprodução/Facebook

Reprodução/Facebook

A cantora baiana também foi criticada no Instagram. Uma de suas seguidoras escreveu:

Rainha, precisa de uma assessoria mais atenta, meu bem. Muitas falhas no discurso. Você é uma voz que ecoa alto em nosso Brasil, representando nossos movimentos negro e LGBT. Por favor, seja mais cuidadosa. Ouça mais mulheres negras. No final de sua apresentação no trio, você vai pra casa, tira a peruca black e volta a ser mais uma branca privilegiada. Portanto, tenha cautela. Um grande beijo. Muita luz.

Em outro comentário, apontaram:

Você pode homenagear o negro sem colocar peruca e sem pintar a pele por exemplo! Nosso cabelo não é um objeto. Estamos lutando para o fim disso há tempos.

Daniela Mercury respondeu as críticas em entrevista para o site Bahia Notícias:

Eu sou preta de pele branca porque a cultura da minha cidade é afro-brasileira e é isso que eu amo. Eu sou Michael Jackson ao contrário, adoro ser negra, minha música é negra, meu empoderamento é negro.

De acordo com o site, a cantora ainda afirmou que aprendeu a cantar em Iorubá com oito anos de idade e que "até o Benim já se apropriou da cultura baiana".

Muita gente que não gosta de ser o que é e eu adoro ser negra e baiana. Sou uma preta de pele branca e daí.

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