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A mulher que sobreviveu ao Ebola não resistiu ao tornar-se mãe na África

A enfermeira Salome Karwah lutou contra uma guerra civil e um vírus letal. Mas não resistiu a uma cesária em um sistema médico decadente na Liberia.

28/02/2017 12:48 -03 | Atualizado 28/02/2017 16:23 -03
Reprodução/Twitter
Salome Karwah não resistiu ao parto de seu segundo filho.

Quando tinha 26 anos, Salome Karwah já tinha desafiado a morte pelo menos três vezes.

Ela sobreviveu à uma epidemia do vírus Ebola, que foi a mais longa e matou mais de 11 mil pessoas na África, incluindo sua mãe, pai, tios e primos. Antes, Salome tinha se escondido de tiroteios para viver as duas guerras civis da Liberia que assassinaram mais de 500 mil liberianos.

Na última terça-feira (21), no entanto, Karwah não sobreviveu ao parto de seu segundo filho e se tornou mais uma vítima de um sistema de saúde sem infraestrutura. As informações são da revista Time.

Em 2014, a assistente de enfermagem estampou a capa da revista americana como "personalidade do ano". O seu rosto ficou reconhecido como o símbolo da resistência e da esperança de um povo que se via arrasado por um vírus letal, após tanta violência, e ainda tinha que lidar com o silêncio do resto do mundo.

Depois que se curou da Ebola, doença que causa hemorragias, falência dos orgãos e leva à morte, Karwah voltou ao hospital em que recebeu ajuda dos Médicos Sem Fronteiras para prestar assistência aos outros liberianos.

Ela entendia como ninguém o sofrimento de cada um deles e era uma das poucas pessoas que poderiam ajudá-los com o toque humano.

Naquele ano em que estampou a revista, a enfermeira parecia invencível. Em entrevista, ela chegou a afirmar que os sobreviventes do Ebola tinham "super poderes".

Salome Karwah viu o seu povo respirar de alívio quando a epidemia foi controlada. Ela se casou e constituiu uma família. No último 17 de fevereiro, a enfermeira deu à luz a seu segundo filho. Ela permaneceu três dias no hospital e assim que foi liberada para ir para sua casa, começou a ter convulsões.

Ao voltar para o hospital, James Harris, seu marido, disse em entrevista à Times que ninguém prestou assistência a sua mulher.

"Ela era uma das sobreviventes do Ebola. As pessoas se recusaram a tocar em seus fluídos com medo de infeccção. Meu coração está partido", afirmou.

A família da Karwah não tem informações sobre a causa da morte, mas suspeitam de algo deu errado durante a cirurgia.

"Se ela tivesse recebido tratamento adequado, talvez tivesse sobrevivido. Mas ela foi estigmatizada e ignorada", desabafou Josephine Manley, irmã de Salome Karwah.

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