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'Índios nunca têm voz, nunca têm vez', diz carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense, que homenageará o Xingu

Ao trazer o tema, o samba enredo chamado "Xingu, o clamor da floresta", provocou a ira do setor de agronegócios no Brasil.

25/02/2017 16:34 -03 | Atualizado 25/02/2017 17:05 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
Índios durante ritual de dança no Xingu, em 2012, no Mato Grosso

"Sou guerreiro imortal derradeiro

Deste chão o senhor verdadeiro

Semente, eu sou a primeira

Da pura alma brasileira."

É assim que a escola de samba Imperatriz Leopoldinense contará a dramática história de luta e resistência da comunidade indígena do Brasil na Sapucaí carioca. A escola escolheu homenagear as aldeias indígenas localizadas na reserva do Parque Indígena do Xingu e, ao trazer o tema, o samba enredo chamado "Xingu, o clamor da floresta" provocou a ira do setor de agronegócios.

Mas, para o carnavalesco da Imperatriz Cahe Rodrigues, responsável por trazer o tema e levantar o debate sobre o drama de ser índio no Brasil, na verdade, houve um mal entendido por parte dos agricultores. "Nunca houve a intenção de agredir o agronegócio, isso foi um mal entendido deles -- e isso acabou trazendo uma repercussão nacional, na qual vários produtores se levantaram contra o enredo como se a escola estivesse fazendo uma crítica ao setor", disse Rodrigues ao HuffPost Brasil.

Segundo o carnavalesco, na verdade, o enredo exalta o índio e mostra tudo aquilo que, de alguma forma, "leva dor para as aldeias, destrói o verde, agride a vida do índio."

"Então, quando você fala sobre o uso indevido do agrotóxico, das queimadas ou da derrubada ilegal de árvore você está justamente fazendo um alerta sobre essas questões ambientais. Mas eles transferiram a grande preocupação ambiental para eles como se fosse algo direcionado ao setor do agronegócio."

O carnavalesco conta que trazer esse debate para a Sapucaí era um sonho antigo e, ao mesmo tempo, um desafio com grande responsabilidade. Ele diz que o País carrega uma dívida eterna com os índios e que qualquer forma de exaltação é válida. "Muita gente acha que índio é lenda, que não existe, que índio vai pra rua de arco e flecha para lutar pelos seus direitos. Quando, na verdade, isso não existe. A grande maioria dos índios do Brasil aprendeu a ler, estudou, conhece suas leis e aprendeu a dialogar", explicou.

Os índios ficam sempre em segundo plano. Os índios nunca têm voz, os índios nunca têm vez.

Para trabalhar o tema, Cahe viajou ao Parque Indígena do Xingu, que fica no estado do Mato Grosso, e visitou algumas aldeias. Por lá, ele conversou com índios e ouviu suas principais angústias e preocupações, ou, como ele disse, "o que tira a paz do índio". "Acabo voltando dessa viagem com uma responsabilidade ainda maior, de levar essa história na avenida, que iria atingir tantas pessoas no Brasil e no mundo."

Reprodução/Facebook/ Cahe Rodrigues

Cahe Rodrigues em sua passagem pelo Xingu

No enredo, a escola traz à tona temas como o desmatamento, o uso indevido de agrotóxicos e as consequências da usina de Belo Monte.

"Jardim sagrado o caraíba descobriu

Sangra o coração do meu Brasil

O belo monstro rouba as terras dos seus filhos

Devora as matas e seca os rios

Tanta riqueza que a cobiça destruiu"

"Chamamos a atenção para o medo e a preocupação permanentes dos xinguanos, que a cada noite temem uma nova invasão de suas terras", escreveu o carnavalesco em um post que defende o enredo no Facebook. "Ou imaginam a catástrofe que a usina de Belo Monte desencadeará no ecossistema de toda aquela região, inundando aldeias, igarapés e levando na força de suas águas as chances de sobrevivência de sua gente. Tive a oportunidade de ver isso pessoalmente. Conversei com eles, ouvi a sua angústia."

O apoio que vem do Xingu. #salveoverdedoxingu #xingu #imperatrizleopoldinense #carnaval2017 #rainhaderamos

Uma publicação compartilhada por Imperatriz Leopoldinense (@imperatrizleopoldinenseoficial) em

Perguntado sobre suas expectativas para a folia, o carnavalesco diz que quer deixar a reflexão na avenida e promover o debate sobre o tema. "No Carnaval temos uma mídia espontânea muito grande e uma exposição mundial, até porque ele é transmitido para cerca de 180 países, então, quando você leva uma reflexão para avenida, é sempre muito pertinente."

"Espero que as pessoas analisem a questão do índio no Brasil. [Queremos] Dar voz a eles, mostrar o que mais importa desse enredo é o respeito. Eles são nossos irmãos e vivem uma realidade nua e crua de perseguição, de ameaças constantes por conta de suas terras. Então, acho que toda forma de exaltação e respeito ao próximo é válido e é isso que a imperatriz vai fazer."

A Imperatriz Leopoldinense é a terceira escola a desfilar no próximo domingo (26) na Marquês de Sapucaí. O desfile começa a partir das 22 horas.

Oposição e críticas

Assim que o tema foi divulgado, a escola recebeu inúmeras críticas de associações do agronegócio. Em nota, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu afirmou que repudia, "com indignação e veemência", o samba-enredo, pois este "critica duramente o agronegócio" e mostra "total despreparo e ignorância quanto à história brasileira brasileira e à realidade econômica e social do País."

Além dela, a Sociedade Rural Brasileira, Associação Brasileira dos Criadores de Girolando e a Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador.

A história também rendeu um desabafo discriminatório e extremamente preconceituoso da jornalista Fabélia Oliveira, do programa "Sucesso do Campo". Em uma transmissão ao vivo, a apresentadora repreendeu o samba-enredo da escola e disse que índio "de verdade" tem que morrer de "malária, de tétano e do parto."

"Índio que quer preservar sua cultura não pode ter acesso à tecnologia que nós temos", disparou. "Não pode comer de geladeira, tomar banho de chuveiro e tomar remédios químicos porque há um controle populacional natural -- ele vai ter que morrer de malária, de tétano, do parto. É, a natureza."

O carnavalesco Cahe Rodrigues rebateu as críticas em um post no Facebook. "Quando a Imperatriz Leopoldinense decidiu levar para a Avenida o enredo 'Xingu, o clamor que vem da floresta' assumiu o desafio de apresentar muito mais que um desfile voltado à cultura e às tradições das etnias indígenas que ocupam o coração do Brasil. (...) Ao longo dos séculos, aprendemos que o povo brasileiro é resultante de três raças: o índio, o negro e o branco. No entanto, nossa História sempre foi contada pelos brancos, pois negros e índios raramente tiveram a chance de expressar tudo que tiveram de enfrentar para ajudar a construir essa História. Infelizmente, pouco sabemos sobre eles."

Ele continua dizendo que o objetivo foi fazer o alerta sobre os riscos que ainda ameaçam as 16 etnias que moram na reserva e, indiretamente, outras espalhadas pela Amazônia. Combatemos sim, em nosso enredo, o uso indevido do agrotóxico, que polui os rios, mata os peixes e coloca em risco a vida de seres humanos, sejam eles índios ou não, alem de trazer danos em alguns casos irreversíveis para nossa fauna e flora."

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