ENTRETENIMENTO

Mica Levi, a fera musical que está abrindo espaço em um campo do Oscar dominado por homens

Levi merece o Oscar de melhor trilha sonora original por 'Jackie'.

25/02/2017 15:21 -03 | Atualizado 25/02/2017 15:36 -03
AFP/Getty Images
Mica Levi no tapete vermelho do BAFTA (British Academy Film Awards) no Royal Opera House em London (2015)

Podemos prever que o Oscar de melhor trilha sonora será dado a La La Land este ano. Afinal, o filme é um musical. Mas vale a pena decorar o nome de uma compositora promissora cujo trabalho está competindo no mundo de estrelas de Hollywood: Mica Levi.

De vez em quando acontece de a música usada em um filme ser evocativa o bastante para transcender ou até modificar a trama. Em Jackie, as cordas da trilha composta por Levi soam como um fantasma que assombra a personagem-título, a viúva recente Jacqueline Kennedy (representada por Natalie Portman). Antes de qualquer imagem aparecer na tela, a orquestra de Levi se anuncia, como se o que vem a seguir vai ser um filme de horror. Quando um close do rosto de Portman ilumina a tela, o ambiente se descontrai, com uma nesga de esperança inserida no meio do pavor.

O filme usa a trilha de Mica Levi de maneira comedida. Muitas das deixas são inesperadas. A música conduz a história, passando pelo horror do assassinato de JFK, em 1963, a turbulência do luto público de Jackie e a prestação de contas pessoal que ela enfrentou ao definir o legado do presidente, apesar de suas conquistas políticas truncadas. Sem perder a fé, o filme encara esse capítulo da história de Jackie Kennedy como um festival de tragédias.

"Pensei mais em Jackie e sua vida no que na história do que estava acontecendo, porque eu não sabia realmente qual seria o foco do filme", disse Levi ao Huffington Post. "Tentei compor música que me pareceu que Jackie gostaria ou que ela ouviria." Pense em artistas clássicos como Igor Stravinsky e Pablo Casals, que os Kennedy receberam na Casa Branca.

A trilha sonora de Mica Levi é saudada como um dos aspectos mais notáveis de Jackie. É a primeira indicação de Levi ao Oscar, mas ela não surgiu do nada. Britânica de 29 anos e formação musical erudita, ela foi DJ em Londres, postou sua primeira mixtape no MySpace e vem lançando indie pop experimental desde 2008 sob o nome artístico de Micachu. Embora sejam ostensivamente mais alegres, alguns elementos de seu catálogo pessoal soam como a trilha de Jackie: estranhos, dissonantes, assombrados, belos.

Se existe um paralelo mais puro com Jackie, é Sob a Pele. O diretor Jonathan Glazer escolheu Mica Levi para compor a música de seu filme bizarro de ficção científica estrelado por Scarlett Johansson depois de ouvir Chopped & Screwed, o LP gravado pela banda de Levi, Micachu and The Shapes, com a orquestra de câmera London Sinfonietta. Desde as primeiras notas, a trilha sonora de Sob a Pele soa como algo do outro mundo, o que é apropriado para o filme. Sem melodias distintas, as faixas são feitas de trêmolos crescentes, cordas que guincham e percussão pulsante. As resenhas do filme elogiaram o trabalho de Levi, comparando suas composições a "um ninho de vespas de outro mundo" ou "estática emanada de outra galáxia".

Levi tinha assistido a uma versão preliminar de Sob a Pele antes de compor as faixas, e então ela e Glazer trabalharam juntos por um período "incrivelmente imersivo". No caso de Jackie, ela concebeu músicas baseadas no roteiro de Noah Oppenheim e de sua própria interpretação da ex-primeira-dama. O processo foi instintivo, comparativamente falando. Levi enviou suas composições ao diretor Pablo Larraín, que então lhe mostrou cenas seletas e lhe pediu para preencher algumas lacunas, canalizando determinados sentimentos, "por exemplo quando Jackie precisa ser mais terna ou quando há loucura no ar". Levi e Larraín trabalharam como dois artistas, construindo seu poema tonal em partes e lugares separados. Mas a dupla opera com uma discordância bela que as trilhas sonoras mais convencionais indicadas ao Oscar não alcançam (além de La La Land, Jackie está competindo com Lion – Uma Jornada para Casa, Moonlight – Sob a Luz do Luar e Passageiros).

"Me lembro de Pablo ter dito que não queria deixar de mostrar como deve ter sido surreal", disse Levi, aludindo às dificuldades enfrentadas por Jackie. "Acho que há um lado terrível nisso também, mas acho que é mais o aspecto inusitado daquela situação, especialmente porque ela estava em uma atuação tão oficial."

Quando conversei com a compositora, o filme ainda não havia estreado. Uma semana antes de Jackie chegar aos cinemas, em dezembro, Levi lançou seu álbum seguinte. Mais sinfônico do que alguns de seus trabalhos anteriores, Remain Calm foi uma colaboração com Oliver Coates, violoncelista que também tocou em Sob a Pele e ajudou a dar forma a A Moon Shaped Pool, do Radiohead. Menos de dois meses mais tarde, o terceiro trabalho de Mica Levi para o cinema, a ficção científica Marjorie Prime, estreou no Festival de Cinema Sundance. Na manhã seguinte Levi tornou-se uma das poucas compositoras mulheres a ter recebido uma indicação ao Oscar nos 89 anos da premiação. E, 15 dias depois, o site The Film Stage anunciou que ela vai compor a trilha do drama Vox Lux, com Rooney Mara no papel de popstar. Tudo está acontecendo.

"O que acho realmente cool sobre a experiência de trabalhar no cinema é que é um esforço tão colaborativo", comentou Levi.

"Sei que isso soa careta, mas muitas formas diferentes se juntam. Na verdade é uma coisa que traz muita satisfação, porque todo o mundo trabalha para uma meta comum, que não é uma coisa apenas individual. Cada um tem que fazer o que é certo para o filme."

Este texto foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do Inglês.

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