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Campanha do Ministério da Saúde no Carnaval rotula soropositivos, criticam entidades

“Traz uma mensagem subliminar que responsabiliza as pessoas com HIV pela disseminação do vírus que provoca a aids”, diz nota das associações.

24/02/2017 11:37 -03 | Atualizado 24/02/2017 11:48 -03
Dilvulgação / Ministério da Saúde

"Milhões de pessoas brincam o Carnaval. No Brasil, 260 mil sabem que têm HIV e não se tratam. E estima-se que 112 mil têm o vírus e nem sabem. E você?", diz vídeo de campanha do Ministério da Saúde.

Em seguida, o locutor fala "no Carnaval, use camisinha e viva essa grande festa. Previna-se da Aids e, se preciso, faça o teste de HIV".

A peça foi repudiada por sete entidades que trabalham no controle social das políticas públicas sobre aids. Elas pedem que o vídeo seja retirado do ar. Na avaliação das organizações, o vídeo estigmatiza as pessoas ao usar o tom de suspeita.

De caráter aparentemente informativo, a frase é perigosíssima. Primeiro, porque traz uma mensagem subliminar que responsabiliza as pessoas com HIV pela disseminação do vírus que provoca a aids.Nota do Fórum ONG-AIDS RS, FOAESP e a RNP+SP

Para as entidades, o vídeo omite que há problemas na gestão da saúde em estados e municípios. "Em diversas cidades brasileiras há um enorme hiato, que pode chegar a até seis (6) meses, entre o diagnóstico de HIV e a primeira consulta com um médico especializado", diz nota assinada pelo Fórum ONG-AIDS RS, o Fórum das ONG/AIDS do Estado de São Paulo (FOAESP) e a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS do Estado de São Paulo (RNP+SP).

"Ao associar o não tratamento de "260 mil pessoas com HIV" àquelas pessoas que não fazem uso do preservativo em suas relações sexuais, o Ministério da Saúde ressalta ainda mais o estigma, o preconceito e a discriminação a que são submetidas cotidianamente as pessoas com HIV em todo o País", argumentam o Fórum ONG-AIDS RS, O FOAESP e a RNP+SP

O Ministério da Saúde estima em 827 mil pessoas vivendo com HIV no Brasil. Das 715 mil pessoas diagnosticadas com HIV, apenas 455 mil fazem uso do tratamento antirretroviral.

A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+), o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP) e a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/AIDS (RNAJVHA) também criticaram a campanha, além da Articulação Nacional de Luta Contra a Aids (Anaids).

"Tal campanha não dialoga com os direitos das pessoas vivendo com HIV/Aids. Precisamos refletir se no Brasil as ações e serviços de saúde pública alcançam a todos e a todas, respeitando suas singularidades e suas diferentes demandas e garantindo o acesso de cidadãs e cidadãos de forma equânime", diz a Anaids.

Para a entidade, o governo prioriza a testagem e o tratamento como formas principais de prevenção, o que é uma atuação de "forma mínima e simplista, ignorando as novas tecnologias e estrátegias de gerenciamento de risco".

No Brasil, a epidemia avança na faixa etária de 20 a 24 anos, na qual a taxa de detecção subiu de 15,6 casos por 100 mil habitantes, em 2006, para 21,8 casos em 2015. Entre os mais jovens, de 15 a 19 anos, o índice mais que dobrou, passando de 2,8 em 2006 para 5,8 em 2015, de acordo com o Ministério da Saúde.

A taxa de detecção geral está em torno de 19,1 casos a cada 100 mil habitantes. Isso representa 40,9 mil casos novos, em média, no período de 2010 a 2015.

Apenas 29,2% dos 44 mil jovens identificados no Sistema Único de Saúde (SUS) com a doença estão em tratamento.Na faixa de 25 a 34 anos, esse percentual é de 77,5%, mantendo-se superior a 80% em todas as outras faixas etárias até chegar a 84,3% entre os indivíduos acima de 50 anos.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a campanha tem como objetivo incentivar que 260 mil pessoas busquem o tratamento contra HIV e que a informação sobre o panorama nacional é "fundamental" para que o público geral "possa conhecer os riscos de fazer sexo desprotegido".

"Este ano, estamos apelando especialmente aos jovens que usem camisinha, façam a testagem e, se infectados, busquem tratamento, que é gratuito e o melhor do mundo. E que no carnaval só tenhamos boas lembranças", afirmou o ministro da saúde, Ricardo Barros, no lançamento da campanha de carnaval deste ano em Salvador.

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