ENTRETENIMENTO

Heróis negros, Carolina de Jesus e João Cândido vão ganhar homenagem de escola de samba carioca

Renascer de Jacarepaguá levará trajetória de escritora e marinheiro à Sapucaí.

23/02/2017 19:13 -03 | Atualizado 25/02/2017 17:08 -03
Montagem/Divulgação/Correios Negros
Neste ano, a agremiação carioca homenageia dois importantes personagens negros da história do Brasil: a escritora Carolina de Jesus (1914-1977) e o marinheiro João Cândido (1880-1969).

Almirante João

Sou carolina de Jesus

Carrego papelão, você carreja sua cruz

Na correnteza a sua voz foi mergulhar

Eu fiz os versos a fortaleza pra morar

O versos acima abrem o samba-enredo da Renascer de Jacarepaguá.

Neste ano, a agremiação carioca homenageia dois importantes personagens negros da história do Brasil: a escritora Carolina de Jesus (1914-1977) e o marinheiro João Cândido (1880-1969).

O enredo é baseado no curta-metragem O Papel e o Mar (2010), de Luiz Antonio Pilar, que narra um encontro fictício entre o almirante negro e a moradora da favela do Canindé, em São Paulo. Na Marquês de Sapucaí, as duas trajetórias vão se encontrar por meio de uma carta jogada ao mar dentro de uma garrafa.

Carolina Maria de Jesus é uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil.

No final da década de 1950, ela trabalhava como catadora de lixo e registrava o cotidiano cruel da comunidade onde morava em cadernos encontrados na rua. Um desses cadernos deu origem ao livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, que foi recusado por diferentes editoras, sendo publicado somente em 1960.

Sucesso no Brasil e no exterior, a obra foi traduzida para 14 idiomas e vendido em mais de 40 países, marcando de forma inédita a história da literatura brasileira. Após o sucesso da estreia, a autora experimentou um amargo fracasso sequencial com o lançamento de outros quatro livros nos anos posteriores.

De volta à pobreza, Carolina morreu em 13 de fevereiro de 1977, na casa de um dos quatro filhos.

Já o carioca João Cândido Felisberto (ou simplesmente João Cândido) foi marinheiro durante boa parte de sua vida. Em 1910, comandou a Revolta dos Marinheiros do Rio de Janeiro, hoje conhecida como Revolta da Chibata, e que tinha como objetivo lutar pelo fim dos castigos corporais comuns dentro da Marinha.

As ações de Cândido custaram seu ofício. Ele teve então que trabalhar como pescador para sobreviver. Até o final de sua vida, no entanto, foi engajado politicamente.

Em outro trecho do samba-enredo, assinado por Claudio Russo, Moacyr Luze Diego Nicolau, há uma celebração da resiliência e bravura desses grandes personagens:

João

Negro feiticeiro

O timoneiro conquistador

Carolina é alforria

Poesia da alma que se libertou

Na luta contra a tirania

Na ressaca da agonia, rubro oceano

Dragão dos mares

Segue a costeira ganhando lares

Nossa bandeura, Guanabara

O leme da revolução

Salve a negrura, salve a bravura

Resgatada do Porão

Para o historiador e pesquisador e pesquisador carioca Luiz Antonio Silva, a samba da escola Renascer de Jacarepaguá é particularmente especial. "O melhor do ano; o mais bonito e candidato a melhor canção brasileira (entre todos os gêneros) de 2017. Basta não ter preconceito contra samba-enredo para perceber isso", afirma.

Ouça o samba-enredo na íntegra:

No vídeo abaixo é possível acompanhar um dos ensaios gerais da agremiação carioca.

De acordo com o site Carnavalesco, especializado na cobertura do Carnaval do Rio, a atriz e cantora Lu Varello encenará Carolina de Jesus durante o desfile.

Aloysio Araripe

Ela já viveu a escritora no espetáculo Mulheres de Raça, Mulheres Incríveis. "Espero que a Renascer de Jacarepaguá promova um lindo espetáculo, digno de Carolina de Jesus e João Cândido, dois representantes geniais que lutaram pelo povo preto", deseja a atriz.

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