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Aqui estão os trechos do discurso de Raduan Nassar que irritaram Roberto Freire

Escritor fez discurso contra governo Temer e foi rebatido por ministro da Cultura

17/02/2017 16:09 BRST | Atualizado 17/02/2017 16:41 BRST
Paulo Pinto/ Leonardo Prado/Fotos Públicas

Raduan Nassar, um dos escritores mais renomados do Brasil, recebeu na manhã desta sexta-feira (17), no Museu Lasar Segall, em São Paulo, o Prêmio Camões de Literatura.

A cerimônia contou com a presença do ministro da Cultura, Roberto Freire.

A honraria é entregue anualmente pelos governos de Brasil e Portugal a escritores notáveis da língua portuguesa. Aos 81 anos, o autor de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera foi escolhido por unanimidade e se tornou o 12º brasileiro a receber o prêmio e receberá 100 mil euros.

O escritor paulista aproveitou o momento de homenagem à sua obra para se manifestar contra o governo de Michel Temer.

Em seu discurso, Nassar afirmou que "infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil" e que "vivemos tempos sombrios, muito sombrios". Ao agradecer a presença de Freire, se referiu ao comandante da pasta como "ministro do governo em exercício". E chamou o presidente Michel Temer de "opressor".

O autor criticou a indicação de Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal, fez uma série de críticas ao atual governo e encerrou sua fala com a frase: "O golpe estava consumado, não há como ficar calado". De acordo com o jornal O Globo, o discurso de Nassar foi recebido com aplausos e gritos de "Fora Temer".

Em clima constrangimento geral, Freire tomou a palavra e afirmou que "estamos vivendo um momento democrático e que é muito diferente do período de ditadura".

O ministro foi vaiado e refutado por parte dos presentes e chegou a discutir com algumas pessoas. "É fácil fazer manifestação num governo como este, democrático", declarou.

Veja, abaixo, um registro do bate boca de Roberto Freire durante a entrega do prêmio:

Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado "Angorá". E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado

Após o episódio, o Ministério da Cultura publicou uma nota em que responsabiliza o Partido dos Trabalhadores pela situação ocorrida. De acordo com o Ministério, o PT "aparelhou orgãos públicos" e "planeja ataques para desestabilizar o processo democrático."

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