VIRAL

O seu esfoliante pode estar te fazendo mais mal do que você pensa. E te mostramos o porquê

Você sabia que aquelas microparticulas dentro deles são, na verdade, puro plástico?

17/02/2017 14:41 -02 | Atualizado 20/02/2017 10:31 -03
Getty Images/iStockphoto

Esfoliantes são usados por milhões de pessoas em rituais diários de beleza e bem-estar. O que muitos não sabem, porém, é que aquelas bolinhas que removem as impurezas e peles mortas, são, muitas vezes, plásticos que vão direto para os oceanos.

Essas microesferas de plásticos são usadas em esfoliantes e até em creme dental -- sabe aquelas micropartículas "limpadoras" que colocam no rótulo? -- e, por serem tão pequenas (medem, no máximo, um milímetro), acabam passando facilmente pelos sistemas de tratamento de esgoto e são despejadas nos rios e mares impactando, assim, ecossistemas marítimos. E não só isso: por serem tão pequenas, essas microbolinhas são ingeridas por animais marinhos e entram na cadeia alimentar, chegando inclusive, no seu prato.

"Esses materiais podem ficar acumulados até o final da cadeia e podemos consumir animais infectados", disse a oceanógrafa e doutoranda da FURG (Universidade Federal do Rio Grande), Ana Luzia Lacerda.

Além disso, a oceanógrafa alerta para outros riscos que esse material pode trazer. "Estudos mostram que comunidades de organismos, como bactérias e vírus, estão se desenvolvendo na superfície desses plásticos e, quando consumidos, podem ser vetores de doenças."

Essas bolinhas flutuam com as correntes marítimas e podem infectar outros ecossistemas que nunca tiveram contato com esses organismos.

Flickr/Beat The Microbead

'Sopa de plástico'

As micropartículas de plásticos começaram a ser usadas pela indústria cosmética no início dos anos 2000 por serem mais baratas e terem eficácia parecida com produtos naturais. De lá pra cá, essas partículas foram colocadas em esfoliantes, cremes dentais, sabonetes esfoliantes e até cremes de limpeza.

O impacto desse componente, no entanto, começou a ser estudado há poucos anos e já preocupa o mundo. Diversas ONGs especializadas em campanhas para banir o uso de microplásticos dizem que, todos os anos, os mares recebem mais de bilhões de pequenas bolinhas de plásticos -- o que está transformando os mares em verdadeiras "sopas de plástico."

Pesquisadores da Universidade de Ghent, na Bélgica, divulgaram um estudo que sugere que pessoas que comem frutos do mar ingerem, todos os anos, mais de 11 mil pequenos pedaços de microplástico e alertaram sobre os riscos para a saúde à medida que essas substâncias vão sendo acumuladas no corpo a longo prazo.

"Agora que sabemos que eles [microplásticos] entram em nosso organismo e ficam por algum tempo, precisamos saber o destino desses plásticos", disse Colin Janssen, coordenador do estudo ao The Telegraph. "Para onde eles vão? Eles são encapsulados por tecidos e expelidos pelo corpo ou causam inflamação ou coisas piores?"

O estudo, um dos primeiros sobre o tema, calculou que 99% dos microplásticos são expelidos pelo corpo humano. Mas o restante preocupou os pesquisadores. "Os produtos são tóxicos? Nós não sabemos e realmente precisamos saber."

Como saber se meu esfoliante tem plástico?

A melhor maneira de saber se o seu produto contém plástico é olhando a composição do produto, no rótulo. Normalmente, as empresas utilizam outros nomes para identificar o material, como polietileno e polipropileno. Em alguns rótulos, a informação ainda podem estar em inglês, como um desses nomes:

Polyethylene, polypropylene, polyethylene terephthalate, polytetrafluoroethylene, polymethyl methacrylate e nylon.

Em 2012, as ONGs holandesas North Sea Foundation e Plastic Soup Foundation criaram um aplicativo que identifica, através do código de barras, se o produto possui ou não microparticulas de plástico. O app chamado Beat the Microbead (Combate às Microesferas) está disponível para smartphones em inglês, mas consegue identificar alguns produtos daqui do Brasil.

Para você utilizá-lo, basta abrir o app, mostrar o código de barras do produto esfoliante para a câmera e automaticamente ele vai identificá-lo por três cores: Laranja (caso o produto contenha microesferas, mas o fabricante já substituí-las em um prazo determinado), Verde (caso o fabricante não utilize mais esse material) e Vermelho (caso o produto tenha microplástico e o fabricante não se comprometeu a mudar a formulação).

No site Beat the Microbead também há listas das empresas que ainda utilizam microesferas de plásticos e não assinaram nenhum compromisso de substituí-lo. Para ver a lista destas marcas, clique aqui.

O Brasil não tem nenhum regulamento que proiba o uso de microesferas de plástico em produtos cosméticos. Procurada pelo HuffPost Brasil, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou por meio de nota que não há nenhuma restrição para a utilização de substâncias como polímeros sintéticos (polyethylene, polylactic acid (PLA), polypropylene)."

Mesmo sem restrição, alguns dos maiores players de beleza baniram, ou estão proibindo, esses materiais na composição dos produtos esfoliantes. A Natura, O Boticário, L'Oreal e Extratos da Terra, por exemplo, informaram à reportagem que já proibiram o uso de microplástico na produção.

A Natura, por exemplo, substituiu esferas de cera de polietileno por agentes biodegradáveis, como sementes vegetais, açúcar vegetal orgânico, entre outros.

Já a L'Oreal informou que, apesar de não utilizar mais microesferas em agentes de limpeza e esfoliantes, alguns produtos contendo esse material podem ainda estar no mercado. "Todas as novas fórmulas estarão amplamente disponíveis em breve, usando ingredientes alternativos seja isoladamente ou em associação, como minerais, como argilas ou pó de caroços de frutas."

Flickr/Beat The Microbead

Uma petição no Avaaz, plataforma de campanhas, foi criada para proibir a utilização destas microesferas de plástico em cosméticos. Até agora, ela tem quase 600 assinatura e precisa chegar a mil para entregar para a Anvisa.

Misturinhas naturais para fazer em casa

O dermatologista Adriano Loyola, assessor do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, analisa que o microplástico não causa dano à pele quando é usado de forma utópica (passado apenas na superfície da pele), mas lembra que o componente pode trazer algum dano quando ingerido.

"Esses materiais podem fazer mal quando for consumido indiretamente [ao comer um animal que tenha ingerido plástico] ou de forma direta, ao engolir pasta de dente. Isso é muito comum com crianças, por exemplo, então o cuidado precisa ser maior."

Como substitutos naturais, o dermatologista cita misturinhas de açúcar mascavo e mel. "Também pode misturar com abacate, óleo de coco, óleo de rosa mosqueta", aconselhou. "Para esfoliações mais grossas, pode usar sal grosso ou grãos maiores."

Já para o rosto, o dermatologista aconselha grãos mais finos para uma esfoliação mais suave, como aveia e fubá misturados com hidratantes ou mel. As esfoliações devem ser feitas de uma a duas vezes por semana.

"Se preferir usar esfoliantes industrializados, sempre procure no rótulo se há substâncias como 'polyethylene' ou 'polypropylene'. Elas significam que o produto contém plástico", alertou Loyola.

13 celebridades que chamaram a atenção para a saúde mental em 2016