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De sapatilha e collant, meninos do balé têm orgulho de seguir o caminho da dança

"É preciso ser muito macho para dançar balé no Brasil", diz a diretora da Escola de Dança de São Paulo, Susana Yamauchi.

16/02/2017 18:09 BRST | Atualizado 10/03/2017 19:27 BRT
Ana Beatriz Rosa/HuffPost Brasil
Murilo, Pablo e Pedro são bailarinos promissores de São Paulo.

Cena 1:

Um adolescente que enfrenta a resistência de sua família e amigos cruza um enorme centro urbano todos os dias para ensaiar e demonstra um incansável esforço para perseguir o seu sonho: tornar-se um grande bailarino.

Cena 2:

Uma sala espelhada, com barras e cerca de 20 meninas com collants, sapatilhas e meias. Entra um garoto e avisa: "sou João* e sou homem".

Cena 3:

Na mochila, esconde as sapatilhas gastas e a roupa de malha emprestada do colega. Veste o uniforme do time da cidade e amarra as chuteiras. 'Pai, vou ao futebol.'

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Parece o enredo de Billy Elliot, o filme inglês, mas é a realidade enfrentada não por um, mas três adolescentes paulistanos que frequentam o curso de formação da Escola de Dança de São Paulo, no Theatro Municipal, centro da capital paulista.

Eles compartilham da mesma paixão pelo balé. Mas além da paixão, Murilo, Pablo e Pedro também enfrentam juntos outra situação: a discriminação por serem homens e dançarinos.

Murilo Miron, 14 anos, tinha só 5 quando estava assistindo ao carnaval na televisão e, inquieto, começou a mexer o corpo ao som dos passos de samba. Olhou para a mãe e disse que queria aprender a dançar daquele jeito. No dia seguinte foi com a irmã em uma escola de dança na zona leste de São Paulo e começou as aulas. Aos 8, prestou o processo seletivo do Theatro Municipal e agora está no 7º ano do curso de formação.

Na escola, era um bullying coletivo. Me incomodava muito, mas eu não queria parar de dançar. Eu sempre pensava que enquanto eu estivesse bem comigo, não tinha problema.Murilo, 14, em entrevista ao HuffPost Brasil

"Foi no Municipal que eu descobri a dança. Quando eu pedi para fazer aula, minha mãe me alertou que possivelmente meus amigos iriam me zoar. Mas, ao mesmo tempo, ela me incentivou muito para que eu fosse. No ballet ninguém falava nada, era tudo normal. Mas na escola era um bullying coletivo. Me incomodava muito, mas eu não queria parar. Eu sempre pensava que enquanto eu estivesse bem comigo, não tinha problema. Não era porque eu fazia algo que eu gostava que eu era ou deixava de ser alguma coisa para eles. Quando eu entrei no Municipal, eu troquei de escola e agora é tudo normal. Inclusive meus amigos já vieram me assistir. É uma arte, não tem por que ter isso [discriminação]. A sociedade tem que aceitar. Você tem que se orgulhar de você."

Nem sempre houve discriminação contra bailarinos. Quando o balé surgiu, em meados do século 15, apenas homens podiam dançar. Os famosos cortesãos divertiam a nobreza com espetáculos e vestimentas riquíssimas e, muitas vezes, se travestiam para performar papéis femininos. Com o passar do tempo, deu-se a alternância do protagonismo do masculino e do feminino nos palcos, mas por trás das montagens, os homens ainda dominavam como diretores e coreógrafos.

Seja pela delicadeza de executar movimentos tão complexos com tanta leveza, ou por se tratar de uma arte em que o corpo sente e fala, o balé passou a ser associado a estereótipos como a "delicadeza feminina", ao passo que homens que se arriscam a serem bailarinos são muitas vezes tachados de gays.

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Mas desde quando a sexualidade é passo de uma dança?

"Nos primeiros dois anos eu sofri muito para me aceitar. Aceitar que eu estava ali fazendo uma aula de balé e que isso não era comum na nossa cultura. E aí eu fui vendo que eu não era realmente igual aos outros meninos. Eu tinha um professor, o Ademar, que ele sempre falava: quem faz ballet não é normal, é anti anatômico. Até que isso entrou na minha cabeça e eu virei a chavinha. Percebi que eu tenho que ser eu mesmo, lutar pelas coisas que eu gosto e acredito", argumenta Pablo Silva, 16 anos.

Para Pablo, dançar requer identidade. E é na dança que ele se encontra. Morador também da zona leste de São Paulo, o rapaz começou a dançar no projeto social Joaninha, do Ballet Stagium, e foi aprovado no Municipal em uma aula-teste aos 15.

Quando uma pessoa que você nunca imaginaria, uma pessoa que no passado te julgou, te xingou, te bateu, te violentou, te diz que com o balé você finalmente mostrou quem você é, é inexplicável. Além da técnica, além da execução, você consegue atingir o outro. Ai é que tudo muda.Pablo, 16, em entrevista ao HuffPost Brasil

Estar no curso de formação é uma oportunidade para Pablo se realizar profissionalmente e financeiramente ao garantir uma vida melhor para a sua mãe - sempre tendo como referência os professores da Escola de Dança.

"Além de você ser muito bom em termos de técnica, você tem que ser muito bom em termos de amor. Você tem que amar, senão você não consegue. Tem que ser muito bom para conseguir erguer uma casa, colocar comida na mesa com a dança. E aqui os professores conseguiram. Além de referências, eles são inspirações. Porque mesmo eles já tendo conquistado o espaço deles, eles estão aqui todos os dias, olhando para a nossa cara e compartilhando com a gente. Além de mestres, são nosso ídolos."

Pedro Brito, 16 anos, começou a dançar por acaso. Ele foi apenas acompanhar a irmã, mas acabou sendo aprovado no processo seletivo do Municipal e está na escola desde então.

Ele, assim como os outros garotos, concilia uma rotina pesada. Acorda por volta das 5 da manhã e vai para a escola. Depois, enfrenta deslocamentos de quase 2 horas diárias da periferia até o centro em transporte público e segue com aulas de dança até às 20h. Volta para casa para fazer a lição e no dia seguinte repete tudo.

Aqui a rotina não cansa e o maior aprendizado é aprender a respeitar as pessoas, a diversidade, as qualidades e os defeitos de cada um. Quero me formar e tentar algo fora do País... Uma companhia de dança profissional.Pedro, 16, em entrevista ao HuffPost Brasil

Questionado por que não o Brasil, Pablo respondeu pelo colega: "Aqui falta [tudo]."

Se a paixão e a discriminação são presentes na vida dos garotos, a capacidade de fazer muito com pouco e a crença no potencial de cada um fortalecem o desejo de mover - e dançar - dos rapazes.

"Falta reconhecimento financeiro e artístico. Lá fora, você vive o balé e tudo te propicia aquilo. Aqui, você trabalha, estuda, sobrevive e se der você dança", compara Pablo.

Uma turma só para eles

E foi pensando em criar espaços para a dedicação de meninos à dança que a Escola do Municipal resolveu abrir uma turma só para garotos no curso preparatório.

No início de fevereiro deste ano, o instituto promoveu seleção para a turma com sete alunos. Sheila Marassato é mãe de Artur, de 10 anos, e acompanhou o filho na audição.

"O Artur faz balé há seis meses, já que ganhou uma bolsa para meninos em uma escola de Santo André. Depois do teste, ele mudou a visão que ele já tinha sobre as aulas e agora quer participar de todo jeito no Municipal. Eu nunca lidei com nenhum problema em relação aos coleguinhas, até porque ele é mais reservado. Mas tem uma coisa que me impressiona: por ter se identificado tanto com a dança, quando ele se posiciona sobre isso ele fala com muita determinação. 'Faço mesmo, gosto mesmo, é uma arte. Não sou gay e até faço judô'. Acho que por ele ser seguro, não dá espaço para outros comentários."

A professora de pedagogia da dança Paula Petreca explica que a ideia da turma masculina não é segregar os espaços de convívio, mas potencializar o desenvolvimento dos garotos, já que muitas vezes as aulas são formatadas para o corpo feminino:

"A gente percebeu que só conseguiamos diferenciar os trabalhos mais apropriados para as técnicas masculinas ou femininas lá para o ciclo intermediário. Mas com a entrada de novo meninos, percebemos que, mesmo entre os pequenininhos, há movimentos que favorecem mais o desenvolvimento motor de um menino e de uma menina. Por exemplo, com uma menina pequena, a gente tem muito cuidado com o alongamento. O menino também. Mas nessa fase em que eles tão saindo da infância e indo para a adolescência, não é o que está mais latente no menino trabalhar essa questão de alongamento. Nessa fase, ele tem muito mais potencial em questões de mobilidade. Ele tá com uma força enorme, com muita agilidade. E a gente não trabalhava isso."

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Susana Yamauchi assumiu a direção da escola em 2011 e desde então lidera ações de acolhimento para esses meninos.

"Nós fizemos essa turma na tentativa de incentivá-los e, para nós, a questão da referência é muito importante. Serão professores homens, ensinando para meninos, em uma turma exclusivamente masculina. Nós temos meninos na escola, mas a proporção é muito menor. Numa turma de 20, 25 meninas, você tem um menino, quando tem. Esses meninos enfrentam um turbilhão de desafios diários para frequentar as aulas. Eu costumo dizer que é preciso ser muito macho para se dedicar ao balé no Brasil."

Para Susana, o curso de formação vai muito além do balé. São 12 disciplinas em um programa que dura no mínimo nove anos, em que a escola se torna a segunda casa desses garotos.

"O convívio coletivo é de extrema importância. Nós atuamos dentro da faixa etária em que ocorre a maior mudança na vida deles, que é a passagem da infância para a adolescência. Mudança corporal, hormonal, sensorial, emocional, inteletual. São os questionamentos, as dúvidas, as descobertas. E tudo isso aflora no momento em que eles estão passando por essa escola", explica a diretora.

Não tem muito jeito de aprender dança, é um corpo se abrindo para outro corpo. E hoje em dia isso é muito raro... Você se preocupar em sentir o outro e aprender com ele... Então, não é pouca coisa ver esses meninos tão jovens com essa maturidade para falar de respeito, de aprendizado e também de dança.Luís Ribeiro, professor de ballet, em entrevista ao HuffPost Brasil

Se iniciativas como bolsas, audições e turmas específicas masculinas oferecem maiores possibilidades para quem quiser começar a dançar, Paula Petreca afirma que a maior dificuldade que a escola enfrenta é a manutenção dos garotos nas salas de aula.

"A gente convive muito com os mitos do senso comum de estereotipar o lugar do homem na dança. Como se para eles não tivesse espaço. E a gente tem que desconstruir isso para entender que o homem não é um acessório da mulher na dança. Não sei por que essa ideia ainda persiste, até porque se você reparar o elenco de uma companhia contemporânea, você vai ver que tem mais homens do que mulheres", questiona a professora.

Ao ouvir Murilo, Pablo e Pedro compartilhando suas experiências tão recentes, mas com tantas memórias, Luís Ribeiro, professor e coreógrafo da Escola de Dança, não esconde o orgulho de ver a nova geração.

"Eu comecei a dançar aos 16 e lavava meu collant durante a madrugada escondido em casa. Se hoje eles ainda enfrentam dificuldades, é bonito de se ver que alguma coisa melhorou, nem que seja no detalhe. O que importa é que aqui a gente tem essa relação. Eles têm que olhar nos nossos olhos, prestar atenção na resposta. Porque não tem muito jeito de aprender dança, é um corpo se abrindo para outro corpo. E hoje em dia isso é muito raro... Você se preocupar em sentir o outro e aprender com ele. Então, não é pouca coisa ver esses meninos tão jovens com essa maturidade para falar de relação, de respeito, de aprendizado e também de dança. Ser referência para eles é uma responsabilidade enorme."

Alunos do Ballet da Cidade