POLÍTICA

'Isso é uma enganação', diz líder do PSOL sobre não-políticos

"O sistema político vai se renovar não com uma negação da política”, afirma Glauber Braga.

09/02/2017 16:24 -02 | Atualizado 11/02/2017 18:16 -02
Reprodução / Facebook

Líder do PSOL na Câmara em 2017, o deputado Glauber Braga (RJ) coloca como prioridade do partido barrar a reforma da Previdência e as mudanças trabalhistas.

De acordo com ele, a sigla não irá negociar pontos para aprovação da agenda governista e a solução para as contas públicas seria uma revisão da dívida pública e a tributação de grandes forturnas. "Você não tem que fazer uma reforma onde os que têm os menores rendimentos e a classe média paguem a conta", afirmou.

Segundo o líder de 34 anos, o partido se fortaleceu com a candidatura de Marcelo Freixo à Prefeitura do Rio de Janeiro e aposta em um nome próprio para a Presidência em 2018. Ele criticou também candidatos que se dizem não-políticos.

O sistema político vai se renovar não com uma negação da política, mas com a ampliação dos instrumentos de participação e interação com a sociedade.

Uma das poucas vozes dissonantes na comissão da Câmara que discute o projeto de lei da Escola sem Partido, o socialista não vê chances de a medida prosperar em plenário. "Um projeto com esse que não concilia e é implementado sem o respaldo das urnas ele necessariamente, para conseguir ter o mínimo de sustentação, ele precisa ser autoritário", afirmou.

Leia a entrevista.

HuffPost Brasil: Em 2016 o PSOL ganhou visibilidade especialmente pelo enfrentamento ao então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Quais as prioridades para 2017?

Glauber Braga: Primeiro é resistir às proposta anunciadas: reforma da Previdência e reforma trabalhista. 49 anos de contribuição para ter direito à aposentadoria integral é praticamente impossível para a maioria dos trabalhadores. Atualmente só 4% dos trabalhadores tem esse tempo de contribuição, então você está excluindo do sistema da aposentadoria integral 95% das pessoas. A gente vai resistir às matérias anunciadas, trabalhando para que elas não sejam aprovadas e anunciando o processo de conscientização com a sociedade e pressionando os parlamentares.

Sobre a reforma da Previdência, não tem como negociar alguns pontos e chegar a um consenso?

Não. A gente não trabalha com perspectiva de negociação. A gente trabalha para que a proposta seja barrada e o governo trabalha com a perspectiva de aprovar a reforma por completo. Todas as palavras do secretário da Previdência reforçam esse argumento. A gente acha que a reforma não é prioritária. Enquanto você não tem uma discussão mais ampla sobre as finanças do Estado, uma auditoria da dívida pública, que consome mais de 40% do orçamento anual você não tem que fazer uma reforma onde os que têm os menores rendimentos e a classe média paguem a conta.

A solução defendida para equilibrar as contas então seria uma auditoria da dívida pública?

É um dos pontos que a gente considera que deve ser feito. Outro ponto é ter receita através de outras fontes, por exemplo, regulamentação do imposto sobre grandes fortunas. Para você ter efetivamente uma parte para Educação, perdida com a recessão, que possa ser recomposta.

Isso seria suficiente?

Não dá para tapar o Sol com a peneira. Mesmo com auditoria da dívida pública e conseguindo fazer com que o imposto sobre grandes fortunas seja regulamentado, para que você tenha ampliação do orçamento, você precisa estancar o processo recessivo na economia brasileira. E no nosso entendimento as medidas que estão sendo adotadas pelo governo ao invés de reativar a atividade econômica servem como um estímulo para que a recessão possa se aprofundar ou se manter.

Em relação à Escola sem Partido, o senhor é praticamente a única voz dissonante dentro da comissão. Tem chance de o projeto não ser aprovado em plenário?

Em plenário sim. Na comissão eles já demonstraram claramente que estão com o relatório pronto para a criminalização de profissional de educação e para estabelecer uma mordaça onde você não possa ter a construção e geração de um pensamento crítico. Ao mesmo tempo, se na comissão esse é o pensamento majoritário, eu acho que no plenário, pela boa pressão de profissionais de educação e por quem tem um pensamento crítico em relação à realidade social e por quem não quer ver a educação brasileira amordaçada, pode pressionar os parlamentares e a gente derrubar essa matéria no plenário?

É uma proposta mais retórica ou pode causar reais danos?

Acho que tem um efeito prático muito nocivo para a educação porque está tendo a implementação no Brasil de um projeto que a direita não quer conciliar e com a implementação de reformas sucessivas, que nunca teriam o amparo das urnas. Um projeto com esse que não concilia e é implementado sem o respaldo das urnas ele necessariamente, para conseguir ter o mínimo de sustentação, ele precisa ser autoritário. E para ser autoritário tem de tentar calar as vozes que são discordantes. E uma das vozes que discorda desse projeto é exatamente no meio acadêmico (...) Isso não é novo. Todo país que passou por um processo parecido fez a mesmas coisa e é o que a gente está vivenciando no Brasil.

A punição do Jean Wyllys no Conselho de Ética é irreversível?

Não. A gente quer batalhar para reverter no Conselho de Ética e no plenário da Câmara dos Deputados. É um verdadeiro absurdo uma punição ao Jean quando a ação dele foi claramente uma reação a um histórico de insultos que ele sofre e aos insultos que ele sofreu no dia. Eu, por exemplo, já presenciei várias vezes parlamentar ficar atrás do Jean em comissão, por fora do microfone, como num processo de tortura, falando todo tipo de palavrão para ele. Imagina aguentar isso diariamente na sua vida.

O partido tem planos para 2018? Há intenção de lançar candidatura própria para a Presidência?

A reafirmação partidária passa sempre pelo lançamento de candidatura. E o PSOL tem condições de demonstrar claramente que faz crítica ao projeto que quer implementar reformas que não tem o respaldo eleitoral. Como militante do partido, o PSOL se apresenta claramente como uma alternativa que pode fazer a crítica e esses projetos.

A candidatura seria da Luciana Genro ou tem outros nomes se colocando?

A gente não está fazendo discussão de nomes antecipadamente sobre o processo eleitoral. Para a gente o mais importante é resistir ao que está colocado e demonstrar as propostas alternativas, econômicas, sociais, políticas que o PSOL acumulou (...) Sem tirar do horizonte a agenda de resistência das propostas que estão sendo apresentadas, dialogando com outras forças políticas que queiram resistir, inclusive aqui no Legislativo.

A candidatura do Marcelo Freixo no Rio mostrou que tem como viabilizar vitórias do partido nas urnas, por chegar ao segundo turno, ou mostrou que o partido ainda tem dificuldades em resultados eleitorais?

A candidatura do Freixo foi uma demonstração muito positiva do que pode ser alcançado. O PMDB foi derrotado no Rio de Janeiro, com toda a força que acumulou ao longo de tantos anos. A candidatura de Freixo deu a demonstração de que com 11 segundos de tempo de televisão você pode passar para o segundo turno. Foi uma campanha que inovou na forma de apresentar as propostas e que quando encerrou o resultado eleitoral fez um ato de agradecimento para milhares de pessoas no centro do Rio de Janeiro. Não tenho dúvida de que a candidatura reforçou o projeto do PSOL para o Brasil e a viabilidade política e eleitoral do PSOL.

Esse tipo de candidatura usando mais as redes sociais seria um caminho para 2018?

É um caminho. Tem que ter uma mudança na forma de se relacionar dos partidos com o eleitor, o cidadão. Isso se faz através da internet, dessa interação direta, claro, mas se faz através do contato nas praças, discutindo propostas, construindo o projeto coletivamente e o PSOL fez isso na candidatura do Freixo e em várias outras candidaturas pelo Brasil. E no Rio o PSOL presta contas semanalmente no Buraco do Lume daquilo que está fazendo, dos seus parlamentares. Então não é uma ação de ocasião ou eventual numa campanha eleitoral.

Candidatos que se dizem não-políticos, com um perfil empresarial e mais ligados a pautas de direita vão crescer em 2018?

Isso é uma enganação. Esses candidatos que se apresentam como não-políticos, eles são políticos. Representam um projeto político que tem respaldo de forças políticas tradicionais, parlamentares inclusive, de partidos políticos tradicionais. Isso na verdade é uma capa de marketing que eles fazem para se apresentar durante as eleições. O sistema político vai se renovar não com uma negação da política, mas com a ampliação dos instrumentos de participação e interação com a sociedade. Se o sistema representativo está falido, não é com menos política que a gente consegue vencer esses obstáculos.

É preciso construir um diálogo melhor entre esquerda e direita? Como fazer isso?

O que eu acho que tem de se fazer é resistir aos projetos que a direita quer implementar a qualquer custo. A gente precisa reverter. Isso se reverte com força social, com o diálogo permanente com as pessoas. É claro que você tem que estabelecer o diálogo com o diferente. Mas o diálogo com o diferente, do ponto de vista governamental, ele não se estabelece tentando empurrar a qualquer custo reformas que vão prejudicar as pessoas e tirar direitos de muitas gerações.

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