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Com 1 roubo a cada 4 minutos, Rio teme repetir colapso na segurança do Espírito Santo

Com salários atrasados, PMs falam que famílias bloquearão quartéis. Governador pede que Exército fique de prontidão.

09/02/2017 18:56 -02 | Atualizado 09/02/2017 20:09 -02
Reprodução/WhatsApp
Câmeras da prefeitura mostram loja sendo saqueada no centro do Rio.

Rio de Janeiro - Do ciclo olímpico até a crise financeira que afeta serviços de segurança, saúde e educação, o cidadão do Rio de Janeiro — do morro ao asfalto — experimenta hoje o pior cenário dos últimos seis anos, período em que o projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) se expandiu, o governador do estado, Luiz Fernando Pezão, foi reeleito e a capital sediou as Olimpíadas.

Se as filas nos hospitais e a crise na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) não afetam a população como um todo, a sensação de insegurança — indicativo sensível da calamidade no estado que tem se agravado a passos largos — atinge em cheio a sociedade fluminense.

Servidores da Cedae (empresa de água e esgoto do estado, cujo projeto de privatização começa a ser debatido hoje pela Assembleia Legislativa do Rio) e PMs entraram em confronto na tarde desta quinta-feira (9), transformando o centro em verdadeira praça de guerra. No meio da confusão, agências bancárias ficaram danificadas e uma loja foi saqueada por um grupo de pessoas.

Enquanto isso, uma mobilização que envolve os policiais voltou a ganhar força nas redes sociais. Na tarde de hoje, áudios compartilhados pelo WhatsApp por PMs, cujos salários estão em atraso, anunciam que eles podem não sair às ruas a partir da manhã de sexta-feira (9) em razão de possíveis manifestações das famílias.

Uma possível paralisação dos policiais pode aumentar a tensão nas ruas do Rio de Janeiro, onde se registra um roubo a cada quatro minutos (leia abaixo).

A seguir, alguns dos relatos recentes publicados por moradores do Rio, vítimas de violência, em grupos de Facebook:

9 de fevereiro

"Acabaram de assaltar a loja da vivo na Copacabana perto da barão de Ipanema."

8 de fevereiro

"Acabou de acontecer um assalto, AGORA na Void da Francisco Otaviano!! Dois caras armados roubaram a moto de uma mulher! Parece que ela era funcionária de bar aqui perto. Apontaram a arma para as pessoas e saíram na moto!!!"

"Amigos, minha filha Isabel teve esta bicicleta da foto roubada ontem (domingo, 5) num assalto na ciclovia da praia de Botafogo na altura do edifício Argentina. O cara estava armado com uma garrafa quebrada para anunciar o assalto. Aconteceu por volta das 21h. Ela acha que ele deve ter abandonado em algum lugar. É uma bicicleta fixa: não tem marcha e o freio é no contra pedal. Bem difícil de guiar. Ela já fez todos os registros necessários. Por favor, se alguém encontrar, peço avisar."

7 de fevereiro

"Agora há pouco dois meninos cabelos claros pintados, roubando pessoas saída Metrô Muniz Barreto."

'Males incalculáveis da paralisação da PM'

Procurada pela reportagem, a Polícia Militar informou que seu comando "tem mantido diálogo com a tropa sobre as graves consequências que envolvem uma paralisação".

"Os comandantes de unidades por sua vez também estão conscientizando seus policiais sobre os males incalculáveis e irreparáveis que a ausência do serviço essencial prestado pela instituição causaria à população, incluindo suas próprias famílias", afirmou a assessoria da PM.

O governo fluminense e a Secretaria de Estado de Segurança Pública também foram procurados e orientaram a reportagem a falar com a Polícia Militar.

O governador Pezão pediu que a Força Nacional e o Exército fiquem de prontidão para ajudar o governo fluminense no caso de qualquer necessidade de reforço da segurança. A afirmação foi feita pelo governador, cuja chapa foi cassada pelo Tribunal Regional Eleitoral, em entrevista à Rádio Gaúcha, na manhã desta quinta-feira.

Na tarde de hoje, em outra entrevista, desta vez à Globonews, Pezão falou que o pedido por apoio do Exército foi feito há três semanas para garantir as votações do pacote de ajuste fiscal na Alerj, mas que essa mobilização ocorre para se "precaver do que está acontecendo em outros estados".

Ele afirmou ainda que a inteligência do estado e do governo federal quer prender os autores de boatos e descartou a possibilidade de intervenção do Exército neste momento.

Policiais não identificados informam que suas famílias — assim como no Espírito Santo — irão para as portas dos batalhões impedir que eles saiam para trabalhar.

Dada a crise e o aumento da criminalidade no Rio, os efeitos de uma possível paralisação são imprevisíveis. Em um dos áudios, um policial chega a orientar as pessoas a estocar comida a fim de evitar sair às ruas.

Reprodução/WhatsApp
Manifestantes seguram escudo da PM do Rio na tarde desta quinta-feira (9), durante confronto no centro

Um roubo a cada 4 minutos

Além do atraso nos salários, os PMs chamam a atenção para as condições de trabalho e para o aumento da mortalidade dos policiais nas ruas. Segundo o ISP (Instituto de Segurança Pública), as mortes de policiais militares e civis em serviço aumentaram de 26, em 2015, para 40 no ano passado.

O mês de janeiro continuou violento para os PMs: ao menos 18 morreram — quatro estavam em serviço.

O total de assassinatos no estado em 2016 cresceu 20%, para 5.033.

Os roubos de telefones celulares saltaram para 19.583 — aumento de 63%. E os roubos de rua (o índice considera roubos a transeuntes, de celulares e em ônibus) dobraram para 127.366. É o mesmo que dizer que a cada 4 minutos, uma pessoa foi roubada no estado em 2016.

Copa UPP, onde o futebol reina entre policiais e moradores das comunidades do Rio de Janeiro