POLÍTICA

Temer abre caminho para um líder como Trump no Brasil, diz Washington Post

Jornal americano alerta insatisfação dos brasileiros com políticos tradicionais e aceitação de agenda de direita

07/02/2017 14:09 -02 | Atualizado 07/02/2017 14:10 -02
Adriano Machado / Reuters
Presidente Michel Temer

Em artigo publicado nesta segunda-feira (6), o Washington Post alerta para o caminho à direita que o Brasil está tomando e para a possibilidade de eleger um líder como Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, em 2018.

O jornal destaca que nas eleições municipais de 2016 houve uma guinada para a direita e o PT perdeu 60% das prefeituras. Aliado à esse fator, está a falta de credibilidade d e políticos tradicionais como o presidente Michel Temer, citado na Lava Jato, e a ascensão de figuras como o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB).

Pode ser muito tarde para Temer recuperar sua credibilidade. Com menos de dois anos no seu mandato, o Brasil parece estar à espera de que o seu Trump apareça. Populistas de fora da política tradicional, como o novo prefeito de São Paulo, um magnata de negócios que estrelou a versão brasileira do Aprendiz, são freqüentemente mencionados entre os primeiros favoritos para 2018.Washington Post

Na avaliação do jornal, muitos brasileiros adotaram a agenda de austeridade de direita de Temer que inclui o teto de gastos públicos, a resistência em liberar recursos da União para estados e municípios sem uma contrapartida e a flexilização para empresas estrangeiras explorarem o petróleo brasileiro.

Ouvido pelo Washington Post, o analista político Lucas de Aragão, da consultoria Arko Advice, vê o movimento mais como uma insatisfação com o resultado da política atual do que como algo ideológico. "É um sentimento anti-status-quo, como o Brexit e o Trump", afirmou.

De acordo com o artigo, a Presidência de Temer sinalizou uma mudança de prioridades para o Brasil, "do multiculturalismo e a mensagem social inclusiva dos antecessores esquerdistas para um foco mais singular na liberalização econômica".

O texto conta que Temer assumiu o poder há cinco meses, após o "impeachment e a humilhação política da primeira líder política do País, Dilma Rousseff" e nomeou, em um primeiro momento, para o primeiro escalão, apenas homens, dando início a uma agenda de direita.

Na avaliação da da analista política e feminista Rosiska Darcy, as brasileiras deveriam tomar a Woman's March, protesto feminista contra Trump, como exemplo. "Os americanos mostraram a resistência", disse Darcy. "Temos que lutar contra essa onda de conservadorismo", completou.

O Washington Post ressalta a falta de popularidade de Temer, em torno de 14% de aprovação, patamar próximo ao de Dilma antes de deixar o Palácio do Planalto. O jornal, contudo, deixa claro as diferenças entre Temer e Trump.

Temer, com 76 anos, não é uma versão brasileira de Trump. Ele não tem um toque populista ou um estilo de showman. Ele é um político de carreira e membro do governo em um momento em que ambas as coisas são profundamente impopulares no Brasil.Washington Post

O texto é assinado pelo correspondente do jornal na América Latina, Nick Miroff, e pela correspondente brasileira da publicação, Marina Lopes.

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