MULHERES

Janaina Paschoal: 'Sou muito mais socialista que qualquer outro'

Em entrevista ao HuffPost Brasil, autora do impeachment revela que tem gente que não fala com ela por achá-la esquerdista.

06/02/2017 20:29 -02 | Atualizado 07/02/2017 00:08 -02
Adriano Machado / Reuters
"Sou pragmática no sentido de ver a realidade, não me iludo, mas sou esperançosa de que dá para mudar"

Uma das figuras centrais no impeachment da presidente Dilma Rousseff, a advogada Janaina Paschoal mostrou, em uma conversa com o HuffPost Brasil, uma faceta até então desconhecida: a de esquerdista, na avaliação dela. Ao falar sobre os delatores da Lava Jato, a advogada apresentou uma visão na qual diz ser "muito mais socialista que qualquer outro".

Na opinião dela, "figuras centrais não podem delatar (...) Fica parecendo que o crime compensa. Não dá para fazer acordo para o cara ficar com uma tornozeleira em uma mansão, mas aí as pessoas dizem que sou linha dura. Talvez seja. Nesse aspecto, sou muito mais socialista que qualquer outro".

A advogada, por outro lado, segue firme na crítica aos esquerdistas. Ela acredita que o "esquerdismo aniquila os direitos humanos" e que a esquerda deveria ter se revisto quando o Muro de Berlim caiu. Ressalta ainda que qualquer liberal que acredita em liberdades individualidades é favorável aos direitos humanos.

Tem gente que não fala comigo porque diz que eu sou esquerdista. Tem gente que não fala comigo porque dizem que sou uma fascista radical.

Janaina nega ser defensora do presidente Michel Temer, mas vê com bons olhos os recuos do peemedebista. Ela também tem fé na gestão de João Doria na Prefeitura de São Paulo.

Na entrevista em seu escritório em São Paulo, na última quinta-feira (2), a jurista não descartou uma candidatura política própria, mas disse ter dificuldade em se adequar a decisões partidárias.

Sobre a indicação do novo ministro para o Supremo Tribunal Federal (STF), ela acredita que o nome do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, pode ser negativo por ele ser do primeiro escalão do governo e estar filiado ao PSDB.

Para presidência do Senado, ela preferia Ana Amélia (PP-RS), mas deixa claro que não é pelo fato de ser mulher. "Eu acho péssimo indicar alguém porque é mulher", afirma. A advogada também acredita que o fim do machismo "depende muito mais das mulheres do que dos homens".

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: A senhora é muito hostilizada?

Janaina Paschoal: Na rua? Nunca. Teve uma vez no aeroporto e teve uma grande divulgação e eu tenho certeza que aquilo foi encomendado porque foi justamente no dia em que eu enfrentei a [senadora] Gleisi [Hoffmann]. Ela mandou eu calar a boca. Eu disse que não calava. E no outro dia eu tinha enfrentando o [senador] Lindbergh [Farias]. E aquelas pessoas estavam no meu portão de embarque, procurando. Foi uma coisa absolutamente fora da curva. Na rua, hostilidade nunca. Tirando aquela ocorrência, que para mim foi encomendada, não teve. Alguns comentários no Twitter, email, recebi cartas de ameaça. Mas na rua é apoio, carinho, afeto.

A senhora já usava o Twitter antes no dia a dia?

Nunca tive Facebook, nunca, nada, zero. Nem whatsapp eu tinha. Criaram muitos perfis falsos e eu ficava o tempo inteiro denunciando perfis falsos porque esses perfis começaram a xingar as pessoas. Eu abri para diferenciar e no fim acabou sendo um veículo interessante de esclarecimento e eu percebo que existe uma decepção das pessoas porque tinham uma imagem minha de alguém muito briguento, marrento, contundente. Eu sou contundente com ideias, mas não com pessoas.

Mas ainda assim várias das suas opiniões acabaram virando notícia...

Muitas são distorcidas. Por exemplo, semana passada ou retrasada, eu estudei todo o regimento do Supremo por causa dessa questão da distribuição da Lava Jato e a decisão mais segura, sob o ponto de vista do que está escrito no regimento, seria aguardar o novo ministro porque o regimento é claro. Quem recebe os casos do ministro falecido é o novo ministro. Em nenhum momento eu falei de Temer (...) Outro dia eu elogiei um filme que tem um viés mais esquerdista porque a família é comunista, então eu avisei para os radicais de plantão. Aí os petistas começaram: "radical é você". Quem me chama de radical não me conhece. Eu não sou radical, nunca fui. Agora, não podia mais ficar calada diante de tanta bandalheira.

Mas o que a gente está tendo agora ainda é certa "bandalheira"...

A gente está num processo. Eu acho que precisava dar uma chacoalhada. Precisava mostrar. Por exemplo, você acha que se não fosse o impeachment o Eike [Batista] seria preso? Jamais. Porque era uma rede de poder. A Dilma [Rousseff] ia colocar o Lula como ministro. O Eike ia estar protegido. Acho que ainda tem muita coisa a ser mexida, mas se não fosse o impeachment nós não teríamos tudo o que está acontecendo. Não teríamos [Sérgio] Cabral preso, que é PMDB. Acho que teria sido importante, por exemplo, uma renovação no Senado e na Câmara. Se você me perguntar um nome, no caso do Senado eu defendi a candidatura da senadora Ana Amélia. Não porque eu tenha nenhuma ligação com o partido dela que eu confesso que nem lembro qual é. Mas porque me parecia, no período em que fiquei lá dentro [do Congresso], uma figura muito séria, uma mulher de pulso firme e algo que acho importante para ser presidente da Casa: ela é respeitada pelos pares.

Seria simbolicamente importante ser uma mulher, já que seria a primeira presidente mulher do Legislativo brasileiro?

Seria um fator a mais, mas eu não indiquei o nome dela por ser mulher. Quando indiquei, um monte de gente falou "é só porque é mulher". Eu acho péssimo indicar alguém porque é mulher. Eu acho que seria um fator a mais, mas ela tem todos os méritos, independentemente de ser mulher. E ela tem um componente legal que a senadora Ana Amélia veio da comunicação, ela é jornalista, se não me engano. Então ela tem uma facilidade no diálogo. E é uma pessoa de uma transparência muito grande.

Adriano Machado / Reuters
Senadoras Ana Amélia (PP-RS) e Marta Suplicy (PMDB-SP) presenteiam Paschoal com flores

O senador Eunício ter conquistado a presidência do Senado é mais do mesmo? Ele é um grande nome do PMDB, foi citado na Lava Jato duas vezes.

Não tenho nada objetivo contra ele, por enquanto não tem inquérito, não tem processo. Se eu fizer alguma ilação, eu estou sendo injusta, mas eu preferia a Ana Amélia porque ela seria uma mudança. Não vou dizer que ele é mais do mesmo, um novo Renan [Calheiros], mas ele é um homem que o Renan apoiava (...) Na Câmara, eu preferiria que o Maia não fosse eleito, não por ser ele, mas pela vedação legal. Existe uma interpretação, de mandato tampão, mas acho que a gente tem que cuidar dessas coisas.

A senhora acha que às vezes na política as leis são usadas por conveniência?

Olha, o advogado e o juiz que disser que isso não acontece não está falando a verdade. Fiz um estudo no arquivo estadual de São Paulo sobre decisões criminais envolvendo negros na época da escravidão e logo após e o artigo que eu escrevi depois mostra que houve viés político nas decisões (...) A própria decisão do Temer de não indicar um ministro e da ministra Cármen Lúcia sortear o relator da Lava Jato é uma decisão política, que neste momento o povo está aplaudindo, não queria que o Temer indicasse, porém, o regimento determina a indicação.

Sobre o processo de escolha de ministro do Supremo, a senhora acha que é adequado?

Este é um assunto que não tenho a clareza que outras pessoas têm de que seria melhor eleição, com a entrega de uma lista tríplice ao presidente. O que eu penso é que foi assim na nossa história sempre. Collor indicou, Fernando Henrique, Lula e Dilma também. É algo natural que o presidente procure alguém mais alinhado, isso faz parte do pluralismo da Corte. O que eu penso é que em outros momentos históricos o conhecimento jurídico tinha maior relevância que a submissão política. E o PT fez muito isso da submissão política. Se você for verificar o que o PT fez com as agências reguladoras, a submissão ideológica era mais importante. Estou com a esperança que o Temer, que saiu do Largo São Francisco (escola de direito da Universidade de São Paulo), vá colocar o aspecto jurídico na frente. Se ele vai fazer isso, não sei.

Alexandre de Moraes é um nome...

Não, olho para ele e vejo um político. Não estou desmerecendo, mas hoje ele não deveria ser indicado. Essa é a minha opinião, a situação dele é diferente da da Flávia [Piovesan]. Ele é ministro, ele está filiado, a interpretação seria muito negativa. Da mesma forma, eu acho que a ministra Grace [Mendonça, da Advocacia-Geral da União] não deveria ser indicada. Não tenho nenhuma crítica à pessoa dela, que nem conheço, mas ela foi citada no episódio do Geddel [Vieira Lima] e acho que vai gerar desconforto. Esses cuidados, um presidente que preza a Presidência deveria ter. Não sei se terá, mas acho que não deveria indicar nenhum desses dois pelo momento que estamos atravessando.

A gestão Temer é o que esperava?

Eu nunca tive nenhum tipo de expectativa com a gestão Temer. Acho que isso tem que ficar claro, ele foi escolhido pelo PT. Acho um máximo que um monte de gente vem reclamar e eu falo: por que vocês no palanque elogiavam tanto a escolha de vocês? Não é a minha. Acho que tem aspectos positivos; ele recua. A Dilma não fazia isso. Ele dá recado para as pessoas se demitirem, ele demitiu o Geddel, mesmo que de uma maneira indireta, e outros ministros que foram citados em confusão. Acho que ele tem essa vantagem em relação a Dilma. A pessoa podia ser citada 300 vezes. É importante um presidente que ouve, ele soube ouvir melhor, mas não tenho grandes expectativas. Estou assistindo como todos os brasileiros.

E essas reformas que ele vem fazendo?

Tenho mais preocupação com a trabalhista. Há casos que tem que dar mais liberdade, mas também tenho muito medo de deixar o empregado. Tem muito abuso até pelo jeito que vemos as pessoas tratando babás, empregadas domésticas. Tenho medo de qual vai ser dessa flexibilização. Com relação à Previdência, não vejo saída e tem que mexer nos megasaslários. Não dá, a Constituição limita em R$ 33 mil, não tem país que aguente, tem juiz, ministro, desembargador que recebe mais de R$ 100 mil.

A senhora também chegou a comentar sobre a gestão do Doria...

Eu acho que ele é uma coisa nova, eu não votei no Doria, votei na Marta, mas por enquanto a gestão está me agradando. Acho que ele está tendo coragem de mudar muita coisa, de se expor muito. Essa coisa dele colocar roupa de gari e sair varrendo, eu acho legal. Nossas autoridades são muito metidas, são muito metidas, intocáveis (...) Na questão dos grafites, talvez ele tenha exagerado um pouco. O que é colorido, o que é arte, eu consigo diferenciar pichação de grafite. Talvez eu não tivesse apagado. Ele mesmo parece que já recuou disso.(...) Nesse início de gestão, eu tô achando bom. Vamos ver se não é só marketing, se a coisa continua.

Alguns integrantes do MBL se filiaram a partidos políticos. Como a senhora vê esse tipo de movimento?

Acho que se as pessoas não ocuparem o espaço, os outros ocupam. Acho que entrar em um partido, concorrer a cargos é algo muito pessoal. Acho que se a gente criar esse estigma com relação à política partidária, nunca nada vai mudar. Calma, não dá para achar que a pessoa entrou para um partido e ela não presta.

A senhora tem interesse em se candidatar?

Tenho muita dificuldade com grupos porque eu sou muito livre. Tenho ideias muito originais, tenho dificuldades para me submeter, para fechar com grupos. Acho que eu teria muita dificuldade de entrar em um partido. Se o partido tomar uma decisão e a bancada tiver que votar naquele sentido e eu não concordar, não tem quem me faça votar com o partido (...) Não digo que nunca vou entrar, mas acho difícil. A vida política tem que mudar muito para eu poder participar dela.

Como enxerga a questão do machismo e do preconceito de classe?

Quem negar que existe machismo ou vive fora do mundo ou não tem a menor noção da realidade. Existe. Depende dos homens para melhorar, mas acho que depende muito mais das mulheres. Estou muito acostumada a ver mulheres que se conformam. Os homens dão espaço para as mulheres participarem do trabalho, mas a fala pública, ela não é considerada um local para as mulheres. Você tem que brigar por isso. Percebo isso em vários colegiados, mas na hora de falar é o homem. Eu nunca aceitei. Mas vejo as colegas aceitarem. Acho que depende muito mais das mulheres que dos homens. Ninguém vai ceder o espaço. Você tem que conquistar (...) Teve um momento na minha vida que eu falei que não ia ser mais bastidor, mesmo que implicasse ganhar menos, em perder cliente, que implicasse riscos (...) Acho que é um dever e eu percebo as mulheres muito resignadas. Ou vêm aquelas mulheres para brigar, tirar o sutiã... Respeito também, mas aí não são ouvidas porque radicalizam (...) Eu não estou nem aqui nem ali. Não vou tirar o sutiã para causar, mas não vou ficar no bastidor. Se fui eu quem estudou, eu vou lá expor a tese. Se precisar gritar, eu grito. Prefiro não gritar, mas se precisar, eu grito.

A senhora falou que fica um pouco desconfortável com o modo como funciona a política, de não querer se envolver. É preciso exigir algum tipo de reforma?

Nós temos leis muito boas. Acho que estamos em um momento de reforma moral, das pessoas perceberem que não dá mais para ser assim. Eu não sou nada pragmática, eu sou romântica (...) Sou pragmática no sentido de ver a realidade, não me iludo, mas sou esperançosa de que dá para mudar. Não dá mais, a gente tem que trazer o critério do mérito, da competência, da qualidade. O ministro da Saúde tem que entender de gestão, tem que ter consciência política, o ministro da Educação tem que entender de educação. Você não pode dar um cargo desses para um amigo.

As pessoas estão se informando mais ou essa questão dos boatos tem pesado muito?

Acho que as pessoas fecham muito com grupos e isso é muito ruim. Então você elege pessoas que dizem a verdade e você ouve aquela pessoa e tudo que ela fala é o certo e você reverencia (...) Estamos em uma fase de eleição de deuses e demônios que é muito ruim para a democracia. Tem gente que não fala comigo porque diz que eu sou esquerdista. Tem gente que não fala comigo porque dizem que sou uma fascista radial.

Esse discurso e a questão do ódio fazem crescer o discurso do Bolsonaro, por exemplo?

Não quero citar nomes, falar mal de ninguém. Acho que esses discursos fazem crescer as posições extremistas. E eu tenho a convicção que o extremismo está sempre errado porque o extremismo geralmente olha os problemas por uma única perspectiva. Assim, fazem crescer métodos mirabolantes, fórmulas mágicas. Isso é ruim, mas talvez faça parte do processo de amadurecimento que a gente precisa enfrentar.

A senhora falou que não teríamos Eike preso senão houvesse impeachment, mas tivemos citações de petistas e o Delcídio preso.

Mas o Delcídio foi preso quando o impeachment já tinha estourado. Aquela explosão toda foi muito importante. Se a Dilma estivesse no poder com Lula ministro, tudo isso estaria abafado. Nós ainda corremos risco, tem que ficar muito atento, por isso acho que esse sigilo na Lava Jato não é bom. A lei prevê, mas estamos falando de desvio de verba pública, nós somos vítimas, então a gente tem direito a conhecer tudo que está lá. Caiam quantos tiverem que cair.

A esquerda está sem saber que rumo tomar e como se organizar depois do impeachment?

O problema da esquerda é que... Você conhece algum governo de esquerda que não tenha sido ditatorial? Não existe. A esquerda deveria ter se revisto quando caiu o muro. Eles são muito radicais em termos de só respeitar a fala que concorda com eles. É um pensamento totalitarista. Acho que a superação da esquerda é quase acabar com esse pensamento que é totalitário por si. Não dá para uma pessoa achar que Fidel [Castro] é um herói, que se for para manter o comunismo tudo bem a ditadura.

Um diferencial da esquerda é a pauta de direitos humanos...

Qualquer liberal que acredita em liberdades individuais é favorável aos direitos humanos. Se você pegar todas as minhas publicações, todas são favoráveis aos direitos humanos. O esquerdismo é que aniquila os direitos humanos. Se você pegar o que fez Fidel, o que fez Mao [Tsé-Tung], Lênin... Eles aniquilaram os direitos humanos tanto quanto [Adolf] Hitler e os demais. Isso aí é uma falsa bandeira. Eles se apropriaram dessa bandeira, como se fosse deles, mas na verdade só defendem quando é a turma deles. Um liberal de verdade defende direitos fundamentais independentemente das pessoas envolvidas.

Ueslei Marcelino / Reuters
Janaina Paschoal em sessão do impeachment no Congresso Nacional

Como resolver a crise do sistema carcerário do País?

Há fatos em que é preciso responder com prisão. Esse discurso libertário do "vamos acabar com os presídios" é falso. O que você faz com uma pessoa que estupra uma criança ou dá um tiro na cabeça de outra? O que você faz com Fernandinho Beira Mar, que distribui drogas para outras pessoas, mas fica arrasado quando descobre que o filho é viciado? Ele sabe o mal que ele faz. O que você faz? Manda abraçar árvore? Prisão tem que ter. Mas não dá para ser depósito como vem sendo todos esses anos inclusive no governo petista que se diz tão humanitário. Tem que profissionalizar, dar educação, tratar a dependência química. Isso sim são direitos humanitários (...) Só que o esquerdista não gosta porque ele quer acabar com prisão. Se você investe no presídio, ou seja, na melhora, você está legitimando o presídio. O direitista não gosta porque ele quer mais é que matem os criminosos ou acusados. Aí ficamos nessa situação.

E as distorções? Tem quem foi preso com cinco cigarros de maconha e delatores que estão soltos.

O Cabral, por exemplo. Vai delatar. Mas esse cara não pode ser solto. O cara quebrou o Rio. Eles quebraram o Rio de Janeiro comprando pedras preciosas, fazendo viagens, inclusive durante o mandato. Ele tem que ficar preso ou isso não é um país sério. Tem que ter limites. As figuras centrais não podem delatar; mesmo com relação à delação da Odebrecht eu tenho senões (...) Fica parecendo que o crime compensa. Não dá para fazer acordo para o cara ficar com uma tornozeleira em uma mansão... Mas aí as pessoas dizem que sou linha dura. Talvez seja. Nesse aspecto, sou muito mais socialista que qualquer outro.

A gente viu muitas demonstrações de ódio sobre a morte da Dona Marisa...

Acho que tem coisas que nos tornam irmãos: a dor, a doença, a morte. São momentos. Não é que vamos transformar a pessoa em santa porque ela faleceu. Existem comportamentos de respeito que nos tornam humanos (...) Tipo, cortar o cabelo do Eike. Primeira coisa que perguntei foi se naquele presídio todos tinham o cabelo raspado. Não tenho essa certeza. Senão, é humilhação e aí passa. Esses comentários odiosos me agridem muito, me entristecem como ser humano.

A senhora falou de religião. É católica?

Não, minha família é toda espírita. Eu tenho uma formação espírita, mas não sou uma pessoa ferrenha. Não tenho aquela convicção que eu vejo em outros espíritas. Eu tenho essa dificuldade com um conjunto de dogmas (..) Não casei na igreja porque teria de fazer todo um processo meio que de conversão. O padre foi muito legal, conversou comigo e disse que ou eu adotava a crença para que aquilo fosse uma coisa maior ou não era para mim (...) Se eu não consigo sentir isso como real, como é que eu vou casar na Igreja Católica? Então eu não sou católica, embora muitas vezes as pessoas me xinguem, fale que eu sou católica ou pastora como se fosse uma ofensa. E eu acho isso errado porque todos têm direito ao mesmo respeito: os católicos, os evangélicos, os ateus. Os intelectuais respeitam muito os ateus e desmerecem muito os religiosos. As diferenças no Brasil só são respeitadas dependendo de quais são.

Impeachment de Dilma Rousseff