POLÍTICA

Novo presidente do Senado foi citado duas vezes na Lava Jato

Novo presidente, velhas delações.

01/02/2017 19:59 -02 | Atualizado 01/02/2017 20:01 -02
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Líder do PMDB até esta semana, o senador Eunício Oliveira (CE) conquistou nesta quarta-feira (1º) a Presidência do Senado, cargo que irá ocupar por dois anos.

Citado duas vezes na Operação Lava Jato, o peemedebista tem construído o caminho para o comando do Legislativo desde o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando foi ministro das Comunicações de janeiro de 2004 a julho de 2005.

Deputado federal por três mandatos, Eunício foi eleito senador em outubro de 2010, com 2.688.833 votos. Na época, a campanha arrecadou R$ 7,75 milhões, sendo R$ 750 mil doados pelo grupo OAS.

Em relato a investigadores da Lava Jato, o ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho afirmou que passava propina ao PMDB no Senado em troca de apoio a propostas legislativas de interesse da empresa. No esquema, Eunício era conhecido pelo codinome "Índio".

Esse grupo é bastante coeso com suas atuações e possui enorme poder de influência sobre outros parlamentares, com a capacidade de praticamente ditar os rumos de algumas matérias dentro do Senado.Ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho, em depoimento

De acordo com o empresário, a construtora repassou R$ 20 milhões ao PMDB por meio do senador Romero Jucá (RR), que redistribuía o dinheiro a correligionários.

Para Eunício Oliveira, foram repassados aproximadamente R$ 2,1 milhões, de acordo com o delator. O valor teria sido dividido em duas parcelas, uma paga em Brasília e a outra em São Paulo entre outubro de 2013 e janeiro de 2014.

O senador informou que todos os recursos da campanha foram declarados de acordo com a lei e aprovados pela Justiça Eleitoral.

O peemedebista foi citado também pelo ex-senador Delcídio Amaral (ex-PT). De acordo com ele, foram desviados R$ 30 milhões na construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, para políticos do PT e do PMDB.

O dinheiro viria da Andrade Gutierrez, empreiteira que tocava as obras, segundo o delator. Eunício negou a acusação.

Em dezembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por seis votos a três manter o então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) no cargo. A Corte decidiu, contudo, que ele não poderia ocupar a linha sucessória presidencial, por ser réu.

A decisão estabelece um precedente para Eunício, caso ele venha a se tornar réu.

Trajetória

Filho de Otoni Lopes de Oliveira, ex-vereador de Lavras da Mangabeira (CE), e de Discinelha Lopes de Oliveira, Eunício saiu de casa aos 12 anos para estudar na capital cearense, Fortaleza. Aos 14 anos, começou a trabalhar em uma fábrica de biscoitos.

Quando foi morar na Casa do Estudante do Ceará conheceu o movimento estudantil e em 1998 iniciou na política elegendo-se presidente do PMDB do Ceará. Desde 1972, estava filiado ao MDB que, extinto em 1981, originou o PMDB.

Em 2014, foi candidato ao governo do Ceará. Chegou ao segundo lugar no primeiro turno, com 46,41% da preferência do eleitorado, mas perdeu para Camilo Santana (PT), no segundo turno, quando atingiu 46,65% dos votos válidos.

A candidatura de Eunício à presidência do Senado foi oficializada nesta terça-feira (31), após reunião da bancada peemedebista. O único ausente foi o senador Roberto Requião (PMDB-PR).

Vamos eleger uma Mesa refém do STF. Não vão poder contestar nenhuma medida do Supremo, porque poderão ser retaliados com denúncia aceita. Perdemos a importância institucional.Senador Roberto Requião (PMDB-PR), em entrevista a jornalistas

A escolha é vista com bons olhos pelo Planalto, que conta com o apoio do peemedebista para acelerar a tramitação de pautas prioritárias para o presidente Michel Temer, como a reforma da Previdência e a reforma trabalhista.

Eunício é um dos defensores da terceirização e passou os últimos meses negociando com o senador Paulo Paim (PT-RS), relator do PLC 30/15, que regulamenta o trabalho terceirizado.

Entenda a Operação Lava Jato