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A ofensiva de Trump contra países islâmicos começou. E os sírios estão na lista de excluídos

28/01/2017 10:31 -02 | Atualizado 31/01/2017 18:21 -02
Carlos Barria / Reuters
U.S. President Donald Trump looks on following a swearing-in ceremony for Defense Secretary James Mattis at the Pentagon in Washington, U.S., January 27, 2017. REUTERS/Carlos Barria TPX IMAGES OF THE DAY

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta sexta-feira (27), um decreto que limitará a imigração e os refugiados de alguns países de maioria muçulmana e disse separadamente que quer que os EUA deem prioridade aos sírios cristãos que fogem da guerra civil.

Segundo ele, a medida imporá uma seleção mais rigorosa para impedir que terroristas estrangeiros entrem nos EUA. "Estou estabelecendo novas medidas de seleção para manter os terroristas islâmicos radicais fora dos Estados Unidos da América", disse Trump em cerimônia no Pentágono.

"Nós só queremos acolher em nosso país aqueles que apoiarão nosso país e amarão profundamente nosso povo", acrescentou.

Trump também assinou um decreto que, segundo ele, iniciará a reconstrução das Forças Armadas norte-americanas, "desenvolvendo um plano para novos aviões, novos navios, novos recursos e novas ferramentas para nossos homens e mulheres de uniforme".

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Trump havia prometido as medidas, chamadas de "seleção extrema", durante a campanha eleitoral do ano passado, dizendo que impediriam que militantes entrassem nos Estados Unidos do exterior. Mas grupos de direitos civis condenaram o decreto como prejudicial e discriminatório.

Os detalhes do decreto não estavam disponíveis imediatamente. No Pentágono, Trump disse:

"Estou estabelecendo novas medidas de controle para manter os terroristas islâmicos radicais fora dos Estados Unidos da América. Não os quero aqui. Nós só queremos acolher em nosso país aqueles que apoiarão nosso país e amarão profundamente nosso povo"

Separadamente, Trump disse que os sírios cristãos terão prioridade quando se trata de solicitar o estatuto de refugiado, mas especialistas jurídicos disseram que distinguir uma determinada religião pode ser classificada como uma violação da Constituição dos Estados Unidos.

Stephen Legomsky, um ex-conselheiro-chefe dos Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA no governo Obama disse:

"Se eles estão pensando em uma exceção para os cristãos, em quase todo outro contexto legal discriminar em favor de uma religião e contra outra religião poderia violar a Constituição"

As relações com a ONU

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A nova embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, prometeu nesta sexta-feira reformar a organização internacional e alertou os aliados dos EUA que se não estiverem do lado de Washington ela irá "anotar os nomes" e responder.

Haley fez breves declarações à imprensa ao chegar à sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York para apresentar suas credenciais ao secretário-geral da organização, António Guterres

"Nosso objetivo com o governo é demonstrar valor na ONU, e a maneira que iremos mostrar valor é mostrar a nossa força, mostrar nossa voz, ter o apoio de nossos aliados e garantir que nossos aliados também tenham o nosso apoio", disse Haley.

"Para aqueles que não nos apoiarem, vamos anotar os nomes, vamos tomar nota para responder de forma apropriada", acrescentou.

O Muro, Trump e o México

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que teve um contato amigável pelo telefone com o presidente do México nesta sexta-feira, mas frisou que ele vai renegociar acordos comerciais e outros aspectos das relações entre os dois países porque o México “bateu demais em nós” no passado.

Os dois presidentes falaram por cerca de uma hora nesta sexta, um dia depois de o presidente Enrique Peña Nieto ter cancelado um encontro planejado para Washington na semana que vem por conta da posição de Trump de que o México deve pagar por um muro de fronteira de muitos bilhões de dólares.

"Foi um telefonema muito, muito amigável”, disse Trump durante entrevista à imprensa junto com a primeira-ministra britânica, Theresa May.

"Nós vamos trabalhar para uma relação justa e uma nova relação” com o México, acrescentou Trump. “Mas os Estados Unidos não podem continuar a perder grandes quantidades de negócios, grandes quantidades de empresas, e milhões e milhões de pessoas perdendo os seus empregos...Isso não vai acontecer comigo.”

O peso mexicano ampliou os ganhos com as notícias sobre o telefonema.

A renovada insistência de Trump de que o México pague pelo muro e o cancelamento por Peña Nieto da visita aprofundou a crise entre os dois países na primeira semana do governo Trump.

Trump disse que o México “negociou melhor que a gente e nos bateu demais durante os nossos líderes passados. Eles nos fizeram parecer tolos”.

Ele disse que os EUA vão “renegociar os nossos acordos comerciais, e nós vamos renegociar outros aspectos da nossa relação com o México. E no final acho que isso vai ser bom para os dois países”.

O presidente republicano vê o muro, uma importante promessa da sua campanha, como parte de um pacote de medidas para cortar a imigração ilegal. O México há muito insiste que não vai acatar as exigências de Trump para pagar pela construção do projeto.

O governo mexicano disse em um comunicado que Peña Nieto e Trump concordaram em não falar publicamente no momento sobre o pagamento do muro e descreveu o telefonema como "construtivo e produtivo".

A Casa Branca informou que durante o telefonema Trump e Peña Nieto reconheceram suas diferenças sobre o muro, mas concordaram em trabalhá-las.

Na quinta-feira, Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, fez o peso cair para a sua menor cotação do dia quando disse a jornalistas que Trump queria uma taxa de 20 por cento sobre as importações mexicanas para pagar pelo muro.

Spicer não entrou em detalhes, mas os seus comentários lembraram uma ideia existente, conhecida como taxa de ajuste de importação, que a Câmara dos Deputados dos EUA está considerando como parte de uma ampla reforma fiscal.

México e EUA vão permanecer num impasse se não resolverem a exigência “inaceitável” de Trump pelo pagamento do muro, disse nesta sexta o ministro da Economia mexicano, Ildefonso Guajardo.

De volta ao México depois de negociações frustradas em Washington, Guajardo também manifestou preocupação com a “imprevisibilidade” de Trump e os seus hábitos no Twitter.

A imprevisibilidade de Donald Trump

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O estilo de negociação retórico e conflituoso “América Primeiro” do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já provocou telefonemas exaltados para a Casa Branca e o Congresso de diplomatas e lobistas preocupados que os EUA não mais os apoiam.

Quando um rumor circulou em Washington na quinta-feira de que Trump poderia estar se preparando para aliviar as sanções norte-americanas contra a Rússia, diplomatas europeus preocupados começaram a ligar para o Conselho de Segurança Nacional e perguntar se aquilo era verdadeiro, disse uma ex-autoridade norte-americana familiar com a situação.

Os representantes da Casa Branca não puderam responder às perguntas porque eles, também, estavam no escuro, disse a ex-autoridade, que pediu anonimato.

A nova embaixadora de Trump nas Nações Unidas, Nikki Haley, provocou um outro calafrio nos aliados norte-americanos nesta sexta, alertando que se eles não apoiam Washington, ela estava “tomando os nomes” e iria responder.

"A política externa de Trump é totalmente imprevisível”, disse uma importante autoridade da União Europeia (UE), que, segundo afirmou Trump, está destinada a romper.

O secretário de Defesa norte-americano, James Mattis, e o indicado para secretário de Estado, Rex Tillerson, “disseram todas as coisas certas”, afirmou o representante da UE. “Mas isso poderia ser como a política da guerra no Iraque novamente, quando nós vimos como um segmento do governo, e não o secretário de Estado, decide a política.”

Outro diplomata ocidental afirmou que embaixadores estrangeiros estão explicando as posições dos seus países para o Congresso na esperança que elas cheguem à Casa Branca.

No fim do ano passado, a Ucrânia assinou um contrato de lobby de 50 mil dólares por mês com Haley Barbour, ex-dirigente republicano e ex-governador do Mississippi.

Em janeiro, o Conselho da China para a Promoção do Comércio Internacional contratou a Husch Blackell para fazer lobby relacionado à importação de aço, de acordo com registros do Departamento de Justiça.

Alguma incerteza é normal quando um novo presidente busca a sua sintonia e voz em temas internacionais e coloca o seu pessoal nos cargos de execução da política.

Contudo, na semana desde a posse, Trump enviou uma chuva de sinais conflitantes, e vagas chaves nos departamentos de Defesa e Estado permanecem vazios.

"Estamos tentando descobrir quem é quem”, disse um diplomata europeu, se referindo aos esforços para determinar se diretrizes antigas da política externa ainda valem.

Um dos primeiros encontros importantes de Trump, com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, foi cancelado devido à exigência de Trump de que o México pague pelo muro que ele planeja construir. Os dois se falaram pelo telefone nesta sexta depois do cancelamento.

Na quarta, Trump afirmou que apoiaria zonas de segurança para refugiados na Síria, mas não deu indicação de como iria coordenar isso com a Turquia, Rússia e aliados na Europa e no Oriente Médio.

A indicação de Sean Spicer, porta-voz presidencial, de que os EUA impediriam a China de tomar territórios no Mar do Sul da China e o tuíte de Trump de 2 de janeiro de que um teste norte-coreano de míssil balístico intercontinental não aconteceria poderia criar a chance de um confronto militar, disseram autoridades asiáticas.

Alguns especialistas dizem que é muito cedo para os aliados entrarem em pânico.

"Não é apropriado ficar preocupado demais, mas não é apropriado simplesmente não se preocupar”, afirmou Fumiaki Kubo, professor de história do governo norte-americano na Universidade de Tóquio.

No entanto, outros sugeriram que quanto maior a incerteza e quanto mais ela durar, maiores são as chances de erros de cálculo por outros países, o que poderia prejudicar os interesses dos EUA.

(Com informações da Reuters)

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