MULHERES

A nova Mulher-Hulk da Marvel mostra que a raiva pode ter uma ótima utilidade

28/01/2017 14:10 -02 | Atualizado 31/01/2017 18:21 -02

Em 1980 a Marvel introduziu em seu cânone uma nova personagem diferente da maioria. Não era um herói másculo e cheio de músculos nem uma mocinha delicada e de cabelos longos. A Mulher-Hulk foi introduzida como prima de Bruce Banner; depois de receber uma transfusão de sangue, ganhou o poder dele de transformar-se quando ficava com raiva.

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A Mulher-Hulk é uma advogada de defesa criminal, inteligente, hábil e sensata – exceto quando perde a calma. Quando fica furiosa, ela se transforma em uma versão mais robusta e verde dela mesma, que ela decide adotar permanentemente em uma das histórias da Marvel. A Mulher-Hulk, cujo nome original é Jennifer Walters, acaba virando parte dos Vingadores e, em um gibi de 2008, de um grupo chamado Lady Liberators que inclui Tempestade e Mulher Aranha.

Em “Hulk #1”, um capítulo da história de Jennifer Walters lançado pela Marvel no final do ano passado, a Mulher-Hulk se torna uma personagem mais completa. Ela tomou o lugar de seu primo, Bruce, que morrera recentemente na Segunda Guerra Civil, um acontecimento de grande importância na série. Ela própria sobreviveu à guerra por pouco e passa boa parte da história enfrentando estresse pós-traumático, conciliando suas emoções turbulentas com o trabalho que precisa fazer e para o qual precisa se concentrar.

“Acho que é um ótimo tema para uma história de super-heroína, porque todo acontecimento histórico tem seu dia seguinte, suas consequências”, falou ao Huffington Post a autora de “Hulk#1”, Mariko Tamaki. “Acho que essas consequências mergulham no lado humano do super-herói.”

Refletir sobre o aspecto humano dos personagens de quadrinhos é algo que Tamaki fica muito à vontade em fazer. Seus graphic novels Skim e This One Summer trazem heroínas que enfrentam a turbulência do início da idade adulta, problemas com sua autoimagem corporal e sentimentos de isolamento generalizado. This One Summer costuma ser questionado em escolas por incorporar temas adultos em um livro destinado ao público juvenil.

“No contexto mais amplo, as experiências de vida das mulheres e as questões sociais ligadas a elas são importantes para mim. Quando escrevo, procuro não reforçar visões estereotipadas de como a mulher deve ser – em matéria de corpo, de aparência, do que é ‘apropriado’ ou não para uma mulher, assim por diante”, disse Tamaki. “Quero que minhas personagens sejam sentidas como reais e que espelhem a diversidade das experiências das mulheres no mundo ocidental moderno.”

Por isso mesmo sua Jennifer Walters não é uma Mulher-Hulk unidimensional de quem se espera que seja sempre ao mesmo tempo forte e atraente. Em vez disso, ela é essas duas coisas de modo alternado e enfrenta problemas não ligados a seu gênero: experiências traumáticas e a morte de seu primo, uma injustiça que lhe provoca mais raiva.

Indagada se ela quis contestar em seu trabalho a ideia estereotipada de que mulheres que dão vazão à raiva seriam vilãs, Tamaki disse simplesmente: “Acho interessante escrever sobre raiva, medo e dor. Esses são elementos cruciais nas histórias sobre a vivência humana. De que vale uma boa história que não inclui um pouco de raiva?”

Leia um trecho do quadrinho:

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Tradução livre:

- Não sei se você se lembra de mim.

- Eu sou Flo, a mulher persistente mas bem-intencionada que vem tentando escrever sobre você há ...

- Grrrr! Falei para me deixar em paz!

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Tradução livre:

ESCRITÓRIO DA RYU, BARBER, ZUCKER & SCOTT.

MAIS TARDE:

- Sra. Walters?

- RESPIRE. POR FAVOR. VOCÊ CONSEGUE. FAÇA ISTO DAQUI PARAR. NÃO CONSIGO.

- Existe alguém que não goste de uma deliciosa tortinha de morango? Não consigo imaginar.

- POR FAVOR.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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