MULHERES

O conselheiro de Turismo de Crivella e a objetificação da mulher em posts no Facebook

17/01/2017 18:03 -02 | Atualizado 17/01/2017 18:03 -02
Montagem / Facebook / Agência Brasil

Uma das cidades que exploram imagens do corpo feminino como atração turística, o Rio de Janeiro ganhou em sua administração a influente voz de um adepto do discurso que hipersexualiza as mulheres.

O empresário Ricardo Amaral, nomeado pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB) para o Conselho de Turismo da cidade, compartilha em suas contas no Facebook e no Instagram postagens de cunho machista.

Conhecido como “rei da noite carioca” por sua atuação no ramo de boates, bares e clubes noturnos, Amaral costuma compartilhar imagens de mulheres hipersexualizadas e até notícias falsas reforçando a ideia de que elas são propriedade.

Em uma das publicações, o conselheiro comenta um boato de que a Islândia pagaria US$ 5 mil por mês para quem quisesse casar com uma islandesa.

E é dessa forma que ele mostra sua opinião política:

Além de relacionar o corpo de mulheres a questões da agenda pública, ele comumente replica posts que objetificam mulheres e reforçam a ideia de que elas são "propriedade" dos homens tanto no Facebook quanto em seu perfil do Instagram:


Querido as cervejinhas acabaram. Quer comer alguma coisinha?

Uma foto publicada por Ricardo Amaral (@ricardoamaraloficial) em


A nomeação foi criticada nas redes sociais.

"O Rio de Janeiro é conhecido por uma visão estereotipada de turismo que hipersexualiza a mulher, sobretudo a mulher negra. A exploração sexual de mulheres e crianças também é um dos grandes problemas da cidade", escreveu a vereadora Marielle Franco (PSOL). A publicação foi replicada por Marcelo Freixo (PSOL), candidato derrotado na disputa pela Prefeitura do Rio.

Exploração sexual

No Brasil, mais de cinco pessoas são estupradas por hora, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Foram registrados 45.460 casos em 2015. Devido à subnotificação, a estimativa de especialistas é que o número real seja dez vezes maior.

O levantamento estima que devem ter ocorrido entre 129,9 mil e 454,6 mil estupros no ano. O número mínimo se baseia em estudos internacionais, como o National Crime Victimization Survey (NCVS), que apontam que apenas 35% das vítimas de violência sexual costumam prestar queixas.

Em 2016, o caso do estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro chocou o País após a divulgação de imagens em que a menina é violentada em por mais de 30 homens. Estudos apontam que a cidade ainda é vendida como um destino de turismo sexual no Brasil, mesmo com normas e campanhas de enfrentamento ao problema.

"É inadmissível que o futuro responsável pelas políticas públicas para o turismo não se veja como cidadão de um País que apresenta índices recordes de violência contra a mulher, incluindo estupros e feminicídios", escreveu Laura Erber, artista e professor da UNI-Rio, no blog Agora é que são elas, da Folha de São Paulo.

Para a escritora, o novo conselheiro "claramente ignora a realidade aterradora do Rio de Janeiro e os laços complexos entre exploração turística e machismo estrutural" e "os memes machistas faceiramente disseminados por Ricardo Amaral nas redes sociais exemplificam o apego ao velho imaginário sexual machista amplamente naturalizado pelos que confundem poder aquisitivo com poder sobre o corpo feminino".

Escolha

O Conselho do Turismo foi criado pelo bispo licenciado após ao reduzir as secretarias de 23 para 12 e acabar com a pasta dedicada às atividades turísticas da cidade. Em entrevista ao jornal Extra, Crivella justificou a escolha, antes de o convite ser aceito.

"Uma das coisas mais importantes na economia do Rio é o turismo. Ele é indutor a trazer recursos de fora para a economia. Andei conversando com o pessoal de hotéis, eventos e áreas ligadas a esse setor e eles me indicaram, para ter uma agenda de eventos importantes, seria o Ricardo Amaral. Ele ainda não me deu resposta. Mas eu perguntei se ele aceitaria. A classe artística também aplaudiu", afirmou. "Seria um nome técnico, experiente, paulista, mas com alma carioca. Prestaria grande serviço", completou.

Primo do produtor musical Nelson Motta, Amaral começou a carreira como colunista social.

No Rio, criou o "Studio 54", em referência ao clube com mesmo nome em Nova York sucesso na década de 1970. Ele abriu também a boate Hippo, frequentado por Elton John, Prince, Danuza Leão, Jô Soares, Gal Costa e Pelé, entre outros.

A reportagem procurou Ricardo Amaral para entrevistá-lo sobre suas postagens que objetificam mulheres. Até a data desta publicação, o HuffPost Brasil não recebeu resposta do pedido da entrevista com o empresário.

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