COMPORTAMENTO

Aqui está a prova de que as mulheres precisam trocar de namorado, não de vestido

17/01/2017 20:45 -02 | Atualizado 17/01/2017 20:45 -02

"Você não vai sair com essa roupa"

"Mas você vai assim?"

"Você está parecendo um pedaço de carne"

"Mulher minha não sai comigo vestida desse jeito!"

Esses são só alguns poucos exemplos do quanto a cultura machista pode se fazer presente no cotidiano de um relacionamento.

Neste sábado (14), o chamado 'teste do vestido' começou a viralizar nas redes sociais e expôs como o machismo pode se manifestar em relacionamentos entre homens e mulheres escondido no ciúme e no controle.

A ação começou em um grupo fechado, mas se espalhou pelas redes sociais após ser divulgada no Facebook pela estudante Tuany Ferreira Alves, de 20 anos, de Curitiba.

"Alguns prints estavam com reações mais tranquilas, alguns homens diziam 'você pode usar, porque a decisão é sua', alguns expressaram ciúme, etc, mas eu me assustei mesmo com alguns homens ameaçando as mulheres. Porque que tudo não pode começar com uma brincadeira, né? Eu me assustei e achei importante divulgar para alertar as meninas", disse Tuany em entrevista ao HuffPost Brasil.

Para o desafio, bastava as mulheres mandarem a foto da modelo Aline Riscado em um vestido preto, de couro e com fendas nas laterais para seus companheiros acompanhada da pergunta: "Amor, o que você acha desse vestido? Vou comprar". Em seguida, as respostas deveriam ser divulgadas nas redes sociais.

Entre as respostas, alguns homens dizem às suas companheiras que:

"vai ficar legal a surra que vou te dar", "vai parecer um pedaço de carne", "acho que preciso te largar", "vou te dar um soco" e até "pode mudar o status para solteira".

Alguns exemplos:

desafio do vestido

desafio do vestido

desafio do vestido

Após a repercussão, no domingo (15), Tuany fez um desabafo sobre as críticas que recebeu e o posicionamento de algumas pessoas sobre o "teste do vestido".

Em um trecho, ela escreve:

"Depois do meu post, MUITAS mulheres pediram a foto para fazer o teste com os companheiros e muitas me mandaram o print depois. E PASMEM, tem mulher que me manda print de resposta machista e acham graça disso. Infelizmente, precisamos mostrar às mulheres que nos cercam que não é legal homem querer controlar nossa vida."

Leia o desabafo completo:

Em contrapartida, também apareceram reações positivas. Alguns homens disseram:

"Vai ficar lindo em você", "Você tem que usar o que gosta, quer e tem vontade", "Achei meio esquisito, mas pode usar, ué".

Após divulgar os prints, Tuany compartilhou a resposta de uma das meninas que participou do desafio e, ao receber uma resposta negativa do namorado, compartilhou com o pai a brincadeira, que respondeu: "Só tome cuidado ao sentar". Ao dizer a ele que o namorado não tinha gostado, ele respondeu: "Troque de namorado, então".

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Tuany conta que começou a receber pedidos de ajuda de algumas meninas que perceberam comportamentos machistas nos namorados e que se um conteúdo deste tipo viralizou é porque é preciso falar sobre.

"Algumas meninas vieram me perguntar o que fazer quando algo como a situação do vestido acontecer. Mas só de ver que elas estão identificando que algum comportamento assim, que censura, que pune, que diminui não é legal, já é um começo", disse.

O "teste do vestido" pode ter começado como uma brincadeira, mas acabou levantando uma discussão importante sobre machismo e um alerta sobre relacionamentos abusivos, nos quais uma das pessoas exerce controle sobre a outra em benefício próprio.

"É um pouco mais embaixo quando a coisa é de verdade. Acho que repercutiu desta forma porque chama mais atenção por serem histórias reais, de pessoas reais, que aconteceram de verdade. O machismo é uma coisa muito ruim. Eu passo por situações que toda mulher passa. Toda mulher sabe o que é ouvir coisas nojentas quando está andando na rua", conclui Tuany.

Algumas pessoas, inclusive, trataram a "brincadeira" de outra forma nas redes sociais:

E outras escolheram divulgar o 180, telefone de assistência à mulher que sofre violência:

Um lembrete importante:

E teve gente que não ficou nada surpresa:

Homens x Machismo

Todos os dias, 13 mulheres são assassinadas no Brasil. Esta a quinta mais alta taxa no mundo, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2014 foram 4.832 homicídios, segundo dados mais recentes do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Dessas mortes, o governo federal não têm noção de quantos são casos de violência doméstica.

Além deste dado alarmante, em pleno século 21, o machismo é tema recorrente no Brasil. Uma pesquisa realizada pela ONU Mulheres e o portal PapodeHomem, mostra que 95% das mulheres e 81% dos homens entrevistados concordam com a afirmação acima. Ainda segundo o estudo, que visa entender como a desigualdade de gênero afeta a sociedade, apenas 3% deles se consideram machistas.

Mas como é possível, então, mudar a percepção do machismo e da violência que ele provoca? Em texto para o The Huffington Post, que foi traduzido para o português, o advogado Matan Uziel escreve:

Para começar, os homens precisam contestar a violência de outros homens. Eles precisam se esforçar para enfraquecer os apoios sociais e culturais à violência contra mulheres que são evidentes em comunidades em todo o mundo -as normas machistas e que favorecem a violência, os comportamentos de indiferença e as desigualdades de gênero que alimentam a violência contra mulheres.

Enquanto isso, as mulheres precisam de força para romper com a lógica machista e crer que trocar de namorado e não de vestido é a melhor escolha. Existem formas bem mais verdadeiras de dizer "eu te amo" ou de se relacionar com alguém.

Não silencie!

"Foi só um empurrãozinho", "Ele só estava irritado com alguma coisa do trabalho e descontou em mim", "Já levei um tapa, mas faz parte do relacionamento". Você já disse alguma dessas frases ou já ouviu alguma mulher dizer? Por medo ou vergonha, muitas mulheres que sofrem algum tipo de violência, seja física, sexual ou psicológica, continuam caladas.

Desde 2005, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, funciona em todo o Brasil e auxilia mulheres em situação de violência 24 horas por dia, sete dias por semana. O próximo passo é procurar uma Delegacia da Mulher ou Delegacia de Defesa da Mulher. O Instituto Patrícia Galvão, referência na defesa da mulher, tem uma página completa com endereços no Brasil. Clique aqui.

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