MULHERES

'Vamos nos unir': O desabafo da atriz Giselle Itié sobre machismo, união e sororidade

12/01/2017 11:19 -02
Divulgação/Rede Globo

"Minha atriz preferida é feminista, ngm merece! :("

"Virou moda cada dia uma famosa ser abusada sexualmente?"

Falar sobre ou denunciar um caso de estupro deveria trazer acolhimento e empatia às vítimas. Mas é comum que, diante da exposição da violência, as mulheres sejam atacadas e, principalmente desacreditadas e culpabilizadas.

Com atriz Giselle Itié não foi diferente. Após publicar um texto na revista Glamour Brasil, no qual conta detalhes sobre o abuso sexual e emocional que sofreu após ser dopada e estuprada por seu namorado de adolescência, ela foi atacada nas redes sociais.

"Minha atriz preferida é feminista, ngm merece! :(", disse uma das seguidoras da atriz. "Só eu que não fui abusada sexualmente??? Pq todo dia uma "famosa" faz um relato de abuso...", questionou outra. "Virou moda cada dia uma famosa ser abusada sexualmente?"

Em um desabafo feito no Instagram, ela pediu mais união entre as mulheres e que se sentiu frustrada ao ler comentários que culpavam ela pela violência que sofreu. Ao publicar uma ilustração de duas mulheres abraçadas, ela escreveu:

"Quando nós, mulheres, somos unidas e levantamos a bandeira a favor da nossa liberdade e igualdade de gêneros, nós, mulheres, nos tornamos mais fortes para combater a sociedade machista"

E completa:

"Quando leio comentários de mulheres julgando o abuso que sofri e/ou violência que a mulher sofre todos os dias. Julgando como? Reagindo com insensibilidade e indiferença. Acreditando que a vítima 'ajuda' para que o agressor seja violento. Bem, é muito frustrante perceber esse tipo de reação ainda mais de mulheres. Percebo que as mulheres não machistas também se sentem agredidas e de alguma forma se distanciam das mulheres machistas"

Leia o desabafo completo:

Sobre os comentários agressivos e equivocados de Mulheres em relação à um texto que escrevi sobre um abuso sofrido por uma menina de 17 anos. Eu. S O R O R I D A D E É a união, a aliança FEMINISTA entre mulheres. Feminista? É uma Pessoa que acredita na IGUALDADE de direitos entre Mulher e Homem. Voltando para a idéia de irmandade, a Sororidade é muito importante para nós Mulheres combatermos a sociedade Machista. Machista? É uma Pessoa que recusa a igualdade de direitos entre Mulher e Homem. Acreditando que o homem é superior à mulher. Agora sim, voltando a Sororidade (ufa!) Quando Nós Mulheres somos unidas e levantamos a bandeira à favor da nossa liberdade e igualdade de gêneros. Nós Mulheres nos tornamos mais fortes para combater a Sociedade Machista. Quando leio comentários de Mulheres julgando o abuso que sofri e/ou violência que a Mulher sofre todos os dias. Julgando como? Reagindo com insensibilidade e indiferença. Acreditando que a vítima "ajuda" para que o agressor seja violento. Bem, é muito frustrante perceber esse tipo de reação ainda mais de Mulheres. Percebo que as Mulheres Não Machistas também se sentem agredidas e de alguma forma se distanciam das Mulheres Machistas. E eu me pergunto, cadê a Sororidade? Mas não pergunto para essas Mulheres Machistas e Equivocadas. Pergunto para nós, Mulheres que se sentem agredidas pelas Machistas. Cadê a Sororidade? Para ajudar a me explicar, segue um texto do site "naomecalo.com" : Lembra quando reproduzíamos um machismo ferrado ao falarmos que mulher tem que se dar o respeito? “Ué, não quer engravidar, que tome as devidas precauções, que não abra as pernas”, “Nossa, vai sair com essa roupa? Está parecendo uma vadia!”. Vamos fazer uma dinâmica? Fechem os olhos e tentem se lembrar da época em que não conheciam o feminismo, e quando até conheciam, mas achavam que era um movimento de mulheres infelizes e insatisfeitas com a vida. E aí, lembraram? Lembrem-se também do momento em que foram salvas, em que uma mão amiga foi-lhes estendida mostrando-lhes o caminho; de um artigo sobre feminismo lido após aquela manchete de feminicídio que ficou em sua cabeça por dias; (cont. nos comentários) ❤️

A photo posted by GiseLLe ItiÉ (@gitie) on

Ao final do texto, ela diz:

"Essa palavra tão foneticamente bonita e de um significado representativo que veio para quebrar totalmente um dos braços mais fortes do patriarcado: a rivalidade entre mulheres. Um dos mais fortes, porque é praticamente um escudo contra o verdadeiro opressor, que faz-nos lutar uma contra as outras enquanto o que tem que ser destruído - esse sistema que estupra mulheres a cada 12 segundos - está mais firme e forte do que nunca. Por isso, vamos nos unir e tentar despertar essas mulheres que estão há muito tempo apagadas pela sociedade machista"

Em 2016, a atriz já havia comentado sobre o estupro que sofreu na adolescência na série "Nem Uma a Menos", para a qual também dirigiu alguns vídeos. No dia 25 de novembro, o Dia Internacional pelo Combate da Não-Violência Contra a Mulher, a atriz compartilhou em sua conta no Instagram um depoimento emocionado.

O vídeo integra a campanha "Nem Uma a Menos", que foi inspirada no movimento argentino #NiUnaMenos. O movimento ganhou força e visibilidade no país após o estupro e empalamento de uma jovem de 16 anos.


Outras mulheres também gravaram seus relatos para a campanha:


Leia o texto corajoso em que a atriz revela estupro aos 17 anos.

Machismo e violência contra a mulher no Brasil

Mais de cinco pessoas são estupradas por hora no Brasil, mostra o 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) divulgado em 2016.

O País registrou, em 2015, 45.460 casos de estupro, sendo 24% deles nas capitais e no Distrito Federal. Apesar de o número representar uma retração de 4.978 casos em relação ao ano anterior, com queda de 9,9%, o FBSP mostrou que não é possível afirmar que realmente houve redução do número de estupros no Brasil, já que a subnotificação desse tipo de crime é extremamente alta.

O levantamento estima que devem ter ocorrido entre 129,9 mil e 454,6 mil estupros no Brasil em 2015. O número mínimo se baseia em estudos internacionais, como o National Crime Victimization Survey (NCVS), que apontam que apenas 35% das vítimas de estupro costumam prestar queixas.

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