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Leonardo Vieira fala de homofobia, família e inspirações nesta entrevista exclusiva

13/01/2017 01:14 -02 | Atualizado 05/02/2017 22:41 -02

Nos palcos, ele interpreta um marido homofóbico, machista, cheio de preconceitos e paranoias.

Na vida real, é ele o alvo de ofensas por sua orientação sexual, recém-revelada para o mundo, ao mesmo tempo em que é abraçado por uma imensa corrente de amor e apoio de fãs, amigos e até de um público que não o acompanhava tanto na TV Record, onde trabalha atualmente.

leonardo vieira

Divulgação/Facebook

Galã celebrado nos anos 90, Leonardo Vieira voltou ao noticiário no fim do ano passado quando a foto de um beijo entre ele e outro homem foi divulgada pelo site Ego. "É complicado para todo mundo [lidar com a homossexualidade]. Mas pro ator, tem essa questão da visibilidade", explicou ao HuffPost Brasil.

Na semana em que publicou uma carta-manifesto pela liberdade de ser quem é e compartilhou mensagens acolhedoras dos pais, o ator de 48 anos voltou a encarnar Diogo, o protagonista da peça Nove em ponto, no Teatro Folha, na zona oeste da capital paulista.

Após arrancar gargalhadas da plateia, em mais um dia de casa cheia, Vieira concedeu esta breve entrevista, em que fala de homofobia, das dificuldades enfrentadas na adolescência, quando se descobriu gay, e da influência de outros artistas no seu processo de outing:

HuffPost Brasil: Por estar sob holofotes, é mais difícil para atores lidar com a homossexualidade?

Leonardo Vieira: Ah, eu acho que é complicado para todo mundo, né? Mas pro ator, tem essa questão da visibilidade... Agora, eu nunca fui de falar da minha vida pessoal. Sempre tive uma atitude discreta sobre tudo.

Em seu manifesto, você diz que ser gay é apenas um detalhe de sua personalidade. Que você também é bom amigo, tem bom caráter... Qual é o papel da família para que você se tornasse essa pessoa bem-resolvida?

A família é fundamental. Você viu esse caso da mãe que matou o filho, e o padrasto carbonizou? (chocado) Isso é uma coisa terrível. Isso não deveria acontecer, não é natural. Os pais e as mães são para educar os filhos, fazer que cresçam saudáveis, que se desenvolvam da melhor forma possível... Foi isso que meus pais fizeram. Isso é o que tem que ser feito. Então, é claro que eu devo tudo que sou a meu pai e a minha mãe. Eles são totalmente responsáveis por eu ser uma pessoa honesta, pelo meu caráter, por eu pensar como eu penso.

Mas você também disse que, na época da sua adolescência, sua família era conservadora...

Não foi fácil para mim. Desde meus 15 anos, meus pais souberam. Em casa foi complicado. Tive uma vida muito restrita até fazer 18. Porque aí, maior de idade, saí para trabalhar em loja para ganhar um dinheirinho e poder fazer as minhas coisas. Mas até aí, até eu criar a minha independência, eu tinha que ficar sob a batuta deles. Então, não foi fácil dos 15 aos meus 18. Tive que tolerar muita coisa que realmente não foi legal. Eu fiquei um pouco aprisionado, minha mãe controlava um pouco minha vida...

Agora você se tornou um formador de opinião para o público LGBT. Qual mensagem você transmite para jovens gays que hoje estão em uma família que não os apoia tanto e enfrentam um momento difícil?

O conselho que eu dou é: consiga sua independência. Estude, vá correr atrás da sua vida para você conquistar as suas coisas. Aí você vai obter o respeito da sua família.

Você acredita que falar sobre sua orientação sexual pode incentivar outros artistas a fazer o mesmo? Vi que você também agradeceu a outros ícones que são declaradamente gays, como Marco Nanini, Ricky Martin...

Sim, agradeço a eles porque abriram caminho. São precursores. Graças a um Ney Matogrosso que hoje as coisas estão mais fáceis e eu estou aqui podendo falar [sobre ser gay] sentindo menos peso do que eu sentiria 20 anos atrás. Graças a essas pessoas. Então, a gente tem que agradecer quem vem antes.

Então, você acha que pode abrir caminho para os próximos artistas a sair do armário?

Acho que eu posso ajudar a melhorar um degrauzinho, alguma coisa mais. Não acho que eu vá mudar tudo; com certeza, não. Mas acho que acaba colaborando. Eu vejo nas redes sociais muita gente me agradecendo por eu ter feito isso [falado da sexualidade], que tem ajudado muita gente. Acho que só isso pra mim já foi positivo. É um ganho imenso.

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