MULHERES

A entrevista que Beyoncé fez com a irmã Solange é motivo de força e inspiração para todos nós

11/01/2017 12:11 -02 | Atualizado 11/01/2017 12:11 -02

As irmãs Beyoncé e Solange Knowles são inspirações para mulheres negras em todo o mundo. Artistas multifacetadas, ambas apareceram nas listas de melhores discos de 2016 com seus trabalhos.

Uma foto publicada por Solange (@saintrecords) em


Abordando questões sobre negritude, condição feminina e empoderamento, Beyoncé mexeu com as estruturas da cena pop com seu Lemonade.

A irmã mais nova não ficou atrás.

Com A Seat at the Table, retrato íntimo que aborda temas relacionados à identidade negra, Solange ganhou a atenção de um novo público e elogios rasgados da crítica especializada.

A revista Interview resolveu explorar esse universo criativo e afetivo das irmãs trazendo na edição de fevereiro uma entrevista com Solange guiada por Queen Bey.

Solange, que também estampa a capa, protagoniza ainda um belo ensaio fotográfico no miolo da revista (veja algumas imagens logo abaixo).

Entre os assuntos discutidos pelas duas estão memórias de infância, referências na arte e os bastidores do disco A Seat at the Table.

Solange compõe as próprias canções, co-produz músicas, projeta shows e coreografias. Questionada por Beyoncé sobre suas inspirações artísticas para assumir com talento todas essas tarefas, Solange responde:

“Por um lado, eu tenho que ter muita prática. Crescer numa casa com uma especialista como você definitivamente não atrapalhou. E, até onde eu me lembro, nossa mãe sempre nos ensinou a ter controle da nossa voz e dos nossos corpos e do nosso trabalho, e ela nos mostrou isso por meio do exemplo dela. Se ela tinha uma ideia, não havia um aspecto fora de seu controle. E acho que isso é algo interessante de se perceber, especialmente vendo você fazer o mesmo na sua carreira: a sociedade rotula isso como loucos por controle, como uma mulher obsessiva, ou alguém que é incapaz de confiar em sua equipe. Não há como ter sucesso sem ter uma equipe. Mas eu tenho – e não tenho medo de dizer – uma visão muito distinta e clara de como eu quero me apresentar, uma visão sobre meu corpo, minha voz e minha perspectiva. E quem melhor para realmente contar essa história do que você mesmo? Para este CD especificamente [‘A Seat at the Table’], ele começou com o desejo de desvendar algumas verdades e algumas mentiras. Havia coisas que estavam na minha cabeça fazia um bom tempo. E eu tentei trabalhar com algumas dessas coisas para que eu pudesse ser uma pessoa melhor e uma mãe melhor para Julez, uma esposa, uma amiga e uma irmã melhor. Isso é uma grande parte do porquê eu quis que você me entrevistasse. Porque o álbum é como se histórias estivessem sendo contadas para todos nós e para a nossa família e etnia. (…)”

solange beyonce

A Seat at the Table levou três anos para ser finalizado.

Nesse processo, Solange participou ativamente de toda a produção, com instrumentação ao vivo, tocando teclados e bateria, acertando os vocais e também co-produzindo as faixas. Beyoncé elogia o empenho da irmã:

“É algo para ser comemorado, para uma jovem mulher ser uma produtora tão forte, bem como um cantora e compositora e artista.”

Solange agradece:

“Obrigada! Uma das minhas maiores inspirações em termos de produtoras femininas é Missy Elliot. Eu me lembro de vê-la quando vocês trabalharam juntas e estavam apaixonadas pela ideia de que eu poderia me usar como mais do que uma voz e palavras. Em meus discos anteriores, eu contribuí para a produção aqui e ali, mas eu sempre tive muito medo de realmente entrar lá e… Eu acho que eu não estava realmente com medo, eu estava realmente confortável escrevendo as músicas. Eu senti como se minhas contribuições como produtora eram o bastante. Mas quando comecei a trabalhar nos sons para esse disco, percebi que eu tinha que criar uma paisagem sonora tão específica ao contar a história. Eu tive essas sessões de jam, e havia buracos que ninguém mais poderia realmente preencher pra mim. Ele realmente saiu de uma necessidade de algo fora do que eu poderia articular e levar alguém a fazer. E era assustador. Foi realmente assustador, e muitas vezes fiquei frustrada comigo e me sentindo insegura porque era novo trabalhar nesse espaço e estar na frente de pessoas nesta idade, aprendendo algo nesse nível. Mas eu me sinto tão grata e animada que há uma nova fase que eu conquistei como artista.”

solange beyonce

Umas das músicas de destaque do álbum de Solange é Cranes in the Sky (Guindastes no Céu, em tradução literal). Ela explica que a letra da canção foi composta há oito anos, em um momento dramático, quando tinha acabado de terminar o relacionamento com o pai de seu filho Julez.

“Eu costumava compor e gravar muito em Miami nessa época, quando teve o ‘boom’ do setor imobiliário. Havia novos condomínios sendo construídos bem próximos uns dos outros. Você gravou bastante lá também, e acho que vivenciamos Miami como um lugar de refúgio e paz. Nós não estávamos lá para festejar. Eu lembro de olhar para cima e ver todos esses guindastes no céu [em inglês, cranes in the sky]. Eles não eram o que eu relacionava com paz e refúgio. Pensei se tratar de uma analogia para minha transição – essa idéia de construir mais e mais e mais que havia no nosso país naquela época, todas essas construções em excesso, sem lidar com o que estava bem na nossa frente. E todos sabemos como isso terminou. Foi uma catástrofe. E essa frase pareceu um indicativo do que estava acontecendo na minha vida também. Oito anos depois é interessante ver que estamos novamente sem enxergar o que está acontecendo no país, sem vontade de colocar essas coisas ruins em perspectiva.”

Beyoncé ressalta que uma das características marcantes de A Seat at the Table é o vocal doce e sereno de Solange. A irmã mais revela que essa forma de cantar foi algo intencional e vai em contramão da imagem que se tem sobre o temperamento de mulheres negras.

“Foi muito intencional que eu cantasse como uma mulher que tinha muito controle, uma mulher que poderia ter essa conversa sem espernear e gritar, porque eu sempre sinto que quando as mulheres negras tentam ter essas conversas, não somos retratadas como estando no controle, mulheres emocionalmente íntegras, capazes de ter conversas duras sem perder esse controle. (...) Eu queria encontrar uma forma feliz, sentindo como se estivesse sendo direta e clara, mas também sabendo que esta era uma conversa que eu estava no controle — capaz de ter esse momento, de existir nele, de viver nele e ponderar, não e gritar e lutar pelo meu caminho — eu estava fazendo o suficiente disso na minha vida, então eu queria fazer uma distinção clara de mim controlando essa narrativa.”

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As duas ainda conversaram sobre os dilemas que uma mulher enfrenta ao tomar o controle de sua própria trajetória.

"Uma coisa que eu constantemente tenho que lutar contra é não me sentir arrogante quando eu digo que eu escrevi todas as letras deste álbum. Ainda não consegui dizer isso. Essa é a primeira vez que eu realmente falei isso, por causa dos desafios que enfrentamos quando comemoramos nosso trabalho e nossas realizações. Eu me lembro de Björk dizendo que independente da fase na qual sua carreira estava, ela sentia que se um homem era creditado em algo que ela fez, era ele quem levaria o crédito pelo trabalho. E, infelizmente, isso ainda parece ser verdadeiro. É algo que eu aprendi muito sobre você, isso de estar no controle de sua própria narrativa. (…) Eu sinto que estou me aproximando disso, de me defender e dizer: ‘Não, estou desconfortável com isso’. E eu realmente aprecio você e mamãe serem exemplos disso, da capacidade de falar sobre nossos feitos, essas coisas que merecem ser celebradas, sem se sentir tímida.”

E será que Beyoncé foi uma boa irmã mais velha? Solange revela:

“Você arrasou. Você foi a irmã mais paciente, carinhosa e maravilhosa de todas. Nesses 30 anos que estamos juntas, podemos contar em uma só mão quantas vezes realmente discutimos.”

Maravilhosas! <3

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