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Globo de Ouro 2017: Meryl Streep faz poderoso discurso alfinetando Donald Trump ao receber prêmio

09/01/2017 10:23 -02 | Atualizado 09/01/2017 10:23 -02

Emocionada, politizada, direta e contundente.

Assim foi o discurso da atriz Meryl Streep ao receber o prêmio Cecil B. DeMille Award pelo conjunto da obra, no último domingo (8). Ela recebeu a honraria pelas mãos da também premiada Viola Davis.

Ao apresentar Meryl, Viola disse:

Ela te observa. Essa é a primeira coisa que você nota sobre ela: Ela inclina a cabeça para trás com aquele sorriso malicioso suspeito e realmente te observa. E você pensa, 'Eu tenho algo nos meus dentes? Ou ela quer chutar minha bunda?' O que realmente não vai acontecer. E então ela te faz perguntas.

E após algumas piadinhas, ela disse, emocionada:

E enquanto ela continua a olhar, você percebe que ela vê você e, que, como uma máquina alta potência, ela está gravando você. Ela é uma observadora e uma ladra. Ela revela o que roubou naquele lugar sagrado que é a tela. Ela torna os personagens mais heróicos vulneráveis, o familiar mais conhecido, no mais desprezível

E ainda não acabou a emoção. Viola disse:

Sua arte nos lembra o impacto do que significa realmente ser um artista: que é para nos sentirmos menos solitários. Eu só posso imaginar para onde você vai, Meryl, quando desaparece em um personagem. Eu imagino que você está neles, esperando pacientemente, usando-se como um canal, incentivando-os a liberar toda a sua confusão, confessar, expor, para viver. Você é uma musa. Seu impacto me incentivou a ficar na linha, Streep. Eu te vejo. Eu te vejo.

E finaliza:

Você me faz ter orgulho de ser atriz. Você me faz sentir que o que eu tenho em mim - meu corpo, meu rosto, minha idade - e é suficiente. Você encapsula aquela grande citação de Emile Zola que se você me perguntar como artista o que eu vim para este mundo para fazer, eu como um artista diria, eu vim viver em voz alta.

Assista o discurso de Viola aqui:

E Meryl Streep, da plateia, assistiu emocionada. Ao subir ao palco e iniciar seu discurso poderoso, Meryl disse:

Obrigada, Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood. E só para citar o que o Hugh Laurie disse: Você e todos nós aqui pertencemos aos grupos mais desprezados da sociedade norte-americana atualmente, pensem nisso: Hollywood, estrangeiros e a imprensa. Mas, quem somos nós? O que é Hollywood?

E continua, falando das nacionalidades diferentes dos atores para citar a diversidade que há em Hollywood:

Ela é feita de um monte de gente, de vários lugares. Eu nasci e cresci nas escolas públicas de Nova Jersey, Viola veio da Carolina do Sul, Sarah Paulson nasceu na Flórida e foi criada pela mãe solteira no Brooklyn, Sarah Jessica Parker é uma das sete ou oito crianças de Ohio, Amy Adams nasceu em Vicenza, na Itália, e Natalie Portman nasceu em Jerusalém.

Em alusão aos pedidos de Trump para ver os documentos de Barack Obama, ela disse:

Onde estão suas certidões de nascimento? Ruth Negga nasceu na Etiópia, foi criada na Irlanda e está aqui indicada pelo papel de uma jovem da Virginia. Ryan Gosling, como todas as pessoas boas, é canadense. E Dev Patel nasceu no Quênia, cresceu em Londres e está aqui indicado pelo papel de um indiano criado na Tasmânia. Hollywood está lotada de forasteiros e estrangeiros e, se os deportássemos, vocês não teriam nada para ver além de futebol e MMA, o que nada tem a ver com arte.

Mas, para ela, teve uma atuação em especial que não foi nada agradável:

O único trabalho de um ator é entrar na vida outras pessoas e fazer com que elas sintam como isso é. E há várias performances neste ano que fizeram exatamente isso, mas há uma performance que me chocou.

A performance, segundo Meryl, foi a fala de Trump sobre um jornalista com uma doença congênita:

Eu ainda não consigo tirar isso da cabeça porque não aconteceu num filme, e sim na vida real. Esse instinto de humilhar, quando feito por alguém numa plataforma pública, afeta a vida de todo mundo, porque dá permissão para outros fazerem o mesmo. Desrespeito convida desrespeito. Violência incita violência. Quando os poderosos usam sua posição para intimidar outros, todos nós perdemos.

Ela ainda lembrou ainda que o Globo de Ouro é entregue pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA, na sigla original), e falou que é dever da imprensa continuar cobrando responsabilidade dos poderosos, convidando seus colegas a proteger os jornalistas:

Precisamos que a imprensa mostre todos esses atos. Peço que a nossa comunidade ajude a proteger os jornalistas, porque precisamos deles mais do que nunca

Ao encerrar seu discurso, Meryl lembrou Carrie Fisher, que morreu no último dia 27 de dezembro de 2016.

É Como minha amiga querida, princesa Leia, disse para mim uma vez: Pegue seu coração partido, e faça dele arte.

Assista ao discurso completo (em inglês) aqui:

E o que podemos dizer sobre isso? Apenas:

E parece que as celebridades não contiveram sua emoção ao assistir o discurso de Meryl:

ATUALIZAÇÃO:

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou Meryl Streep como "amante de Hillary [Clinton]", ao reagir ao discurso da atriz no Globo de Ouro, que aconteceu neste domingo (8). Em entrevista ao The New York Times na manhã desta segunda (9), Trump disse que não assistiu à fala de Streep, mas que não ficou surpreso com o ataque do que chamou de uma das "pessoas liberais do cinema". Em sua página no Twitter, ele também comentou o assunto, criticando a atriz:

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