NOTÍCIAS

'A rebelião não acabou e não acaba fácil', diz especialista em segurança pública

02/01/2017 22:12 BRST | Atualizado 02/01/2017 22:12 BRST
Divulgação/Secretaria de Administração Penitenciár

Em menos de 24 horas, três rebeliões. Em uma delas, ao menos 56 mortos. O resultado não é o início nem o fim de um verdadeiro massacre. Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, decreta: ‘a rebelião não acabou e não acaba fácil’.

O motivo, segundo ele, é o próprio sistema prisional brasileiro. Apenas um sistema que deixa o cotidiano dentro do cárcere nas mãos dos presos é capaz de permitir facções criminosas tão bem organizadas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e rivais, como Comando Capital, aliado da Família do Norte. Ambos envolvidos no massacre de Manaus.

A guerra por poder, que significa o comando do tráfico dentro e fora do presídio, já pipoca há anos. Só nos Norte, nos últimos meses houve rebeliões em estados como Roraima e Rondônia, com pelo menos 18 mortes.

O número é baixo comparado ao massacre iniciado na tarde do dia 1º em Manaus. Das três rebeliões registradas, a do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) deixou pelo menos 56 mortos, tornando essa a maior matança atrás do Carandiru - que teve 111 detentos mortos em 1992, em São Paulo.

A rebelião iniciada no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat) chegou ao Campaj e, em seguida, ao Centro de Detenção Provisória Masculino, todos em Manaus.

Ao HuffPost Brasil, Guaracy explicou como nascem e se sustentam as facções criminosas. Uma guerra muito longe do fim e com tendência a se alastrar por outros estados do País, explicou o pesquisador na entrevista a seguir:

HuffPost Brasil: O que leva a rebeliões e sucessivas matanças como essas?

Guaracy Mingardi - O que leva a essa matanças é o nosso modelo de presídio. Nosso modelo é assim e sempre foi: o Estado cerca o pessoal e fala ‘não pode sair daí, vocês se viram aí dentro’. Então, na verdade, deixa o controle do cotidiano para os presos. Isso favorece a criação de organizações criminosas para os presos. Não deve ter em nenhum lugar do mundo tanta organização criminosa em cadeia como no Brasil.

Quem controla os presídios hoje?

A primeira grande foi o Comando Vermelho, depois o Primeiro Comando da Capital, a Família do Norte, o Primeiro Grupo Catarinense, de Santa Catarina… Todo lugar tem seu grupo. O maior deles é o PCC, sem dúvidas. Está em 22 estados, em alguns domina, outros, não. SP, Paraná e Mato Grosso do Sul, os presídios são controlados pelo PCC. Em São Paulo são mais de 150 mil. Imagina quantos presos ele controla…

Ao que isso se deve?

O Estado abre espaço porque é mais fácil. Depois daquele grande enfrentamento com o PCC, em 2006, não teve mais rebelião em São Paulo. Porque não teve? Porque você praticamente firma um acordo, o Estado não se mete com eles e eles não se rebelam. Tanto que estão com medo agora porque 13 dos líderes do PCC foram para o regime diferenciado e há o temor de uma rebelião agora em janeiro. Você tem esse sistema, que propiciou o crescimento dessas organizações.

O PCC seria o principal comandante hoje?

O PCC é o mais organizado deles disparado, ele cobra mensalidade dos membros, dá ajuda para as famílias. Em São Paulo, disponibiliza ônibus para as famílias visitarem os presos. Uma série de coisas que eles fazem informalmente e facilitam a vida dos presos. Eles agregam gente e o discurso deles tem mais impacto por causa disso, é organizado e passa essa segurança. O PCC estava se expandindo pelo País e isso fez com que aumentasse a resistência dos criminosos locais.

Por isso, essa reação?

Isso acabou fazendo o Comando Vermelho, que estava em decadência, crescer de novo. Não que ele estivesse presente em todos os lugares, tem lugar que tem dois, três membros. O grupo Família do Norte, por exemplo, tem em meia dúzia de estados, se aliou ao CV. É o prestígio político e algum grau de organização que o CV traz para eles. O PCC se expandiu apesar da resistência e agora nos últimos tempos estão brigando em praticamente todos os estados com o CV e os aliados. Isso vem acontecendo periodicamente. Já teve a rebelião em Rondônia, Roraima.

O que eles querem?

Querem o controle da cadeia, que significa o tráfico de drogas dentro da cadeia, e querem o controle fora, que significa o tráfico de drogas fora da cadeia. Não é uma coisa ideológica, do tipo 'estou brigando porque eles são de fora e aqui é o meu lugar', é uma briga que envolve dinheiro. Não é só mercado, envolve prestígio. Os criminosos antigos que vivem da fama, como são a maioria da Família do Norte, querem seu espaço. Não é como o PCC, que quando o sintonia geral de um estado morre, aquele que comanda, outro é nomeado no dia seguinte. Eles são mais empresariais, mas quanto mais tradicional o grupo, mais essa coisa da honra importa. Foi o que aconteceu e agora eles se mataram lá.

Como fica agora?

Provavelmente vai ter represália em outro lugar. A rebelião não acabou e não acaba fácil. Não vai ser lá, porque lá o PCC não tem força. Ou vão ficar quietos e esperar alguns meses antes de agir.

LEIA TAMBÉM:

- Os números por trás da maior matança em um presídio desde Carandiru

- Homem posta foto ao fugir de presídio em Manaus e vira meme

- Em cartas, autor da chacina de Campinas revela ódio de mulheres: 'Quero pegar o máximo de vadias'