NOTÍCIAS

Como o cinema nos leva a pensar sobre a loucura e sentimentos desconfortáveis

02/01/2017 16:53 -02 | Atualizado 02/01/2017 16:53 -02

nise silveira saúde mental

Elenco de Nise - O Coração da Loucura

Normalidade e loucura sempre tiveram as fronteiras borradas, até imperceptíveis em alguns casos. Por vezes, bastou o copo "encher de água" para sair de uma e "entrar" na outra.

Por séculos a humanidade lidou com a loucura a partir da segregação, isolando os loucos em sanatórios, hospícios ou dispositivos que os privassem do convívio social. Mas imagine o tamanho da angústia ao perceber quão frágil é este modelo, no qual quem decide quem é louco e quem é são é o próprio homem.

A sanidade passou a ser obrigatória em todos os sujeitos, mesmo quando a rotina, o trabalho, a pressão, a falta de cuidados básicos, a ausência de empatia e o individualismo orientam para reações explosivas e completamente fora do controle.

O esgotamento e o sofrimento mentais até são admitidos como uma realidade, mas não daquelas que atraem pausa, cuidado e prevenção. São considerados fraqueza e ausência de racionalidade. No dia a dia, fortes são aqueles que ignoram as próprias emoções e sabem levar a vida com frieza em todas as situações. Uma premissa encantadora, mas bem distante do que ocorre de fato, em que pessoas explodem umas com as outras no trânsito, ignoram pedidos de ajuda e destilam ódio anônimo e impune na internet.

a loucura entre nós

Cena do documentário A Loucura Entre Nós

Loucos povoaram o cinema em 2016 e colocaram em xeque a estigmatização de pessoas a partir de comportamentos que rompiam com a lógica esperada e cujas existências desafiavam a sanidade desenfreada exigida em nossa sociedade. "Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura", dizia a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999).

A história dela foi tema da ficção Nise - Coração da Loucura, dirigida por Roberto Berliner e lançada em abril do ano passado. A senhorinha miúda de feitos gigantes se rebelou contra a psiquiatria que aplicava violentos choques para "ajustar" pessoas e propôs um tratamento humanizado, que usava a arte para reabilitar os pacientes. Esquizofrênicos marginalizados e esquecidos puderam ser autores de obras hoje expostas no Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro (RJ). A produção artística simbolizou o renascimento daquelas pessoas, até então sem nome e sem espaço, para a sociedade.

"Ninguém suporta pessoas que dão respostas inadequadas para as solicitações da vida. Queremos elas o mais longe possível", lamenta Berliner em entrevista ao HuffPost Brasil.

No filme, Nise é interpretada por Gloria Pires, que comove sem recorrer à pieguice. Ela transmite o olhar carinhoso que Nise destinou à loucura e àquelas pessoas segregadas. Os loucos, então, vão se particularizando: Conhecemos seus nomes, suas histórias, suas frustrações, limitações e sonhos. Toda uma vida baseada na invisibilidade ganha contornos e traços de pertencimento ao mundo. "Fazer o bem sem olhar a quem. Ela tinha essa conduta na vida dela", destaca Pires ao HuffPost Brasil.

Loucos silenciados

A busca pela normalidade é uma jornada árdua, mas poética, no documentário A Loucura entre Nós, dirigido por Fernanda Fontes Vareille. O filme captura o universo do hospital psiquiátrico Juliano Moreira, em Salvador (BA), e dá voz a pacientes da instituição. A palavra que vem destas pessoas é empoderadora, na medida em que revela nuances, gostos e desejos de quem vive silenciado.

Em um lamentável e extenso período da história brasileira, o aprisionamento se tornou endereço de crueldade e de abuso de poder no Hospital Colônia, em Barbacena (MG). Sessenta mil brasileiros, incluindo crianças, morreram lenta e silenciosamente entre as décadas de 1930 e 1980. Um genocídio no maior hospício do Brasil. O Holocausto Brasileiro, como foi apurado e nomeado pela jornalista Daniela Arbex, se transformou em um documentário em 2016, produzido pela HBO Brasil.

Na tragédia brasileira, os pacientes internados à força foram submetidos ao frio, à fome e a doenças. Foram torturados, violentados e mortos. Seus cadáveres foram vendidos para faculdades de medicina, e as ossadas comercializadas. E em meio a tantos horrores, Arbex localizou sobreviventes e extraiu deles lembranças tristes, porém necessárias, e também relatos esperançosos e cheios de ternura.

holocausto brasileiro

Saúde mental e cultura

A saúde mental geralmente é reduzida à mera polarização entre doença e sanidade, mas vai muito além e diz respeito sobre nossos comportamentos do dia a dia e nosso modo de estar no mundo. Se existe afeto, a saúde mental está envolvida. A intolerância e a dificuldade com as diferenças que vemos nas relações entre nós, sujeitos, trazem indicativos de nossa cultura.

No caso da cultura brasileira, ela tem um grande entrelaçamento com a psicanálise, como mostra o documentário Hestórias da Psicanálise, de Francisco Capoulade. Com entrevistas de psicanalistas e tradutores, o filme aborda a descoberta de Sigmund Freud, e a prática psicanalítica no Brasil ao longo de décadas. É um documento que enaltece o valor da linguagem como condutor primordial de sentidos, constituídos nos laços que fazemos e nas histórias que nos cercam.

hestórias da psicanálise

Cena de Hestórias da Psicanálise

Além dos registros documentais, a criatividade da ficção também movimentou o cinema. O delicado Divertida Mente, vencedor do Oscar de Animação, traz uma reflexão necessária sobre o papel da tristeza em nossas vidas.

Já o sensível e emocionante O Quarto de Jack mostrou a força do imaginário de uma mãe decidida a prover uma realidade cheia de ternura e sonhos para o filho. Eles vivem uma situação de horror, e é a relação de ambos o motor para todas as mudanças.

o quarto de jack room

O Quarto de Jack

Há mais de 100 anos o cinema vem despertando emoções diversas em seus espectadores. A boa notícia é que questionamentos vividos na telona "vazam" para a vida real e provocam novas maneiras de pensar. O maravilhamento prometido pelos irmãos Lumière é também capaz de comover e de despertar empatia. É, sem dúvida, um veículo possível para enxergarmos e admitirmos nossas loucuras. Assim, quem sabe, nos aproximamos uns dos outros, em vez de provocar tantos afastamentos.

Viver bem é o tipo de desejo tão universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta, o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o próprio caminho. A newsletter de Equilíbrio vai trazer a você textos e entrevistas sobre saúde mental, angústias, contradições e alegrias da vida. Assine aqui para receber novidades no fim de semana.

LEIA MAIS:

- O cinema e a literatura podem dar aquela valorizada nas nossas vidas comuns

- O holocausto brasileiro e os estragos irreparáveis do silêncio

- Indicado ao Oscar, 'O Quarto de Jack' leva às telas uma história de beleza forjada no horror