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Uma senhorinha está apagando mensagens nazistas e racistas nas ruas da Alemanha

30/12/2016 13:06 -02

irmela schramm

Há três décadas, a professora Irmela Mensah-Schramm, de 70 anos, sai às ruas de Berlim e outras cidades alemãs com o propósito de apagar aquilo que não deveria sequer vir à tona: mensagens de ódios nazistas e fascistas.

No começo, elas as removia com chaves. Hoje, o kit é mais apropriado e tem removedor de tinta, um raspador e uma lata de spray.

No lugar de uma suástica, por exemplo, um coração pichado com spray. Ela estima que tenha removido mais de 130 mil pichações e adesivos de ódio no país.

O ativismo de Schramm percorre países além da Alemanha e indica uma preocupação com uma realidade que ela não quer esquecer, mesmo não a tendo vivido. Ela nasceu no fim da Segunda Guerra Mundial e se tornou ativista na década de 1960, com participação em diversos movimentos antinazistas.

O discurso de ódio e intolerância que poderia ter ficado no passado, porém, tem encontrado ressonância em milhares de pessoas no mundo.

O Instituto de Direitos Humanos da Alemanha registrou mais de 10 mil crimes de ódio em 2015, um aumento de 77% em relação ao ano anterior. Grupos de extrema direita têm se aproveitado do medo e das suspeitas de alguns alemães em relação a imigrantes e refugiados para espalhar preconceitos - o país é um dos principais países abertos ao refúgio e em 2015 recebeu 900 mil solicitações de asilo. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, perdeu popularidade por conta de sua política de acolhimento.

Além disso, o neonazismo vem crescendo na Alemanha. Autoridades do país identificaram 22 mil alemães ligados a grupos de extrema direita. Entre eles, 11,8 mil potencialmente violentos, segundo reportagem do Jornal Nacional.

Os extremos estão voltando", afirma ao HuffPost Brasil Robert Muggah, especialista em segurança e desenvolvimento e um dos fundadores do Instituto Igarapé.

À CNN Schramm falou que está bastante preocupada com essa campanha de ódio e que queria fazer alguma coisa.

"Não queria simplesmente falar palavras vazias. Queria fazer algo concreto. Eu poderia olhar para um grafite com uma suástica e um escrito nazista e dizer 'oh, que péssimo' e seguir em frente. Mas ninguém se atrevia a fazer alguma coisa a respeito. Bem, eu não quero esperar que alguém faça algo contra isso."

Se na década de 80 ela removia caricaturas cruéis de judeus e africanos com slogans nazistas. agora ela se depara a mensagens anti-muçulmanas com retórica neonazista, explica à CNN.

Schramm recebeu diversas ameaças violentas, e a engajada senhorinha foi parar na lista de "mais procurados" de um grupo neonazista. Certa vez, ela viu um grafite com a mensagem "Schramm, nós vamos te pegar."

Ela teve o ativismo reconhecido pelo governo alemão, mas não é uma unanimidade. A Justiça da Alemanha está processando Scharamm por danos ao patrimônio público. Nos tribunais, ela alega que não pode ser punida por combater o ódio, segundo o Jornal Nacional.

Em entrevista à CNN, ela reconhece que, com o crescimento dos movimentos de extrema direita e com o preconceito aos refugiados, a luta talvez nunca chegue ao fim. Mas isso não a desanima:

"Sempre senti que, se você não faz alguma coisa, isso [mensagens de ódio] nunca vai parar."

  • JOHN MACDOUGALL via Getty Images
  • JOHN MACDOUGALL via Getty Images
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