ENTRETENIMENTO

Como a Mulher-Maravilha se tornou um símbolo feminista

30/12/2016 16:55 -02 | Atualizado 30/12/2016 16:55 -02

wonder woman

Quando a Mulher-Maravilha estreou em All Star Comics #8, gibi da DC Comics lançado em 31 de dezembro de 1941, naquele mesmo mês, a base norte-americana de Pearl Harbor foi atacada pelo exército japonês, marcando um dos episódios mais sangrentos e trágicos para os Estados Unidos na II Guerra Mundial. A operação levou à entrada do país no conflito.

Nas bancas, milhões de revistas de quadrinhos eram vendidas – era a chamada “Era de Ouro” delas, dominadas principalmente por homens em papéis de protagonismo. A chegada da Princesa Amazona causou o revés nesse cenário.

“A DC Comics estava começando a ser pressionada por quem via ecos do fascismo europeu na violência e na demagogia das histórias”, conta Mac Carter, diretor do documentário Origem Secreta: A História da DC Comics (2010), em entrevista ao HuffPost Brasil.

Uma crítica em particular, feita pelo psicólogo William Moulton Marston (1893-1947) em uma revista, defendia que devido à imensa popularidade dos gibis de super-heróis, a editora deveria ter mais cuidado com seus conteúdos. Foi a brecha que M.C. Gaines, publisher da DC àquela época, viu para tornar-se “amigo de um inimigo”, diz Carter.

O psicólogo, defensor da igualdade de gênero, foi convidado para ser consultor da companhia – e foi daí que surgiu a Mulher-Maravilha, criada por Marston; sua esposa, a também psicóloga Elizabeth Holloway Marston (1893-1993); e o artista H. G. Peter (1880-1958).

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Capa de Wonder Woman #1, desenhada por H. G. Peter

All Star Comics #8 não trazia a personagem na capa, mas mesmo assim representa um marco. No enredo, a origem da semi-deusa já era revelada.

Ela é apresentada na ilha de Temiscira – referência à cidade mitológica da Grécia Antiga –, onde apenas amazonas vivem. O lugar representa um mundo no qual mulheres estão protegidas da hostilidade dos homens. Diana Prince resgata e cuida do humano Steve Trevor, militar da aeronáutica dos EUA cujo avião cai em Temiscira, por quem ela se apaixona.

Segundo Carter, a Mulher-Maravilha é uma das primeiras respostas notáveis de uma editora de quadrinhos às demandas de leitores que queriam se encontrar nas páginas que tanto adoravam ler.

“Hoje, temos personagens de todo tipo e cor representando o vasto público que curte gibis”, conta. “Quadrinhos são uma das mídias mais inclusivas que temos. Agradeça à Mulher-Maravilha por isso.”

william moulton marston

Da esq. para a dir.: Marston, Peter, Sheldon Mayer e Max Gaines (roteirista e publisher da DC, respectivamente), em 1942

Para além da novidade da presença feminina nas páginas de super-heróis, Diana Prince surgiu fazendo comentários sobre o papel da mulher em uma sociedade patriarcal.

O pesquisador Tim Hanley explica no livro Wonder Woman Unbound: The Curious History of the World's Most Famous Heroine (Chicago Review Press, 2014; sem tradução no Brasil):

”Mulheres ativas ou ambiciosas não eram apenas raras [nos quadrinhos], mas também frequentemente más. Mulher-Maravilha transformou esse paradigma ao incorporar a força, a assertividade e a independência geralmente associados à garotas más e vilãs, em um sentido positivo e heroico. A Mulher-Maravilha da Era de Ouro foi uma flagrante rejeição do binarismo da garota boa/má e até criticou o papel da boa garota.”

Empoderada

A Princesa Amazona estrelou uma capa pela primeira vez em Sensation Comics #1, em janeiro de 1942, na qual ela apareceu usando seus braceletes indestrutíveis, uma de suas marcas registradas, para ricochetear balas de criminosos.

Entre outros acessórios, estavam o laço da verdade, que faz com que qualquer pessoa presa por ele seja incapaz de mentir, um vasto arsenal amazônico de tecnologia avançada, e uma tiara que também serve como arma. Além disso, ela é excelente no combate corpo a corpo e na caça; tem força, velocidade, reflexos e longevidade sobre-humanas.

A Mulher-Maravilha, ao contrário de tantas outras mulheres nos gibis naquela época, não tinha nada de “donzela em perigo”. Ela era tão poderosa quanto Superman e Batman, seus colegas da “tríade” da DC – e usava suas força e habilidades para proteger os mais fracos.

Em 1960, na companhia dos dois, além de Aquaman, Flash, Lanterna Verde e Ajax, o Caçador de Marte, ela fundou a Liga da Justiça em The Brave and the Bold #28 (a revista foi lançada no Brasil como O Bravo e o Audaz, pela Panini).

Trina Robbins, quadrinista e pesquisadora sobre mulheres nos quadrinhos, acredita que após a morte de Marston, a Mulher-Maravilha foi “desempoderada” pelos homens que trabalharam nas publicações com a personagem.

“É difícil ser feminista quando você está usando um biquíni que mostra sua bunda”, defende.

“No fim dos anos 1960, ela perdeu os superpoderes e vestia um macacão branco como o de Emma Peel”, diz em referência à personagem de The Avengers, série inglesa de espionagem exibida naquela década (sem relação com os heróis da Marvel Comics). Durante esse período, Mulher-Maravilha deixou de ser heroína e foi transformada em uma superespiã.

A situação mudou nos anos seguintes. Em 1972, quando o feminismo vivia sua segunda onda, ela foi capa da icônica revista feminista Ms. Magazine, da jornalista e símbolo do movimento Gloria Steinem.

wonder woman ms magazine

Isso fez a Mulher-Maravilha se aproximar mais dos EUA como um símbolo da igualdade de gênero, conta Carter.

A revista tinha um artigo que criticava o desempoderamento da personagem feito pelos homens que escreviam e desenhavam as histórias, e pedia que ela voltasse a ser a guerreira amazona criada por Marston.

“Não aconteceu tão logo, mas aconteceu.”

Em 1985, os poderes e origem da Mulher-Maravilha lhe foram devolvidos. Mac Carter diz que, de lá para cá, “variações e retrabalhos continuam até hoje, mas ela permanece, em grande parte, inalterada” – sob a batuta de artistas homens ou mulheres, a Mulher-Maravilha continuou a ser um grande símbolo para a igualdade de gênero.

Entre 2011 e 2014, Brian Azzarello escreveu para a personagem quadrinhos de destaque, que foram elogiados pela crítica e pelos fãs.

Robbins, entretanto, não gosta do conceito usado pelo roteirista. Para ela – que se tornou em 1986 a primeira mulher a desenhar a heroína –, a passagem de Azzarello pelos gibis rendeu uma das piores fases para a Princesa Amazona.

"O melhor da Mulher-Maravilha é a combinação de força e compaixão", disse. "Azzerello fez dela uma deusa da guerra e isso é ridículo, porque a Mulher-Maravilha foi criada para apoiar a paz, e Ares, o deus da guerra, foi tradicionalmente o inimigo dela."

Neste ano, a heroína voltou a ser notícia ao ser nomeada Embaixadora Honorária para o Empoderamento das Mulheres e Meninas pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas dois meses depois, no último dia 14, perder o cargo por ser considerada "muito sexualizada". Uma petição reuniu quase 45 mil assinaturas, embasando-se na cor da pele da personagem e sua "tendência à violência".

Greg Rucka, atual roteirista dos gibis, defende que a Mulher-Maravilha é bissexual, pois apenas mulheres vivem em Temiscira.

Adaptações

De 1975 a 1979, foi exibida pelas emissoras ABC e CBS a série que ajudou a expandir ainda mais a popularidade da personagem.

Protagonizada e imortalizada por Lynda Carter, A Mulher-Maravilha teve bons índices de audiência e chegou a influenciar os gibis: o giro que a personagem faz no próprio eixo para mudar de roupa e acessórios foi incorporado aos quadrinhos.

Embora tenha tido uma bem-sucedida série de TV em live-action e aparecido em inúmeros desenhos animados, a Princesa Amazona nunca teve um longa-metragem de cinema apenas para si.

Durante aproximadamente 20 anos, projetos foram criados e interrompidos. Inclusive, um deles, anunciado em 2005, seria comandado por Joss Whedon, diretor e roteirista dos dois filmes de Os Vingadores, super-heróis da editora rival, a Marvel.

Com a preparação de um universo cinematográfico para seus personagens, a DC incluiu a Mulher-Maravilha em seus planos. Em março deste ano, ela estreou nas telonas em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, dirigido por Zack Snyder, vivida pela israelense Gal Gadot, elogiada pela performance.

Patty Jenkins, de Monster – Desejo Assassino (2003), foi anunciada como diretora do filme em 2014. Com estreia agendada para junho de 2017, a adaptação é esperada ansiosamente – com toda razão – pelos fãs. O enredo, diferente dos quadrinhos, se ambienta na I Guerra Mundial. Veja o trailer abaixo:

Em novembro do mesmo ano, ela também estará em Liga da Justiça, também comandado por Snyder:

Pelo que ambos os trailers demonstram, a Diana Prince que estamos em via de ver nos cinemas aos fins de semana é ela em sua essência, que Gail Simone, uma das principais roteiristas que já passaram pelos gibis da personagem, define na seguinte frase, em Wonder Woman: Vol. 3:

“Se você precisa parar um asteroide, chame o Superman. Se você precisa resolver um mistério, chame o Batman. Se você precisa terminar com uma guerra, chame a Mulher-Maravilha.”

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