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Instalações médicas sírias foram atacadas mais de 250 vezes este ano

29/12/2016 17:32 -02 | Atualizado 29/12/2016 17:32 -02

O primeiro ataque aéreo aconteceu às 9h02 do dia 15 de fevereiro. Enquanto equipes de resgate se dirigiam ao local às pressas, os aviões de guerra sobrevoaram a área e voltaram para o “segundo golpe”, bombardeando o hospital isolado no noroeste da Síria pela segunda vez, minutos mais tarde. E por uma terceira vez. E uma quarta.

Vinte e cinco pessoas morreram, incluindo nove profissionais de saúde e cinco crianças. Funcionários e voluntários que sobreviveram ao ataque ao hospital da ONG Médicos Sem Fronteiras levaram as vítimas ao centro mais próximo de atendimento emergencial, numa cidade vizinha. As bombas os seguiram.

É uma ironia trágica e tenebrosa: hoje em dia, os hospitais estão entre os lugares mais perigosos da Síria. Houve 252 ataques a instalações de saúde sírias até agora em 2016, segundo a entidade sem fins lucrativos Sociedade Médica Síria-Americana (SAMS).

Incontáveis homens, mulheres e crianças doentes ou feridos no país em guerra puseram suas vidas em risco pelo simples fato de procurarem atendimento médico. Muitos dos médicos corajosos que trabalham em hospitais como voluntários, mesmo cientes dos graves riscos pessoais que correm por isso, nunca mais voltam para casa.

“Um dos aspectos que mais definem este conflito desde o início tem sido o fato de ataques ao atendimento médico serem uma parte da estratégia de guerra adotada”, disse Jason Cone, diretor executivo da MSF nos Estados Unidos, falando ao WorldPost.

“Hoje em dia, ir ao hospital na Síria é uma iniciativa de alto risco. Alguns de nossos colegas na Síria relatam que as pessoas não querem ficar mais tempo que o necessário no hospital. Muitos pacientes pedem para receber alta antes de concluir o tratamento médico, porque não se sentem em segurança em um hospital.”

escombros do hospital de idlib

Um funcionário da defesa civil revista os escombros de um hospital bombardeado na província de Idlib, em 15 de fevereiro de 2016.

As cifras da organização médica mostram que os ataques dobraram de número depois do início da intervenção militar da Rússia no conflito, em setembro de 2015. E houve quase 200 ataques a hospitais desde o dia 3 de maio, quando o Conselho de Segurança da ONU adotou uma resolução condenando a violência contra as pessoas que dão e recebem atendimento médico no país.

Apenas no mês de julho a ONU registrou 44 ataques contra hospitais sírios –um em cada 17 horas--, incluindo 15 na zona leste de Aleppo. Nem um único hospital ou clínica na área da cidade antes sob ataque cerrado saiu ileso.

Dois dos maiores hospitais de Aleppo foram destruídos por bombas no mesmo dia em setembro. Quando um jornalista em um evento de imprensa perguntou ao embaixador sírio na ONU, Bashar Jaadari, se seu governo havia lançado os ataques mortíferos, o embaixador apenas riu e se afastou.

Na realidade, Damasco e Moscou negaram repetidas vezes que hospitais tenham sido escolhidos como alvos.

É difícil acreditar nos desmentidos.

Entre o início do conflito, em março de 2011, e julho de 2016, a ONG Physicians for Human Rights (PHR – Médicos em defesa dos Direitos Humanos) registrou 400 assaltos contra pelo menos 269 centros médicos diferentes na Síria, matando 768 profissionais médicos.

A ONG humanitária admite que seu método de corroboração dos fatos frequentemente leva à subavaliação significativa de incidentes, porque exige que cada ataque, para ser incluído em sua lista, passe por uma revisão rigorosa e seja confirmado por pelo menos três fontes independentes.

“Ocorrem muito mais ataques do que os que conseguimos documentar”, disse ao WorldPost a coordenadora de pesquisas da PHR, Elise Baker. Mesmo assim, mais de 90% dos ataques e mortes documentados foram cometidos pelo governo do presidente sírio Bashar Assad e suas forças aliadas. Entre eles estavam os dois ataques dos quais Jaadari riu.

A contagem feita pela ONU é ainda mais alta. O secretário-geral Ban Ki-moon denunciou fortemente mais de 600 “ataques repulsivos” lançados contra hospitais e clínicas sírios apenas em 2014 e 2015, que deixaram mais de 959 mortos e 1.500 feridos.

As instalações de saúde em Aleppo foram vítimas de ataques especialmente numerosos e devastadores. Em outubro, o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Stephen O’Brien, descreveu o sistema de saúde da cidade como tendo sido “praticamente aniquilado”, com instalações médicas “atingidas uma a uma”.

Em meados de novembro não restavam mais hospitais a ser demolidos em Aleppo. Dias seguidos de ataques aéreos intensos tiraram todos de ação, deixando 275 mil pessoas sem acesso a atendimento médico.

“Quando essa população também é sujeita a centenas de ataques aéreos, o resultado é um índice de mortalidade inimaginável”, disse Baker.

Um dos principais centros de traumatologia de Aleppo foi completamente destruído depois de ter sido bombardeado quatro vezes em menos de três semanas este ano. O hospital, apoiado pela SAMS, já tinha sofrido pelo menos sete ataques anteriores entre 2014 e 2015, segundo a PHR.

Bombardeiros sírios e russos foram responsáveis por todos os ataques.

“Observamos um padrão de ataques em que um mesmo hospital é bombardeado muitas vezes”, disse ao WorldPost o Dr. Ahmad Tarakji, presidente da SAMS.

“Já observamos também que os ataques a instalações médicas não acontecem de modo individual: muitos centros médicos na mesma região são atacados ao mesmo tempo, para paralisar a reação médica em toda a área, aumentando o número de feridos e mortos devido à impossibilidade de atender mesmo a pessoas com ferimentos de grau médio.”

A SAMS opera mais de cem centros médicos na Síria, oferecendo atendimento de saúde geral e especializado. No início de dezembro, a organização anunciou que seus profissionais foram expulsos de Aleppo, depois de todas suas instalações na cidade terem sido tomadas pelo governo sírio.

escombros carbonizados_aleppo

Escombros carbonizados de um hospital em Aleppo, Síria, depois de um ataque em dezembro.

“Com a destruição de ambulâncias, é incrivelmente difícil chegar às pessoas atingidas e levá-las a hospitais ou clínicas”, disse Cone. Ele contou que alguns hospitais sírios estão atendendo pacientes em subterrâneos e em cavernas, para se protegerem de bombardeios aéreos. “Não existe nenhum limite que não tenha sido ultrapassado nesta guerra.”

Especialistas preveem que os problemas de saúde decorrentes da guerra vão durar muito tempo além do próprio conflito. “Há problemas crescentes de longo prazo que vamos encarar por décadas ainda”, disse Baker, destacando a urgência das várias necessidades médicas da população relegadas ao descaso há anos.

“Crianças não estão recebendo vacinas. Pessoas foram amputadas sem receber tratamento adequado de reabilitação. Todo o sistema de saúde da Síria terá que ser reconstruído.”

Tarakji observou que crianças que crescem em uma zona de guerra correm risco maior de apresentar transtornos psicológicos.

“Especialmente nas áreas da Síria que estão sob cerco militar, temos oobservado uma incidência crescente de violência e depressão – sinais de transtornos que não serão tratados facilmente e que se prolongarão por muitas gerações”, ele disse. “Algumas dessas crianças viram seus pais e irmãos morrendo, sendo estuprados ou queimados diante de seus olhos.”

Todo o sistema de saúde da Síria terá que ser reconstruído.

Baker aponta para o fato de que alguns dos hospitais danificados em bombardeios do regime são operados pelo governo.

“É claro que o governo sabe onde se situam, porque foi ele quem os construiu”, ela disse. A ativista afirma que muitos ataques a hospitais foram intencionais, “com toda certeza”, lançados inicialmente para “desmoralizar oposicionistas” e depois para “bombardeá-los até deixá-los submissos”.

Mas Assad continua a negar a responsabilidade síria e russa. Quando o governo americano acusou os regimes de bombardear letalmente um comboio de ajuda humanitária do Crescente Vermelho que levava assistência médica à zona rural de Aleppo, Assad qualificou a denúncia da Casa Branca de “mentiras, nada mais”.

Em entrevista que concedeu à agência de notícias Associated Press dias após o bombardeio, Assad falou: “Eu diria que qualquer coisa que as autoridades americanas tenham dito sobre os conflitos na Síria não tem qualquer credibilidade, em geral”, e descreveu o bombardeio como um ataque terrestre lançado por rebeldes.

Ian Phillips, da AP, respondeu que testemunhas oculares, incluindo familiares das vítimas, descreveram helicópteros, bombas de barril e pelo menos 20 mísseis, observando que apenas os sírios e russos possuem helicópteros.

“Não é possível falar em testemunhas oculares em um julgamento ou acusação como este”, respondeu Assad. “Qual é a credibilidade dessas testemunhas oculares? Quem são elas? Não sabemos.”

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Destroços de caminhões do Crescente Vermelho Sírio vistos após um ataque em 19 de setembro que fez 12 mortos em Aleppo.

“Na Síria, o governo e seus aliados atacam hospitais, médicos, serviços de resgate e pacientes, de modo implacável e intencional”, disse a Dra. Joanne Liu, presidente da Médicos Sem Fronteiras, em discurso veemente perante o Conselho de Segurança da ONU, em setembro.

“Pessoas estão tendo seus aparelhos médicos vitais desligados para que multidões de feridos possam ser tratados. Com as bombas continuando a cair, os médicos nos dizem que estão à espera de sua própria morte.”

Além da constante exposição à morte, dor e sofrimento implacável, os médicos na Síria enfrentam outra dificuldade imensa. Dispondo de recursos extremamente limitados, frequentemente são obrigados a tomar a decisão dolorosa de tratar apenas os pacientes que tenham as melhores chances de sobrevivência, deixando que outros morram, explicou Tarakji.

“As pessoas pensam que esta é uma guerra política e só. Mas não é verdade”, ele disse. “O que está acontecendo na Síria é uma constante violação da humanidade.”

Veja a lista feita pelo WorldPost de maneiras em que você pode ajudar os sírios em crise. Também é possível doar para entidades humanitárias que trabalham na Síria, através do widget CrowdRise abaixo.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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